quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Comer ou não comer de 3 em 3 horas?




Recentemente percebi que esse é um tema cada vez menos comentado. Talvez porque a controvérsia tenha diminuído ao longo do tempo, ou talvez só porque surgiram coisas novas que são mais atrativas de se discutir.

Ainda assim, essa questão da frequência alimentar é um tema que, como vários outros na nutrição, traz dúvidas para muitas pessoas, justamente porque parece não haver consenso. Pessoas diferentes, incluindo profissionais de saúde, terão respostas diferentes para a mesma pergunta. Por isso, é um assunto que provavelmente está mais ou menos junto da história do ovo, que acaba virando piada porque os nutricionistas sempre mudam de opinião sobre as coisas que fazem bem e as que fazem mal para a saúde.

Mas antes de esclarecermos essa questão, que é bem mais simples do que parece, vale a pena começar com a seguinte pergunta: qual é a ideia por trás da teoria do “comer de 3 em 3 horas” ou das “6 refeições por dia”?

Ela se baseia principalmente em dois pilares:

1) Refeições mais frequentes aumentariam o gasto energético, pois o corpo estaria constantemente trabalhando para digerir, absorver e utilizar os nutrientes dos alimentos, o que facilitaria o emagrecimento.

2) Refeições mais frequentes ajudariam a reduzir a fome e aumentar a saciedade, justamente porque o organismos estaria recebendo nutrientes de forma constante e gradual, o que auxiliaria a perda de peso.

Mas o que a ciência diz?

Em 2014, foi publicado aquele que até hoje é o melhor estudo de revisão sobre o assunto. Sim, já é um estudo um pouco mais velhinho, mas ainda sim extremamente relevante — e mais do que suficiente para esclarecer de vez o que sabemos sobre frequência alimentar e emagrecimento.

O grande diferencial desse estudo é que ele incluiu não apenas os ensaios clínicos convencionais sobre o assunto, mas também os controlled feeding trials. Os controlled feeding trials são ensaios clínicos “especiais”, nos quais a ingestão alimentar é estritamente controlada para que seja praticamente nula a influência dos mais diversos fatores de confundimento que envolvem os estudos, os quais poderiam atrapalhar a interpretação dos resultados.

Na maioria dos ensaios clínicos, os participantes evidentemente recebem orientações específicas do que devem ou não devem consumir, de acordo com o que o estudo está se propondo a explorar. Mas, na prática, são os próprios indivíduos que escolhem e preparam suas refeições. Nos controlled feeding trials, por outro lado, as refeições são ofertadas pelos próprios pesquisadores, com o consumo alimentar acompanhado da forma mais controlada possível. Essa é uma forma de garantir que os efeitos observados no estudo serão exclusivamente decorrentes das intervenções sendo testadas, o que faz com que os controlled feeding trials sejam a melhor forma de se avaliar como uma dieta específica influencia os parâmetros que estão sendo estudados.

Considerando apenas os ensaios clínicos convencionais incluídos nesse estudo de revisão, foi observado que o emagrecimento ocorre independentemente da frequência alimentar. E isso foi corroborado por todos* os controlled feeding trials analisados, que chegaram exatamente às mesmas conclusões. Ou seja, isso significa que fazer duas, três, seis ou quantas refeições forem essencialmente não muda a forma como a alimentação afeta a perda de peso. E o mais interessante é que esses resultados foram observados com diversas ingestões calóricas, com diversas frequências alimentares e após diversos períodos de intervenção dietética.


*Na verdade, houve uma exceção. No trabalho de Stote et al. (2008), que se trata de um estudo de jejum intermitente, o emagrecimento foi maior para os participantes do grupo intervenção (20 horas diárias de jejum, 1 refeição por dia) do que para aqueles do grupo controle (3 refeições por dia). Mas esse estudo possui particularidades justamente por trabalhar com o jejum intermitente, e por isso não se encaixa muito bem quando a discussão é apenas sobre frequência alimentar. Para mais informações sobre esse estudo, sugiro a leitura desse texto.


Nas palavras dos autores, no próprio resumo do estudo: "No geral, a consistência dos resultados nulos, provenientes de ensaios clínicos que exploraram a influência da frequência alimentar sobre a perda de peso, sugere que a crença sobre o papel de uma maior frequência alimentar sobre o emagrecimento em pessoas adultas não é sustentada por evidências".

E para quem interessar, a principal tabela dessa revisão:




Resumindo: não tem por que se preocupar com frequência alimentar. É simples assim. Os resultados dos ensaios clínicos mostram, claramente, que o número de refeições realizadas ao longo do dia, quando considerado isoladamente, é um fator basicamente irrelevante se estamos falando de emagrecimento.

Mas vale lembrar que, quaisquer que sejam os estudos que discutimos, os resultados observados normalmente são generalizações. Em contextos individuais, levar em consideração o número de refeições do dia pode ser um fator importante. Isso vai depender das preferências individuais de cada pessoa, assim como das necessidades específicas que um indivíduo pode apresentar. Por exemplo, um homem idoso pode precisar de mais refeições ao longo do dia para garantir que suas necessidades proteicas sejam alcançadas. Por outro lado, uma mulher adulta jovem, com um trabalho que não permite muitas pausas ou cuja preferência é comer menos vezes ao longo do dia, vai estar bem com apenas três refeições diárias.

Se olharmos com atenção, é fácil enxergar as individualidades e respeitar as preferências pessoais. E assim podemos adequar o melhor da nutrição para cada um.


***
Se você vê valor no meu trabalho, considere fazer uma contribuição.



60 comentários:

  1. Sempre relevante esse tema. Comer de 3 em 3 horas não funciona comigo, trabalho o dia todo e é muito chato ter que interromper uma reunião ou uma vídeo-conferência para fazer lanchinho. Fora que teria que ficar preparando dois lanches todo dia de manhã, a hora mais corrida do meu dia.

    Minha vida toda eu fiz 3 refeições ao dia e prefiro deixar assim.

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  2. Muito bom!!!
    Como sempre a ciência nos mostrando que a individualidade é que determina.
    Está com fome? coma! Não está, não coma.

    Não existe uma regra que valha para todos. Parabéns pelo texto

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  3. Boa tarde!
    Pacientes que possuem um HOMA-ir elevado se beneficiariam mais de comer em horários mais afastados?
    Os estudos em geral abrangem pessoas de todos os jeitos, saudáveis, magras, obesas, com RI. Talvez esse seja o problema dos estudos sem significância estatística"

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    1. Olá.

      Na verdade, a maior parte dos estudos determina de maneira satisfatoriamente clara os critérios de inclusão para os participantes, geralmente focando em grupos mais específicos. Por exemplo, os pesquisadores geralmente escolhem trabalhar apenas com pessoas com IMC normal, ou apenas com pessoas com excesso de peso; apenas com adultos (ou crianças), ou incluindo uma faixa de idade mais ampla; apenas com pessoas com síndrome metabólica, ou apenas com pessoas sem síndrome metabólica; apenas com homens ou mulheres (principalmente quando o estudo é mais relevante para algum dos sexos), mas às vezes os dois gêneros. Então isso geralmente não é um problema.

      Mas, considerando o que os estudos de frequência alimentar mostram, o número de refeições diárias também não parece ser muito relevante para pessoas com resistência à insulina (HOMA-IR elevado). Por outro lado, o que pode influenciar bastante é a quantidade total de carboidratos da dieta. Se existe um cenário em que as dietas low-carb normalmente são mais eficazes que as demais dietas mais ricas em carboidratos, é justamente com as pessoas que apresentam resistência à insulina.

      Escrevi sobre isso nesse texto:

      https://cienciadanutricao.blogspot.com/2016/12/quando-dieta-low-carb-nao-e-melhor-para.html

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    2. Obrigado pela resposta.
      Gostaria de saber em relação ao índice glicêmico. Eu já vi há um tempo seu texto sobre a supervalorização do IG.
      Mas quando a gente estuda o problema do excesso de CHO, nos deparamos com os fenômenos de glicação etc
      Não seriam esses fenômenos relacionados mais a piores desfechos (não só ao peso), se comparamos baixos IG com altos?

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    3. O que você quer dizer com glicação? Está falando dos AGEs (produtos finais da glicação avançada)?

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    4. Existe uma ideia equivocada de que os carboidratos da dieta, especialmente os alimentos com alto índice ou carga glicêmica, levam ao aumento na produção de AGEs. Na teoria parece fazer sentido, porque os carboidratos, que entram na circulação sanguínea majoritariamente na forma de GLICose, seriam responsáveis por causar o processo de GLICação. Mas não é isso que acontece.

      Os detalhes são muito complexos para comentar aqui, mas o importante de se saber é que os três macronutrientes, carboidratos, proteínas e gorduras, a princípio contribuem de maneira igual para a produção de AGEs e para o processo de glicação no corpo humano. Ou seja, não é algo exclusivo dos carboidratos, e nem mesmo dos carboidratos de alto IG.

      Na verdade, o contrário pode até ser verdade. Em condições normais, ou seja, em pessoas que não apresentam resistência à insulina, alimentos com maior IG teoricamente podem proteger contra a glicação. Isso porque a insulina, que naturalmente vai ser mais estimulada por esses alimentos, é um fator extremamente essencial para neutralizar a formação de AGEs e o processo de glicação, uma vez que esse hormônio sinaliza para as vias bioquímicas responsáveis por isso. Então, nem mesmo no sentido de proteger contra glicação podemos afirmar que alimentos de baixo IG são preferíveis a alimentos de alto IG.

      Não estou dizendo que um alimento refinado de alto IG é melhor que um alimento não processado de baixo IG. Mas, considerando também a questão da glicação, não existe base para afirmar que alimentos não processados de baixo IG são preferíveis a alimentos não processados de alto IG.

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    5. Discordo.
      Existem pessoas sem diabetes que possuem hemoglobina glicada alta para uma pessoa saudável.
      E esse exame é ótimo preditor de glicação. Uma hemácia glicada é estragada.
      Como você disse, claro que não é a maioria, um atleta provavelmente vai exigir mais carbo e vai glicar bem menos. Mas não é a realidade do povo.

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    6. Sim, é verdade que existem pessoas sem diabetes que possuem níveis de hemoglobina glicada (HbA1c) mais elevados do que o normal. É justamente o que vemos no caso das pessoas que apresentam resistência à insulina.

      De qualquer forma, a HbA1c não chega a ser um ótimo preditor de glicação; é apenas razoável. Primeiro porque só reflete a glicemia correspondente a um período relativamente recente (algumas semanas). Segundo porque a atividade de enzimas que fazem o processo contrário ao da glicação, como frutosamina 3-quinase, pode mudar a forma como interpretamos os níveis de HbA1c de uma pessoa. Além disso, vale lembrar que a genética também tem um papel relevante: o turnover de hemácias, que é diferente para cada um de nós, sendo extremamente lento ou rápido em algumas pessoas, também afeta os níveis sanguíneos de HbA1c.

      Mas tudo isso nem importa tanto. O importante mesmo é ter em mente que os níveis de HbA1c não aumentam por causa de uma maior ingestão de carboidratos e da consequente elevação da glicemia. A HbA1c só vai começar a se elevar quando o organismo começar a entrar no estado de resistência à insulina, que se não for revertido leva ao diabetes.

      É por isso que nem a restrição de carboidratos e nem uma dieta de baixo IG são estratégias que servem como prevenção contra níveis elevados de HbA1c. Essas alternativas podem ajudar a reduzir níveis de HbA1c que já estão elevados, especialmente a restrição de carboidratos, mas não servem como prevenção. A única forma de realmente prevenir o aumento nos níveis de HbA1c, que são um reflexo do processo de resistência à insulina, é garantir uma composição corporal adequada, ou seja, evitando o acúmulo de gordura corporal (especialmente na região abdominal).

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  4. Acrilamida da batata-frita e nitrosamina das salsichas causam câncer? (claro com consumo frequente)

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    1. Olá.

      Não tem como generalizar muito, porque cada tipo de câncer é diferente um do outro. Mas o que a literatura científica mostra é que, para a acrilamida, parece não haver associação de seu consumo com a maioria dos tipos de câncer já estudados. E para a nitrosamina, os estudos são escassos e foram realizados com poucos tipos de câncer, então é algo que realmente não se sabe, embora as evidências (bem preliminares) apontem para uma possibilidade de associação com alguns tipos de câncer.

      De qualquer forma, vale lembrar que os estudos que dizem respeito a seres humanos são todos de caráter observacional, a partir dos quais é extremamente difícil estabelecer relações de causa e efeito. Dito isso e levando em consideração todo esse contexto, o mais simples a fazer é evitar o consumo de alimentos processados.

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  5. Conhece os trabalhos do Dr.Bernstein?
    endocrinologista diabético que escreveu o livro "diabetes solution"?
    O que acha?

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    1. Olá.

      Já li alguns estudos de revisão, sobre o uso de dietas low-carb no tratamento do diabetes, no qual ele participa como autor. Mas sempre como autor secundário, não entre os principais. Logo, presumo que o trabalho e o livro dele sejam em volta disso. Se for, provavelmente concordo com o que ele fala.

      Se quiser, fique à vontade para descrever mais sobre o que ele propõe no livro. Daí posso comentar a minha opinião sobre a abordagem que ele usa.

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  6. Boa tarde. Me permite perguntar algo que não tem a ver com o post?
    Como pode eu pesar X kg antes de deitar, acordar e me pesar e estar 300g a mais?
    Anabolismo não vem do que ingerimos? então eu deveria ter o tanto de gramas que eu engordei no meu estomago/intestino antes de dormir na forma de alimento

    Poderia me explicar isso? desculpa mandar isso aqui, mas é o único modo que vou descobrir isso.

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    1. Olá.

      Antes de responder, eu gostaria de fazer uma pergunta: por qual motivo você quer saber essa resposta? Poderia me explicar a relevância?

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    2. Para entender fisiologicamente como pode. Eu faço educação física e me interesso por essa área e testo tudo em mim.
      Não entendi porque aumentei 300g sem ter ingerido nada neste espaço de tempo

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    3. Ainda antes de responder, tenho algumas perguntas e uma sugestão.

      Você já observou isso mais de uma vez? Já observou de maneira consistente, tentando controlar ao máximo as condições que podem afetar o peso, como roupas, urina ou água ingerida (sei que você disse que não ingeriu nada, mas pode ter bebido água e não ter notado)?

      Se não observou isso mais de uma vez, sugiro que o faça.

      Minha resposta: não sei. Não consigo pensar em nada que daria uma resposta realmente satisfatória. De repente é um problema com a balança, que quando descalibrada pode apresentar variações como essa. De repente pode ter a ver com a temperatura ambiente (diferença de um dia para o outro, ou diferença entre noite e manhã), que de alguma forma influencia o peso ou como a balança afere o peso.

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    4. Obrigado pela resposta. Só de vc dizer que não sabe já me satisfaz porque eu achei que algo muito simples.
      Mas bioquimicamente não tem explicação
      Obrigado!

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    5. Experimente pesar algum objeto, de preferência com o peso da mesma ordem de grandeza do seu, de noite e no dia seguinte de manhã. Se for uma variação na calibragem da balança (provavelmente é) essa diferença aparecerá.

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  7. Boa noite. Poderia falar um pouco a respeito de micoriza
    O agrotóxico pode danifica-la. Qual sua importancia, uma planta que não tenha micoriza ela não absorve mesmo ou é mito.
    Obrigada. Renata

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    1. Olá, Renata.

      Fazendo uma busca rápida, vi que existe uma relação entre fungos e degradação de agrotóxicos. Não é que a planta deixa de captar o agrotóxico, mas essa degradação por fungos, num processo de fitorremediação (se for algo previamente planejado), parece que pode levar a uma menor concentração nos vegetais.

      Mas essa não é minha área, então sinto não poder ajudar muito.

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  8. Olá João, estava lendo uma recomendação de um médico que tem um canal no Youtube (aliás vc deveria ter o seu pela altíssima qualidade que possui) sobre água com limão dos supostos malefícios etc. E vc o que teria a dizer sobre o assunto? Eu por ex. sempre bebi limonada e nunca tive problema algum. Grande abraço. Valdomiro.

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    1. Olá, Valdomiro.

      Poderia citar os supostos malefícios que ele menciona? Porque a partir deles posso falar a minha perspectiva e o que a ciência tem a dizer.

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  9. Parabéns pelo texto.
    Gosto muito do seu blog e sempre passa aqui para ler o conteúdo e perguntas. Não concordo com todos os temas, como por exemplo o do pH que achei inviesado mas no restante está de parabéns.
    Abç

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  10. Olá João. É o médico Fernando Lemos. Aqui o vídeo dele. https://youtu.be/g_UPC8B6g3o

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    1. Ok, vou tocar no que acredito ser mais relevante.

      A parte mais difícil é encontrar fontes confiáveis do real pH do limão, que inclusive deve ser diferente entre as diversas variedades da fruta. E esse ponto é muito importante, porque todo argumento que o médico Fernando Lemos usa, para ser contra a ingestão de água com limão em jejum, gira em torno do fato do pH do limão ser menor que o pH do ácido clorídrico presente no suco gástrico.

      Mas vamos considerar que o limão, invariavelmente, apresenta um pH menor que o do ácido clorídrico. Com isso em mente, devemos nos perguntar: o que a ciência diz sobre o efeito da ingestão de limão sobre a saúde do sistema gastrointestinal? E a resposta é: nada. Porque não existem estudos diretamente explorando esse tema. Então não podemos ter certeza que o limão, com seu pH baixo, realmente estaria causando problemas no trato gastrointestinal devido a sua acidez. Simplesmente porque não existem estudos.

      Porém, quando não temos estudos a respeito de um determinado assunto, podemos pensar na biologia e na fisiologia do organismo para tentarmos entender o que pode estar acontecendo. Ainda considerando o limão com um pH inferior ao do ácido clorídrico do estômago, conseguimos facilmente concluir, pela lógica da fisiologia, que o estômago muito possivelmente será prejudicado por uma acidez que está abaixo daquilo que ele normalmente estaria preparado para conter.

      E daí devemos colocar duas coisas em perspectiva: supostos benefícios x possíveis malefícios da ingestão da água com limão em jejum. O argumento das pessoas que são a favor dessa prática simplesmente não possui embasamento científico. E não é que não existem estudos sobre isso. A ciência mostra que dietas e alimentos “acidificantes” não apenas não são prejudiciais, mas que podem até ser benéficos no sentido de possivelmente melhorar problemas atribuídos a um organismo “acidificado” (osteoporose é o principal exemplo). E não tem nada que sugira benefícios diretos provenientes da “alcalinização” do sangue ou do organismo. Inclusive escrevi uma série de textos sobre esse assunto:

      https://bit.ly/2QA5OTS
      https://bit.ly/2LhqDxy
      https://bit.ly/2Blkyvy

      Junto a isso, por mais remota que seja a probabilidade, não podemos simplesmente descartar que talvez existam limões com pH mais baixo que o pH do ácido clorídrico do estômago, ou até que a maioria dos limões se encaixe nesse cenário. Ou seja, por mais que não seja para todo mundo, ou que seja apenas para pessoas que já apresentam algum tipo de alteração no estômago, como gastrite ou úlcera, teoricamente pode existir um risco associado à ingestão de água com limão em jejum.

      Assim, quando juntamos a ausência de benefícios que a ciência mostra e a possibilidade de risco (por menor que seja) dessa prática, podemos tranquilamente concluir que não vale a pena. Se a pessoa acredita que os alimentos "alcalinizantes" trazem benefícios, é só consumir boas quantidades de frutas e hortaliças na dieta. Ela não vai precisar de água com limão em jejum para obter os benefícios nos quais ela acredita.

      Agora, se encontrarmos fontes confiáveis de que o pH do limão é superior ao do ácido clorídrico, todo argumento utilizado pelo médico deixa de ser válido. Ainda assim, não podemos ignorar o que ele fala sobre sua experiência prática com pacientes. Quando não temos dados científicos sobre um assunto, a vivência prática pode nos dizer muito sobre o que observamos. Considerando a frequência de casos que ele relata, começa a parecer coincidência demais um número expressivo de pacientes apresentando problemas gastrointestinais positivamente associados ao consumo de água com limão em jejum. Ainda mais considerando que existe um mecanismo de ação plausível no qual a água com limão poderia ser diretamente responsável por esses problemas.

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    2. Nossa to chocada. Eu bebo todos os dias há 2 anos e sempre pensei me fazer bem.
      Agora com esse briga que teve era o médico Fernando e o Lair eu fiquei confusa e vc só confirma a tese do Fernando.
      Obrigada vou refletir

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    3. Evidências de estudos científicos não existem, nem para confirmar e nem para refutar a ideia de que água com limão faz bem. Por outro lado, vão existir relatos de diversas pessoas e profissionais falando bem e falando mal.

      A questão é: melhor experimentar para ver se o consumo de água com limão traz benefícios, ou melhor deixar de lado para não correr o risco de complicações que, segundo o relato de algumas pessoas, podem ser relativamente sérias? Até que ponto os possíveis benefícios valem a pena sobre os possíveis riscos?

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    4. E estudos com refrigerante, tem? Qual a segurança
      o pH da água misturada com limão espremido supera o pH de 2, que é o aproximadamente de um estômago saudável, baseando-se nisso não tem como dizer que água com limão é corrosiva para o estômago e duodeno, cono dito pelo médico Fernando, também discordo das alegações do Lair que diz da "importância" de fazer isso toda manhã.
      No fim eu acho que faz quem quer. Mas alarmar isso é ridículo

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    5. Também nunca encontrei estudos avaliando diretamente o efeito de refrigerantes na integridade física do estômago ou do trato gastrointestinal. É bem possível, e até provável, que não existam trabalhos avaliando alimentos específicos nessa área de pesquisa.

      Talvez o pH do limão seja superior a 2, mas talvez não. Digo isso porque não sei se existem fontes confiáveis com essa informação. Se você afirma que é superior a 2, pode nos dizer a fonte de onde tirou essa informação?

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  11. Agradeço a gentileza da resposta e, faço alusão a seguir; http://dietacomciencia.com/melhores-sites-de-alimentacao-e-emagrecimento/

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  12. Gostaria de saber porque nós acumulamos gordura na barriga e não nos braços, pernas, rosto... sou muito magro, entretanto to com "barriga" passei no nutricionista para uma dieta com foco em hipertrofia, ele passou muito carboidrato ate como suplemento e eu to aumentando muito a barriga. Faço abdominal e pouco aerobico pq não quero perder peso...
    Teria alguma dica de longe pra me da?
    Te acho muito inteligente. Obrigado. Pedro Fortini

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    1. Olá, Pedro.

      Nem todo mundo acumula gordura principalmente na região abdominal, como acontece com você. O padrão de acúmulo de gordura em determinadas regiões do corpo é algo particular, determinado pela genética da pessoa.

      Você está acumulando gordura porque está consumindo mais calorias do que precisa, principalmente dos carboidratos adicionais. O fato de ser na região abdominal é só uma consequência da sua genética. Se fosse uma pessoa que tem tendência de acumular gordura de forma mais generalizada no corpo, esse excesso de calorias seria incorporado no tecido adiposo nas mais diversas regiões do corpo: braços, pernas, barriga, rosto etc.

      Vou deixar algumas sugestões:

      1) Reduzir a ingestão total de calorias, seja de carboidratos ou não, até encontrar o ponto "ideal" em que ocorre o ganho de massa muscular com o mínimo possível de ganho de gordura corporal. No seu caso, reduzir pelo menos parte dos carboidratos suplementados parece ser a forma mais fácil de fazer isso.

      2) Concentrar os carboidratos mais nas refeições imediatamente pré-treino ou imediatamente pós-treino. Dessa forma, diminui a chance do corpo converter o excesso das calorias dos carboidratos em gordura corporal.

      3) Aumentar a intensidade do treino. Aqui, isso se aplica apenas se o seu treino não estiver no máximo que ele pode estar. Mas eu costumo ressaltar esse ponto porque é bem comum que o treino da maioria das pessoas não esteja tão intenso quanto poderia estar. Treinos mais intensos por si só são capazes de reduzir o acúmulo de gordura corporal. E ainda tem outro benefício: quanto maior a intensidade, maior é o ganho de massa muscular.

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    2. Muito obrigado por essas valiosas dicas.
      Faz muito sentido o que vc disse, estou tendo exatamente o mesmo tipo de barriga do meu pai.
      Sobre o treino é verdade, eu posso tentar aumentar mais a intensidade sim e em relação aos carboidratos vou pensar como faço isso...
      Muito obrigado pela sua atenção.

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    3. Tenho uma dúvida, aí neste caso seria mais interessante ingerir CHO no pré- e pós, e aumentar os treinos aerobios ou indifere?

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    4. É muito relativo. Só com informações adicionais sobre um caso específico para poder responder com mais certeza. E mesmo assim, só o tempo e a experimentação de fato mostram o melhor a se fazer.

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  13. Boa tarde. Poderia me tirar uma dúvida sobre cálcio?
    Eu reponho vitamina D e no sangue está em torno de 40-50. Porém o nível de cálcio iônico sempre fica inferior ao valor de referência, geralmente o meu está em torno de 1,15 (VR: 1,17 A 1,32 )

    Isso significa que devo aumentar a vitamina D ou que devo ingerir mais laticinios etc?

    Obrigada

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    1. Olá.

      No laboratório aqui de Brasília no qual eu costumo pedir exames de sangue, o valor de referência para o cálcio iônico é 1,12 a 1,32 mmol/L. Considerando esses números, você estaria dentro do esperado.

      Mas você pode experimentar com as possibilidades que você mesmo levantou. Se optar por isso, eu recomendaria primeiro ver como uma maior ingestão de cálcio na alimentação pode influenciar o cálcio iônico. Caso não mude, eu testaria a suplementação de vitamina D.

      Ainda assim, o mais importante é não se preocupar muito. Porque os níveis de cálcio iônico que você apresenta ainda estão dentro da normalidade para a maioria das pessoas.

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  14. Eu queria me atualizar na nutrição. Só a faculdade não nos garante sermos bem remunerado, hoje o mercado exige atualização. penso em fazer uma pós mas seu blog é muito bom. Poderia falar mais nos textos... parabéns
    Obrigado.

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    1. Olá.

      Os cursos de pós-graduação geralmente apresentam qualidade de razoável a boa, mas estão longe de serem a melhor opção em termos de custo-benefício. O ritmo de ensino é relativamente lento e o conteúdo é relativamente limitado, então não acho que sejam as melhores opções para se investir tempo e dinheiro.

      Mas, querendo ou não, acaba sendo a melhor opção para grande parte dos profissionais. Porque é muito mais fácil alguém te passar um conteúdo do que você ir atrás e aprender por conta própria.

      Dito isso, vale ressaltar que os benefícios de estudar por contra própria são muito maiores. Não tem comparação. É verdade que o esforço muitas vezes é maior, e o ideal é que exista uma vontade natural de querer entender e aprender (senão é difícil ir adiante). Mas é mais recompensador.

      O caminho para estudar por conta própria é por artigos. O bom é que com o tempo vai ficando relativamente mais tranquilo, porque temos cada vez mais estudos de revisão sobre os mais diversos temas. E isso ajuda demais para crescer em conhecimento de maneira mais eficiente, mas sem perder qualidade. Talvez a parte mais difícil seja aprender a buscar e selecionar os melhores artigos para estudar, mas isso se aperfeiçoa com o tempo.

      A minha recomendação é sempre estudar ao máximo por conta própria. Se não estiver apto, busque o melhor curso de pós-graduação que puder. Mas ainda assim procure estudar por conta própria, dentro do que for possível para você.

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  15. Dieta pobre em gordura pode predispor a calculo biliar?

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    1. Olá.

      Isso depende do quanto a dieta for pobre em gordura e de fatores genéticos. Mas há boas evidências científicas que indicam sim essa possibilidade.

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  16. Feliz natal e um próspero ano novo! Obrigado pelos esclarecimentos de sempre!

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  17. Minha endocrino pede pra eu comer de 3 em 3 horas pra manter o metabolismo. Do contrário estoco gordura pra poupar o tempo em jejum. Minha endocrino é endocrino mesmo, titulada. Não essas nutrologas que tem por ai. Cada caso é um . procure seu médico especialista, obesidade não é brincadeira.

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  18. Boa tarde. Beber bastante liquido e caprichar nas frutas ajuda nas jacadas do fim de ano? o liquido ajuda ou gera retenção de liquido?
    obrigada

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    1. Olá.

      Se for para "exagerar" nas festas de fim de ano, o melhor a fazer é simplesmente retornar para uma alimentação saudável depois que passar essa época. Se preocupar demais não ajuda muito.

      Mas é claro que, quanto mais equilibrada estiver a alimentação, provavelmente mais em homeostase o corpo estará, mesmo com os "excessos".

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  19. Sua opinião sobre consumo de café por crianças. Vê algum problema?
    Obrigado, próspero 2019. Ricardo

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    1. Olá, Ricardo.

      Se a criança estiver bem de saúde, a literatura científica sugere que quantidades habitualmente consumidas de café (3 a 4 xícaras por dia) a princípio são bem toleradas e não causam problemas.

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  20. O que este estudo traduz, mesmo sendo em ratos?
    https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24194504

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    1. Olá.

      Se trata de um estudo extremamente complexo, e por isso é bem difícil entrar em detalhes sobre todas as implicações que ele pode trazer. O que posso resumir é que ele reforça o que sabemos (que ainda é pouco) sobre a relação entre microbiota intestinal e sistema imunológico. E que o pH da água, ou até mesmo outros fatores capazes de modular a microbiota intestinal, talvez possua influenciar o desenvolvimento de algumas doenças autoimunes.

      Mas é claro que temos que ter calma. Como falei, o estudo é tão complexo que precisamos de mais tempo para entender o que os resultados apresentados realmente significam para a saúde humana.

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  21. Boa tarde, em geral os profissionais dizem que para ter uma barriga tanquinho é preciso dieta, e não só treino.
    O que seria essa dieta? faço dieta ha anos com a nutricionista e nunca chego a ter essa barriga, precisa ser feito a lowcarb? cetogenica?
    como faço pra secar? sou homem tenho 25 anos.

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    1. Olá.

      Em geral, uma boa alimentação costuma ser imprescindível para alcançar esse objetivo. O "problema" é que eu, daqui, sem conhecer nada sobre você, não posso te dizer qual seria a melhor forma de você se alimentar para essa finalidade. Uma dieta low-carb pode ser o caminho, mas não necessariamente.

      Se continuar lendo sobre o assunto, e experimentando para saber o que funciona melhor para você, com tempo e paciência é bem possível que você alcance o objetivo que está buscando.

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  22. Preciso ler sobre dieta prudente
    poderia me recomendar algum livro, artigo etc?

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    1. Olá.

      Segue link para artigos com o termo "prudent diet" no título. Se precisar de ajuda para conseguir o arquivo pdf dos estudos, basta pedir.

      https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed?term=prudent%20diet%5BTitle%5D

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  23. Sua opinião sobre a guerra da água com limão

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    1. Olá.

      Nos comentários mais acima, fiz um resumo do que penso sobre o assunto, baseado num vídeo enviado por outro leitor. Basta dar um Ctrl+F (Windows) ou Cmd+F (Mac) e procurar por "limão" até encontrar o comentário.

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