terça-feira, 7 de julho de 2015

O fantasma do hCG continua vivo




Quase todos os dias, vemos e escutamos uma série de comentários inoportunos ou sem sentido sobre nutrição e alimentação, principalmente nas redes sociais. O crescimento da internet tornou praticamente irrestrito o acesso à informação, assim como fez com que qualquer pessoa possa divulgar qualquer tipo de conhecimento.

Ao ver informações erradas ou tendenciosas divulgadas por uma pessoa leiga, é natural relevar, ignorar ou não levá-las muito a sério. Entretanto, a situação tende a ser diferente e um pouco mais preocupante quando o mesmo acontece com um profissional de saúde.

De fato, esse tipo de situação não me incomoda tanto hoje em dia, mesmo quando informações erradas ou tendenciosas são divulgadas por profissionais de saúde. Mas é claro que existem exceções. E uma dessas exceções, que na minha opinião passou dos limites, foi justamente o que motivou esse texto.


Sobre a “polêmica” do hCG

Em primeiro lugar, não deveria haver polêmica alguma, justamente porque o hCG não confere benefícios adicionais quando administrado junto a uma dieta para perda de peso. É simples. Mesmo assim, as pessoas — inclusive (ou principalmente) profissionais de saúde — insistem em dizer que o hCG é mágico.

O exemplo a seguir, assim como todos os outros casos que endossam o uso do hCG, contribuem para que a “polêmica” se perpetue.


Sobre informação de qualidade

As críticas que vou fazer são referentes a esse texto:

E por que, na minha opinião, esse texto merece críticas? Primeiro, pelo número de acessos e pela potencial influência que ele teve (e ainda tem) sobre a decisão de muitas pessoas em usar ou não o hCG. Em apenas 8 meses, de acordo com a página, o texto foi visualizado mais de 170 mil vezes! Inclusive, se você digitar o termo "hCG" (com ou sem aspas) na ferramenta de busca do Google, o primeiro link a ser apresentado corresponde ao endereço desse site. Em segundo lugar, pelo excesso de conceitos errados e construções falaciosas concebidas no texto.

Ok, vamos agora ao que realmente interessa. Vamos falar sobre qualidade. Inúmeros fatores podem ser importantes para se determinar o grau de confiabilidade ou qualidade das informações que obtemos. Linguagem, nível de aprofundamento, presença de referências científicas e correlações com temas associados são exemplos de características que podem ser avaliadas na hora de determinarmos até que ponto a informação presente num texto sobre saúde, por exemplo, é ou não de confiança. Até mesmo a apresentação estética das informações é capaz de nos dizer um pouco sobre a qualidade da informação ou sobre a atenção que é dispensada ao leitor.

Isso sem contar o básico: acima de tudo, a informação tem que ser correta, precisa e atualizada. Esse certamente é o principal determinante da qualidade da informação.

E por que estou falando disso? Porque a primeira coisa que se observa no texto é um certo “descaso” com o leitor. São vários erros de português, formatação inadequada, conceitos confusos e frases sem coesão e sem coerência. Como profissional de saúde e autor de um blog, tenho sempre presente a preocupação de que meus pacientes e leitores obtenham não somente a informação em si, mas que a mensagem seja passada de forma clara. Só assim a informação divulgada poderá ser devidamente compreendida. Acredito que esses requisitos devem ser almejados por qualquer comunicador, particularmente por profissionais que escrevem sobre conceitos e práticas que podem influenciar o comportamento da população, como profissionais da área de saúde. Por isso, pode-se questionar a qualidade da forma com que a informação é transmitida no texto citado acima.

A propósito, vale destacar alguns exemplos mais concretos. No começo do texto, a seguinte afirmação é apresentada: 
“As estatísticas estão disponíveis para que não precisemos discutir acerca de imaginação ou os famosos ‘eu acho’, ‘ouvi dizer’ ou ‘aprendi com um professor’, inadmissível na área da saúde, mas que ainda impera”.

Após essa frase, são citados alguns números percentuais falando sobre o reganho de peso em pessoas que perdem peso por tratamento convencional ou por cirurgia para “redução de estômago”. No entanto, há alguma referência científica para esses dados que foram citados? Não, não é possível identificar qualquer referência... Em um texto com embasamento científico, é essencial e esperada a citação de referências para confirmar a origem, consistência e qualidade das informações apresentadas. Se o autor não atende a esses requisitos, as informações expostas, querendo ou não, acabam revestidas por um caráter essencialmente subjetivo — também conhecido como "achismo".

E, ironicamente, o texto afirma ser contra posturas do tipo 'eu acho' ou 'eu ouvi dizer'. Seria até aceitável o texto não apresentar as referências ao final de cada frase, desde que elas aparecessem ao final; não seria o ideal, mas ao menos ofereceria ao leitor subsídios para tentar descobrir a origem das informações apresentadas. Se não há referências, teoricamente a única coisa que se pode assumir é que as informações foram tiradas da cabeça de quem escreve o texto.

Um pouco mais adiante, são apresentados os seguintes dados:
“Homens com circunferência abdominal > 102 cm”. 
“Mulheres com circunferência abdominal > 88 cm”.

Primeiro detalhe: entre o número e qualquer unidade de medida, como o centímetro (cm) ali em cima, existe um espaço. Eu transcrevi da maneira correta, mas no texto original podemos ver que está escrito como “102cm” e “88cm”. Pode parecer preciosismo, mas esse tipo de detalhe, na minha opinião, pode ser um indicativo da atenção do autor em relação aos seus leitores.

A segunda observação, muito mais importante do que a primeira, é sobre um erro conceitual: esses valores de risco mencionados, de 102 e 88 cm, são referentes à medida da circunferência da cintura, e não da circunferência abdominal. É importante entender que elas são duas medidas diferentes. De forma simplificada, a circunferência da cintura é a medida do ponto de menor circunferência do tronco de um indivíduo (ou a circunferência aferida no ponto médio entre a crista ilíaca e a última costela), enquanto que a circunferência abdominal é a medida aferida na região do tronco que passa pelo umbigo do paciente.

Em seguida, na parte destacada em negrito “Tipos de Gorduras”, o texto afirma que nossa gordura corporal pode ser dividida em três tipos diferentes:
“Gordura estrutural”.  
“Reserva fisiológica”.  
“Gordura anormal”.

Não que os termos “gordura estrutural” e “reserva fisiológica” estejam certos, mas eles pelo menos são compreensíveis. Por outro lado, o termo “gordura anormal” não apresenta correspondência na literatura científica. Essa definição simplesmente não existe... Talvez o acúmulo ectópico de gordura — condição patológica de algumas doenças, como a AIDS, na qual ocorre o depósito de gordura em regiões incomuns — possa ser considerado como “gordura anormal”. Mas as pessoas com excesso de peso que procuram a dieta do hCG como tratamento normalmente não se encaixam nas doenças que levam ao acúmulo ectópico de gordura. Na verdade, são simplesmente pessoas com acúmulo de gordura generalizado no tecido adiposo, órgão que tem como função justamente o armazenamento de gordura; essa é sua função normal. Logo, não tem nada de “anormal” na gordura acumulada em pessoas comuns com sobrepeso ou obesidade.

Um pouco mais adiante, ao falar sobre a história do hCG, o texto destaca:
"Há mais de 60 anos, o pesquisador norte americano Dr. Simeons...".

O médico que popularizou o uso do hCG para a perda de peso, Albert Simeons, não é americano, mas sim britânico (inglês). E essa informação pode ser facilmente obtida na internet, até mesmo nas páginas em inglês da Wikipédia sobre o hCG ou sobre o próprio Simenos.

Inclusive, esses mesmos textos da Wikipédia já falam sobre a ineficácia do uso do hCG para a perda de peso, citando o posicionamento da FDA, que é o órgão norte-americano que regula alimentos, suplementos e medicamentos — semelhante à Anvisa no Brasil. Vale ressaltar que a FDA é bastante “liberal”, ou seja, ela permite, e até corrobora, o uso de uma série de substâncias ineficazes. Ela não pode proibir o uso do hCG na prática clínica, até porque esse hormônio é utilizado em mulheres que apresentam dificuldades para engravidar, mas a FDA pode proibir o uso do hCG em medicamentos destinados para a perda de peso. E foi justamente isso que o órgão fez: em 2011, proibiu a venda de hCG em “doses homeopáticas”. E quando a FDA proíbe alguma substância, a ineficácia do produto ou é um fato, não apenas uma hipótese.


Sobre os (fraquíssimos) argumentos de quem é a favor do hCG

O texto, fazendo referência à Anvisa (curiosamente, esse trecho apresenta o link com a fonte da informação) e à Declaração de Helsinki, cita: 
“O médico deve ter a liberdade, no tratamento de um paciente, de usar uma nova providência diagnóstica ou terapêutica se em seu julgamento isso oferecer esperança de salvar vida, restabelecer saúde ou aliviar sofrimento”.

Nesse contexto, o texto faz menção ao uso off-label de medicamentos. Esse termo diz respeito à utilização de fármacos para fins distintos dos quais eles foram desenvolvidos, como utilizar uma droga para o tratamento do diabetes (ex: metformina) com o objetivo de perda de peso. Ou seja, se o médico julgar que um medicamento com a função primária de tratar a condição X pode, também, ter um efeito positivo sobre a condição Y, ele tem liberdade para proceder com esse tratamento “alternativo”. Nada mais justo.

Porém, é óbvio que isso só vale se o medicamento off-label realmente tiver um efeito positivo sobre a condição “alternativa” que estará sendo tratada. Como já mencionei anteriormente nesse post, e também no primeiro post sobre esse assunto, o hCG não proporciona benefícios adicionais durante a perda de peso numa dieta extremamente hipocalórica. Portanto, descrever o que é o uso off-label de um medicamento, assim como sua importância, no contexto do hCG, é uma maneira "pouco ortodoxa", se for premeditada, de se construir um argumento falacioso.

Agora chegamos ao ponto central da discussão. Se as evidências científicas mostram que o hCG não ajuda na perda de peso, quais são os argumentos utilizados pelos defensores do hCG para justificar seu uso?

Mais uma vez, vou utilizar uma citação do texto em destaque, retirada da seção “Considerações pontuais sobre o hCG”, para demonstrar a pobreza e a fragilidade dos argumentos utilizados pelos defensores do hCG: 
“1- TRABALHOS MOSTRANDO A EFICÁCIA DESTE TRATAMENTO FOI PUBLICADO EM 1954 NO THE LANCET (The Lancet vol 2, pp. 946-947, 1954)”

E quais os problemas desse trecho? Vamos a eles:

1) Tem um erro feio de concordância verbal. O problema não é o erro de concordância em si — até porque o mais importante é que o texto seja compreensível (e, de fato, dá pra entender a mensagem que quer ser passada) —, mas sim o que esse e outros trechos incorretos ao longo do texto representam para o cuidado sobre a informação que está sendo transmitida.

2) Perceba que o texto diz “trabalhos” no plural, mas cita apenas uma referência. Isso é um pouco estranho, porque cada referência citada normalmente diz respeito a um único estudo original, a não ser que se especifique o contrário. Como assim? Por exemplo, eu poderia citar apenas uma referência e dizer “trabalhos” ou “estudos”, desde que essa minha referência estivesse citando um estudo de revisão. Então, a primeira questão a ser levantada é: será que são “trabalhos”, no plural, que mostraram a eficácia do hCG?

3) Ainda sobre o termo “trabalhos” no plural. A princípio, novamente antes mesmo de abrirmos o estudo, a referência colocada no texto dificilmente diria respeito a um estudo de revisão. Por um simples motivo: estudos de revisão são trabalhos extensos, com muitas páginas, já que muitos dados sobre um mesmo tema são agrupados para se conceber esse tipo de estudo. E se observarmos a referência citada, o estudo em questão possui apenas duas páginas, 946 e 947. Só para termos uma ideia, estudos de revisão normalmente citam centenas de outros estudos; isso, no final do trabalho, resulta em várias páginas contendo apenas as referências citadas.

4) Um última possibilidade é que o estudo referenciado no texto, por ter apenas duas páginas, seja um editorial ou comentário. Esses são tipos “especiais” de trabalhos científicos, que não se encaixam nem como pesquisas originais e nem como revisões. Os editoriais e comentários, apesar de serem científicos, são um pouco mais “informais”, e normalmente discorrem sobre aspectos pontuais ou relevantes sobre determinado tema recente. Se o estudo referenciado pelo texto do hCG for um editorial ou um comentário, isso por si só já é algo passível de crítica no que diz respeito à credibilidade da referência citada. Por alguns motivos. O primeiro é que, simplesmente por serem curtos e pontuais, esses tipos de publicações (editoriais e comentários) jamais serão completos como um estudo de revisão. Em segundo lugar, o viés de confirmação muitas vezes está presente nesses tipos de publicação.

5) Considerando os pontos 2, 3 e 4 comentados acima, é possível afirmar que o estudo citado é extremamente limitado, mesmo sem examiná-lo. Ou seja, ele estaria bem longe de ser um estudo com credibilidade suficiente para dar suporte ao argumento de que o hCG é efetivo para a perda de peso (ou para qualquer outra coisa).

6) A referência citada não está escrita de forma correta. Ela não apenas está incompleta como, oficialmente, está errada. O jeito certo de escrever seria:
Lancet. 1954;264(6845):946-7.

Comparando as duas formas, pode-se notar claramente as diferenças. E por mais que essa observação possa parecer um "exagero", uma referência científica escrita de maneira inadequada dificulta muito a busca e identificação do trabalho citado, e consequentemente a confirmação das informações apresentadas. Eu mesmo tive muita dificuldade para localizar o material. Ao ler o texto e a referência citada, prontamente tentei localizar o artigo. Num primeiro momento, não consegui encontrá-lo justamente devido à apresentação inadequada da referência. O volume da revista na qual o estudo em questão foi publicado não é “2”, como apresentado no texto, mas sim “264”. Além disso, na referência citada no texto não consta o número da revista, que, observando a forma correta de escrever logo acima, é "6845". Esses dois dados são essenciais para encontrar um estudo que não teve seu nome citado, situação esta que corresponde ao observado no texto da presente crítica.

7) A título de informação adicional, aproveito a oportunidade para mostrar aos curiosos a forma correta de citar um referência científica, segundo o estilo Vancouver — que é a forma mundialmente adotada para se citar estudos científicos (apesar de que nem todas as revistas científicas seguem 100% essas recomendações).
  • Apesar do nome completo da revista ser “The Lancet”, a forma oficial de se citar é apenas “Lancet”.
  • No final do nome da revista, sempre deve ter um ponto final.
  • O ano de publicação vem logo após o nome da revista.
  • Em seguida, aparecem o volume e o número da publicação; o volume deve ser precedido de ponto e vírgula (“;”) e o número deve estar contido entre parênteses.
  • Por fim, o número das páginas deve ser precedido do símbolo dos dois pontos (“:”). Quando há algarismos em comum entre a página inicial e a página final, esses podem ser suprimidos. No nosso exemplo, os algarismos “9” e “4” são comuns entre “946” e “947”, por isso a forma ideal de se escrever as páginas é “946-7” ao invés de “946-947”. Se o artigo contemplasse as páginas de 946 até 975, o ideal seria escrever “946-75”. Por outro lado, se fosse da página 946 até a página 1012, não tem jeito: temos que escrever “946-1012”, sem abreviações. Vale ressaltar que as formas “946-947” ou “946-975” não estão erradas.

Ok, suposições de lado. Depois da dificuldade em encontrar o trabalho citado, devido ao fato de que a referência estava escrita de forma incompleta e errada, vamos enfim ao estudo:
“The action of chorionic gonadotrophin in the obese” [1].

O estudo é tão curto que, na verdade, possui apenas uma página completa! Ele até ocupa duas páginas, mas só metade da primeira e metade da segunda.

Primeiro ponto. Assim como suspeitado antes mesmo de se abrir o estudo, não são “trabalhos” (no plural) que mostram a eficácia do hCG. A referência nos leva a trabalho científico que corresponde a estudo único.

Segundo ponto. É um estudo tão incompleto que a parte da Métodos — a mais importante de qualquer trabalho científico — tem apenas três linhas. Três linhas! Quando li, quase não acreditei. A Metodologia corresponde à parte do trabalho na qual os pesquisadores devem relatar, em detalhes, todos os procedimentos e condições experimentais do estudo. É impossível fazer isso em apenas três linhas. Qualquer credibilidade que o estudo pudesse ter fica extremamente comprometida nesse caso, porque não temos os detalhes que precisamos para avaliar sua qualidade.

Terceiro ponto. Não é um estudo controlado, ou seja, não houve grupo controle. Quando temos um estudo sem grupo controle, é impossível sabermos até onde os efeitos observados foram realmente decorrentes do tratamento aplicado. Ou seja, se houvesse um grupo paralelo que recebesse apenas a dieta de 500 kcal, mas sem o hCG, a perda de peso deles no longo prazo seria a mesma? Seria menor? Seria maior? No caso, o grupo consumindo a dieta de 500 kcal sem o hCG seria o grupo controle, justamente para saber qual seria, isoladamente, o efeito da administração do hCG no grupo “tratamento” ou grupo “intervenção”. Mas calma, isso não já foi feito?! Sim, inúmeras vezes! Por isso, vou citar novamente a conclusão da meta-análise que referenciei no primeiro post sobre hCG, que avaliou o efeito desse hormônio sobre a perda de peso a partir dos resultados de 24 estudos, incluindo todos os ensaios clínicos controlados já publicados [2]:
“Nós concluímos que não há evidências científicas que demonstrem que o hCG causa perda de peso, redistribuição de gordura, reduza a fome ou induza sensação de bem-estar. Portanto, a utilização do hCG deve ser considerada como uma terapia inadequada para a perda de peso [...]”.

Portanto, quer dizer que, juntando todos os estudos controlados, a conclusão é que o hCG não funciona? Sim, é isso mesmo. Por outro lado, o texto objeto da presente crítica (que fala bem sobre o hCG) quer defender a hipótese de que a ciência corrobora o uso do hCG a partir de um único estudo (não controlado)? Sim, é exatamente isso que acabamos de ver.


Sobre a contradição dos próprios defensores do hCG

Vou ser breve para mostrar mais uma vez a falta de embasamento científico e a "contradição" dos textos que promovem o uso do hCG, com mais dois exemplos:
HCG – Evidências científicas dos benefícios do seu uso racional e bem indicado/orientado

Nesse primeiro exemplo, o texto cita 10 referências para embasar suas afirmações (fiz pequenas alterações na formatação para facilitar a visualização):
1. Asher, W.L., Harper, H.W. Effect of human chorionic gonadotrophin on weight loss, hunger, and feeling of well-being. Am J Clin Nutr. 1973 Feb;26(2):211-8. 
2. Belluscio, D.O. The hCG (human Chori-ogonadotropin) method for obesity treat-ment: a neglected issue. Disponível em: http://www.hcgobesity.org/. Acesso em: 21 julho 2013.  
3. Belluscio, D.O. Uso de hCG para o tratamento da obesidade e sobrepeso. 2010. Disponível em: http://oralhcg.com/por-tugues/po1.2.htm. Acesso em: 21 julho 2013. 
4. Belluscio, D.O., Ripamonte, L., Wolansky, M. Utility of an Oral Presentation of HCG (Human Choriogonadotropin) for the Man-agement of Obesity: A Double Blind Study. The Original Internist. December, 2009. 
5. Bosch, B., Venter, I., Stewart, R.I., Bertram, SR. Human chorionic gonadotrophin and weight loss. A double-blind, placebo-controlled trial. S Afr Med J. 1990 Feb 17;77(4):185-9. 
6. Fleigelman, R., Fried, G.H. Metabolic effects of human chorionic gonadotropin (HCG) in rats. Proc Soc Exp Biol Med. 1970 Nov;135(2):317-9. 
7. Lijesen, G.K., Theeuwen, I., Assendelft,W.J., Van Der Wal, G. The effect of human chorionic gonadotropin (HCG) in the treatment of obesity by means of the Simeons therapy: a criteria-based meta-analysis. Br J Clin Pharmacol. 1995 September; 40(3):237–243. 
8. Shetty, K.R., Kalkhoff, R.K. Human chorionic gonadotropin (HCG) treatment of obesity. Arch Intern Med. 1977 Feb;137(2):151-5. 
9. Simeons, A. T. W. Pounds and inches: a new approach to obesity. Medical Veritas 5 (2008) 1797–1825. 
10. Simeons, A.T. The action of chorionic gonadotrophin in the obese. Lancet. 1954 No

Algumas considerações importantes:
  • A referência 1 [3] é um dos poucos estudos individuais que apresentam possíveis efeitos benéficos do hCG: ele mostrou que os pacientes que usaram o hCG realmente sentiram menos fome e maior sensação de bem-estar que os indivíduos que não usaram o hormônio. Entretanto, se existem outros estudos que avaliaram a influência do hCG sobre esses parâmetros, eles precisam ser levados em consideração. Caso contrário, temos mais um exemplo de viés de confirmação: o texto apresenta apenas os elementos capazes de confirmar aquilo que se quer demonstrar. E juntando todos os estudos, qual é a conclusão? Que o uso do hCG não influencia indicadores de fome e bem-estar nos pacientes [2].
  • As referências 2 e 3 são de textos na internet, e não de artigos científicos. Por esse motivo, não vamos nem comentá-las.
  • A referência 4 [4] é de um estudo publicado numa revista que nem mesmo é indexada ao Pubmed e outras bases de busca de artigos científicos. (Só para ficar claro, quem clica nas referências que eu disponibilizo sabe que sempre coloco o link diretamente para o Pubmed). Para uma revista não ser indexada, ela tem que ter uma relevância muito (muito!) pequena. Sem contar que o estudo em si não encontrou qualquer diferença no emagrecimento entre quem usou ou e quem não usou o hCG. Além disso, o autor principal do texto é um médico que advoga o uso do hCG, ou seja, há um potencial conflito de interesses em jogo. Por que será que o estudo foi publicado numa revista de mínima expressão? Será que é porque não encontrou resultados no emagrecimento, porque não é um estudo de qualidade ou pelo conflito de interesses? Ou ainda em função de mais de um desses motivos?
  • Curioso os estudos das referências 5 e 8 terem sido mencionados, porque as conclusões deles são justamente de que o hCG não funciona. Para citar os autores da referência 5, em tradução livre [5]: "Nós concluímos que não existe lógica para o uso de injeções de hCG no tratamento da obesidade". E os autores da referência 8, em tradução livre [6]: "Esses resultados indicam que o hCG não possui efeitos nos parâmetros [bio]químicos ou hormonais mensurados e não oferece vantagens superiores à da restrição calórica na promoção da perda de peso". Por que um texto defendendo o hCG citaria referências como essa?!
  • A referência 6 é um estudo em ratos. Como temos dezenas de estudos com humanos, não precisamos de um estudo com animais para se avaliar a eficácia do hCG. Além disso, quaisquer efeitos observados em ratos não necessariamente serão os mesmos dos observados em humanos. 
  • O caso da referência 7 é o mais intrigante. Ela é o estudo de meta-análise que chega à conclusão, depois de juntar e avaliar todos os estudos realizados em humanos, que o hCG realmente não funciona [2]! Sério, esse é o último estudo que um defensor do hCG deveria citar num texto que endossa o uso desse hormônio. É um tiro (de canhão) no pé.
  • A referência 9 diz respeito ao livro publicado pelo Dr. Simeons, "criador" da dieta do hCG, e por razões óbvias de conflito de interesses não demanda comentários adicionais.
  • A referência 10 é exatamente o mesmo estudo citado no texto que foi o foco do presente post e, portanto, os comentários apresentados anteriormente também aplicam-se aqui. Vale ressaltar que a citação em si está ainda mais incompleta do que o observado no primeiro texto criticado nesse post.

E o outro texto é esse:
Não é milagre. É tratamento com HCG!

Ao final do texto, 4 das 6 referências são citações de estudos científicos:
- American Journal of Medical Sciences 1918; November: 714 – 
- J Reprod Fertil 1981; 63(1): 101-108  
- Am J Clin Nutr 1976; 29: 940-948 
- Am J Clin Nutr 1973; 26: 211-218

As minhas considerações:
  • Sinceramente, não pesquisei a primeira referência. Com a falta de informações, seria necessário descobrir (adivinhar) o volume e o número da publicação desse estudo. Como pode um texto querer defender uma hipótese e nem mesmo fornecer a referência de forma correta?
  • O segundo estudo não tem nada a ver com o efeito do hCG no emagrecimento [7], então não necessita de comentários.
  • A terceira referência, assim como nos casos das referências 5 e 8 citadas no texto logo acima, também é um caso curioso. Novamente, é um estudo que fala sobre a ineficácia do hCG. Para citar os autores, em tradução livre [8]: "O hCG parece não aumentar a efetividade de um rígido regime imposto para redução de peso". Na verdade, o título do artigo já diz tudo [8].
  • O quarto estudo é o mesmo da referência 1 [3] do texto anterior, então as mesmas limitações citadas acima também cabem aqui.


A dieta do hCG não funciona

Na verdade, a dieta até funciona, só que o hCG não tem nada a ver com efetividade do tratamento. Não cabe apresentar aqui novamente os detalhes porque já escrevi sobre isso antes. Inclusive, convido também, a quem interessar, a lerem o post da GENES Consultoria Nutricional sobre o assunto.

Mas vou repetir mais uma vez a parte importante: a dieta do hCG funciona porque existe uma restrição energética muito considerável, uma vez que o consumo alimentar gira em torno de 500 kcal/dia. Essa é uma quantidade de calorias muito pequena, naturalmente levando o corpo a utilizar as próprias fontes de energia para manter suas funções fisiológicas. Entretanto, a perda de peso e gordura corporal nas pessoas que fazem essa dieta não guardam relação alguma com com o hormônio.

A utilização do hCG não aumenta a perda de gordura, não reduz a fome e não aumenta a sensação de “bem-estar” no paciente [2]. Ou seja, os efeitos supostamente atrelados ao uso desse hormônio simplesmente não acontecem. A ciência sabe disso há tanto tempo que simplesmente parou de estudar o hCG como terapia para a perda de peso. A veracidade deste fato pode ser constatada pelo fato de que o último estudo que diretamente testou o efeito do hCG sobre a perda de peso é de 1990! Não que não existam estudos mais recentes falando sobre o hCG, porque há; mas são apenas estudos de revisão.

Resumindo: você certamente vai perder peso consumindo 500 kcal/dia + hCG, mas você vai perder a mesma quantidade de peso se não fizer o uso do hCG dada a mesma quantidade de calorias ingeridas.

Corroborando ainda mais os argumentos que apresento nesse post, temos também o posicionamento das maiores instituições médicas que trabalham com obesidade: a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO). As duas são estritamente contra o uso do hCG para o emagrecimento.





Não que eu sempre concorde com todas as sugestões dessas instituições que "mandam" na saúde — muito pelo contrário, já vi dezenas de casos em que elas sugerem recomendações e diretrizes duvidosas (ou até erradas), como no caso do consumo de sal/sódio. Mas, nesse caso, não tem nem como contestar esse posicionamento. 

Inclusive, assim como propus a um leitor que deixou comentários a favor do hCG no post anterior, fica o desafio a quem defende o uso desse hormônio: apresentem evidências científicas sobre o mecanismo de ação ("quebra" de gordura") e, preferencialmente, sobre a real efetividade do hCG no emagrecimento.


Considerações finais

Uma dúvida permanece: por que o hCG ainda é prescrito? Esse é um assunto relativamente complexo, mas que dá margem a algumas especulações. Primeiro, a terapia com hCG é muito cara, o que permite um ganho monetário significativo para quem trabalha com ela. Segundo, muitas pessoas querem resultados rápidos e gostam de acreditar que existem “milagres”, e por isso o discurso sobre a eficácia do hCG é tão cativante.

Além de tudo que foi discutido, outra consideração importante deve ser feita. A pessoa que faz uso do hCG não vai passar pelo processo de educação alimentar e nutricional que é imprescindível para qualquer um de nós, e que talvez seja ainda mais importante para alguém que atualmente se encontra com sobrepeso ou obesidade. Se você aprender a se alimentar bem e se os seus objetivos forem alcançados a partir de prática saudáveis, pode ter certeza que os resultados terão um valor muito maior e serão muito mais duradouros.

Esse post não é direcionado a pessoas específicas, mas sim uma crítica à propagação de informações, sem embasamento científico, sobre o uso do hCG. Cadê a medicina baseada em evidências para tentar matar de vez o fantasma do hCG?


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Referências

1. Simeons AT, et al. The action of chorionic gonadotrophin in the obese. Lancet. 1954;264(6845):946-7.

2. Lijesen GK, et al. The effect of human chorionic gonadotropin (HCG) in the treatment of obesity by means of the Simeons therapy: a criteria-based meta-analysis. Br J Clin Pharmacol. 1995;40(3):237-43.

3. Asher WL, Harper HW. Effect of human chorionic gonadotrophin on weight loss, hunger, and feeling of well-being. Am J Clin Nutr. 1973;26(2):211-8.

4. Belluscio DO, et al. Utility of an oral presentation of HCG (Human Choriogonadotropin) for the management of obesity: a double blind study. The Original Internist. 2009;16(4):197-210.

5. Bosch B, et al. Human chorionic gonadotrophin and weight loss. A double-blind, placebo-controlled trial. S Afr Med J. 1990;77(4):185-9.

6. Shetty KR, Kalkhoff RK. Human chorionic gonadotropin (HCG) treatment of obesity. Arch Intern Med. 1977;137(2):151-5.

7. Leaver HA, Boyd GS. Action of gonadotrophic hormones on cholesterol side-chain cleavage and cholesterol ester hydrolase in the ovary of the immature rat. J Reprod Fertil. 1981;63(1):101-8.

8. Stein MR, et al. Ineffectiveness of human chorionic gonadotropin in weight reduction: a double-blind study. Am J Clin Nutr. 1976;29(9):940-8.