terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Top 10 palestras do TED




A princípio, olhando apenas do ponto de vista do TED, esse post não teria nada a ver com alimentação, nutrição ou saúde. Por outro lado, considerando que as palestras do TED, independentemente do tema, normalmente são excelentes, acredito que as ideias expostas e discutidas nelas podem ser interessantes para qualquer pessoa. 

Porém, para aqueles que ainda preferem a parte de nutrição e alimentação, podem ficar tranquilos que algumas das palestras falam sobre esses assuntos.

Para quem não conhece, podemos resumir assim: o TED é uma conferência global de ótimas palestras, apresentadas por convidados excepcionais. A sigla significa Technology, Entertainment, Design (em português: Tecnologia, Entretenimento, Design). Nos primeiros anos, o foco era voltado justamente para os tópicos contemplados pela sigla; atualmente, os temas são muito mais abrangentes, passando pelos mais diversos assuntos e áreas, incluindo questões científicas, culturais, de saúde, sociais e acadêmicas.

Minha recomendação é que qualquer um deveria assistir a todas as palestras que do TED que puder. Nem todas terão a mesma qualidade, mas o saldo final certamente será positivo. Mesmo assim, atenção: os vídeos normalmente são viciantes, podendo causar dependência.

Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a história e o desenvolvimento do TED, recomendo os seguintes links:

Além das 10 palestras selecionadas abaixo, eu poderia recomendar dezenas de outras boas opções, simplesmente porque as palestras são muito bem feitas e apresentam excelente conteúdo. Mas por uma questão de tempo (meu e seu), vamos ficar com essas 10. 

Mais difícil do que escolher apenas 10 palestras foi escolher uma ordem de "preferência". Na verdade, nem tenho certeza se essa é exatamente a ordem das minhas favoritas, mas é algo próximo disso.

A maioria dos títulos em português foram tirados da página do TED que dá a opção de assistir aos vídeos em português brasileiro, com exceção das palestras #8 (que não tinha essa opção), #7, #3 e #1 (cujas traduções livres a partir do título em inglês eu considerei como mais propícias). A boa notícia: todas as palestras, com exceção da #8, possuem legendas em português.


Sem mais delongas, vamos ao meu (até o momento) top 10 TED.




Após ver esse vídeo, fica muito claro como e por que as organizações sem fins lucrativos não prosperam como poderiam (ou deveriam). Considerando as ideias expostas por Dan Pallota, a mudança na forma de pensar dos gestores, e do público, são extremamente importantes para que essas organizações possam crescer e desenvolver seus belos trabalhos.


#9 - Apollo Robins: A arte da distração

É sensacional ver como a nossa mente é, ao mesmo tempo, "burra" e inteligente. Nessa apresentação — que está mais para um show do que uma palestra —, Apollo Robins faz você se impressionar com a capacidade que a nossa mente tem de (não) perceber o mundo e os detalhes ao nosso redor. Do começo ao fim, você vai se questionar: "Como eu não percebi isso?".


#8 - David Newman: A verdade que perdura

Qual é a capacidade que os diferentes tipos de estudos científicos realmente têm em mostrar o risco de desenvolver problemas de saúde? Como saber a verdadeira capacidade que alguns medicamentos têm em tratar as doenças? Qual é o melhor tipo de intervenção para doenças cardiovasculares (a maior causa de morte em boa parte do mundo): drogas ou alimentação? Nessa apresentação, David Newman mostra de forma simples e direta que a verdade por trás das terapias medicamentosas é um pouco (ou bem) diferente daquilo que nos contam.


#7 - Carl Honoré: Em louvor à lentidão

Nessa palestra, Carl Honoré nos mostra como a obsessão com a velocidade — com fazer tudo de forma excessivamente rápida, como estivéssemos sempre na "quinta marcha" — faz com que a qualidade de vida de muitas pessoas seja, de maneira geral, muito baixa. O objetivo da palestra é fazer com que possamos abrir os olhos e perceber que, muitas vezes, a pressa é inimiga da perfeição. Se interessar, recomendo fortemente a leitura do livro homônimo do autor, In Praise of Slowness.


#6 - Allan Savory: Como recuperar os desertos e reverter as mudanças climáticas

Veja o impressionante trabalho realizado pelo ambientalista Allan Savory e entenda que a solução para a desertificação dos solos e as mudanças climáticas pode ser encontrada a partir de uma visão mais ampla do próprio problema. É muito impressionante como é possível re-estabelecer o equilíbrio simplesmente ao fazer com que a natureza funcione da forma como sempre funcionou. Essa palestra me lembra muito dessa história.


#5 - Graham Hill: Menos coisas, mais felicidade

O título já diz quase tudo. Normalmente não prestamos muita atenção qual é o real impacto que o excesso de bens materiais — e todas as consequências negativas que podem vir acompanhadas — tem sobre as nossas vidas e a nossa saúde. Porém, Graham Hill apresenta estratégias simples que podem nos ajudar a contornar esse problema.


#4 Ric Elias: Três coisas que descobri quando meu avião caiu

Muitas vezes, apenas nos momentos mais difíceis é que aprendemos a dar o verdadeiro valor a algumas coisas. No caso do palestrante Ric Elias, uma experiência de quase morte foi o estopim para que ele acordasse para alguns fatos. Assistir a essa palestra é uma ótima forma de refletir sobre as nossas prioridades na vida.


#3 - Jamie Oliver: O desejo de ensinar todas as crianças sobre comida

É indiscutível o papel que a alimentação possui na saúde. Porém, se a alimentação é uma das únicas necessidades realmente fundamentais aos seres humanos, por que o desconhecimento sobre ela é tão grande? Cada um de nós não deveria entender pelo menos o básico sobre alimentos e alimentação? Para mudar esse cenário, o desejo de Jamie Oliver — um dos maiores nomes mundiais do meio da alimentação — é que todas as crianças sejam ensinadas a se alimentar bem, de forma a facilitar o desenvolvimento de pessoas conscientes e empoderadas em relação à própria alimentação. Complete essa palestra fenomenal com o excelente documentário Muito Além do Peso.


#2 - Tristram Stuart: O escândalo do desperdício global de alimentos

O desperdício de alimentos é, certamente, um dos maiores absurdos do nosso mundo contemporâneo, e o pior de tudo é que a maior parte das pessoas não dá a mínima importância a isso — propositalmente ou não. Como pode ser visto no vídeo, Tristram Stuart nos mostra que nossa população essencialmente desperdiça alimentos sempre que ela pode, da produção ao consumo, normalmente de maneira totalmente negligente. Além disso, são apresentadas as severas implicações que podem surgir a partir de todo esse descuido.


#1 - Sir Ken Robinson: As escolas acabam com a criatividade?

Na minha opinião, ainda não teve uma palestra do TED tão boa quanto essa. Ela vai além do TED, do palestrante e do próprio tópico; no caso, o todo é muito maior do que a soma das partes. O tema, além de extremamente interessante, é importantíssimo: será que as escolas, na sua forma tradicional de "ensinar", acabam com a criatividade e o potencial das crianças, dos adolescentes e dos jovens adultos? Segundo Ken Robinson, a resposta para essa pergunta é um sonoro "Com certeza!". O palestrante ainda sugere que, além de impedir o verdadeiro crescimento pessoal e profissional, as escolas normalmente levam as pessoas a uma vida de frustrações, insatisfações e problemas sociais e de saúde — que pode afetar não só a vida da própria pessoa, mas também a das pessoas ao seu redor. Não deixe de conferir também, aqui e aqui, as duas palestras do próprio Ken Robinson que dão sequência ao tópico abordado.


Essa foi a minha lista. Reflexões para o fechamento de um ano e o começo de outro. Sinta-se à vontade para compartilhar outras palestras do TED nos comentários.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O jejum leva à perda de massa muscular?




Acredito que poucas pessoas questionariam o fato de que o jejum, seja ele intermitente ou não, leva à perda de peso. Até porque faz muito sentido. Na ausência da ingestão de alimentos, o corpo precisa obter energia de algum lugar, que no caso do jejum serão as nossas próprias reservas energéticas — como a gordura armazenada no tecido adiposo e os aminoácidos constituintes das proteínas musculares, por exemplo.

Mas de que forma se constitui a perda de peso induzida pelo jejum? Existe perda de massa muscular além da perda de gordura corporal? Se sim, essa redução na massa muscular é muito significativa? E, em último caso, se a perda de massa muscular de fato ocorre com o jejum, ela é maior do que o observado em outras estratégias nutricionais que induzem perda de peso?

Essas perguntas são importantes porque muitas pessoas têm medo de ficar muito tempo sem comer, ou até mesmo em jejum, porque vão "catabolizar", ou seja, entrariam num estado de perda de massa muscular. Mas será que isso ocorre mesmo?

Como sempre, vamos recorrer à literatura científica para verificar qual é o real efeito do jejum sobre a massa muscular.


Massa magra x Massa muscular

Antes de entrarmos nos estudos que exploraram as questões que queremos responder, é importante fazermos a distinção entre massa magra e massa muscular. A massa magra, ou massa livre de gordura, corresponde à soma de todos os tecidos que não são gordura: músculo, órgãos, ossos e cartilagens, por exemplo. Até mesmo a água presente no nosso corpo é categorizada como parte da massa magra.

A massa muscular, como o próprio nome sugere, corresponde apenas ao tecido muscular — mais especificamente aos músculos esqueléticos, como os que compõem o bíceps e o quadríceps. Assim, podemos dizer que a massa muscular é apenas um dos vários componentes da massa magra.

Quando a perda de peso ocorre, é praticamente inevitável que a massa magra diminua. E quando a massa magra cai, na verdade apenas dois de seus componentes (salvo raras exceções) são reduzidos nesse processo: massa muscular e água. Ainda bem que são só esses dois; imagine você tentar perder peso e começar a perder tecido ósseo, neurônios ou parte do rim?!

A distinção entre os conceitos de massa magra e massa muscular é muito importante, já que a maioria dos estudos sobre nutrição e alimentação, por razões diversas, medem apenas a massa magra, e não a massa muscular. Por isso, sempre que um estudo apresentar resultados para massa magra, principalmente quando for sobre a perda de massa magra, um olhar mais crítico deve prevalecer.


Obs 1: Todos os trechos abaixo que estiverem, ao mesmo tempo, entre aspas e em itálico, são autocitações referentes a esse texto anterior que escrevi sobre jejum intermitente.

Obs 2: Na análise mais completa, que contém a descrição dos estudos, foram considerados apenas os estudos que comparam o jejum a algum tipo de grupo controle. Os estudos que testaram o jejum intermitente de forma "isolada", sem comparação, serão comentados depois.


Os estudos

Stote et al (2007) [1]

Mulheres e homens entre 40 e 50 anos, sem sobrepeso ou obesidade, foram divididos em 2 grupos: controle (3 refeições/dia) ou intervenção (1 refeição/dia). O grupo controle consumia diariamente café da manhã, almoço e jantar. O grupo intervenção, por sua vez, tinha um período de apenas 4 horas, no começo da noite, para realizar sua única refeição diária, ficando pelo menos 20 horas/dia em jejum. O estudo foi do tipo cruzado (cross-over), ou seja, todos os participantes participaram de ambos os grupos; ao final das 8 semanas, quem estava no grupo controle foi para o grupo intervenção e vice-versa. Estudos cruzados são considerados padrão-ouro para ensaios clínicos.

O mais interessante desse estudo é que todos os alimentos foram fornecidos pela equipe de pesquisa, facilitando a adesão e proporcionando um excelente controle da ingestão alimentar de ambos os grupos experimentais. Inclusive, a refeição da noite — equivalente ao jantar do grupo controle e à única refeição diária do grupo intervenção — era sempre realizada nas facilidades do centro de pesquisa. A composição de macronutrientes (carboidratos, gorduras e proteínas) foi exatamente a mesma para os dois grupos experimentais, assim como o consumo de calorias.

Ao final do estudo, o grupo controle apresentou "tendência" de perda de massa magra, enquanto que o grupo que consumia apenas 1 refeição/dia apresentou "tendência" de aumento de massa magra; porém, nenhuma dessas tendências alcançou significância estatística. Não houve perda de gordura corporal no grupo controle, ao passo que o grupo intervenção perdeu em média de 2,0 kg — um resultado até expressivo, levando em conta que os participantes não ingeriram dietas para perda de peso, mas sim para manutenção. Resumindo: sem restrição calórica, o grupo de 1 refeição/dia perdeu de peso (gordura corporal) sem perder massa magra ou massa muscular. A conclusão dos autores: “A ingestão de 1 refeição por dia resultou em perda de peso e redução na massa gorda com pouca modificação no consumo de calorias”.


Harvie et al (2011) [2]

 “Os pesquisadores dividiram mulheres pré-menopausa em 2 grupos: restrição calórica diária de 25% ou restrição calórica de 25% na forma de jejum. O grupo 1 (restrição calórica diária de 25%), ao final de uma semana, atingiria uma redução calórica total de 25% da energia que normalmente consumiria em uma semana. Para que a mesma restrição energética total, em um semana, fosse atingida no grupo 2 (restrição calórica de 25% na forma de jejum), os indivíduos consumiam uma quantidade muito pequena de calorias em 2 dias da semana (considerados os dias de jejum) e se alimentavam de acordo com suas necessidades diárias, para manutenção do peso, nos outros 5 dias da semana”.

O estudo teve duração de 6 meses. Após esse período, não houve diferença estatística na perda de gordura corporal entre o grupo 1 (3,6 kg) e o grupo 2 (4,5 kg). De forma semelhante, também não foram observadas diferenças na perda de massa magra, que foram, respectivamente, de 0,8 kg e 1,2 kg.


Harvie et al (2013) [3]


Estudo com metodologia muito semelhante à do estudo de Harvie et al (2011) [2], comentado acima. Entretanto, além dos 2 grupos já descritos, houve um terceiro grupo experimental nessa pesquisa: restrição calórica de 25% + consumo ilimitado de proteínas e gorduras nos dias de jejum (ou seja, houve controle verdadeiro para a restrição de carboidratos, mas não dos demais macronutrientes)”. Assim, ao todo foram dois grupos que fizeram jejum e um grupo com restrição calórica convencional (grupo controle).

Dessa vez, a duração do estudo foi de 4 meses. Ao final, os grupos que fizeram o jejum perderam quantidades significativas de gordura corporal: 4,3 kg (25% de restrição calórica na forma de jejum) e 4,1 kg (25% de restrição calórica na forma de jejum, com consumo ilimitado de gorduras e proteínas na dieta). O grupo controle, com restrição calórica de 25% ao longo do dia, perdeu apenas 2,5 kg de gordura corporal. Apesar de todos os grupos terem perdido um pouco de massa magra, não houve diferença estatística entre os grupos: 1,3 kg, 1,1 kg e 1,6 kg, respectivamente. De qualquer maneira, vale lembrar que esses são valores de massa magra, e não necessariamente correspondem apenas à massa muscular.


Varady et al (2013) [4]

Nesse estudo, “[i]ndivíduos com IMC variando de 20 a 29,9 kg/m2 foram divididos em 2 grupos: jejum intermitente ou controle. O jejum foi realizado dia sim/dia não, sendo que nos dias de jejum os participantes ingeriam 25% das suas necessidades energéticas diárias, e nos dias sem jejum poderiam se alimentar de maneira irrestrita. O grupo controle foi orientado a manter seu consumo dietético habitual”.

Apesar de haver um grupo controle, os resultados entre os dois grupos do estudo não devem ser diretamente comparados no sentido de “uma estratégia é melhor do que a outra”, justamente porque o grupo jejum praticava o jejum intermitente a cada dois dias, enquanto que o grupo controle não teve nenhum hábito alimentar alterado. O grupo controle serviu para garantir que os resultados apresentados pelo grupo jejum fossem decorrentes apenas da intervenção — e não de outros fatores, como o tempo decorrido durante do estudo.

As 12 semanas do estudo resultaram numa perda de peso de 5,2 kg no grupo jejum, enquanto que o peso do grupo controle permaneceu inalterado. Desse total, a perda de gordura corporal no grupo jejum foi de 3,6 kg. Houve uma pequena tendência de redução na massa magra, que em valor absoluto foi de 1,6 kg; porém, não houve diferença estatística em relação ao grupo controle. Vale ressaltar que esse último valor de 1,6 kg diz respeito à massa magra total, e por isso não sabemos exatamente a quanto isso corresponderia de massa muscular.


Então o jejum não leva à perda de massa muscular?

Até aqui, não podemos afirmar com 100% de certeza porque nenhum dos estudos mediu diretamente a massa muscular, apenas a massa magra. Mas considerando que apenas um dos estudos acima demonstrou uma redução estatisticamente significativa da massa magra [3], é possível concluir que mesmo que exista uma diminuição da massa muscular com o jejum, ela é bem pequena.

Vale ressaltar mais uma vez que a massa muscular é apenas um dos componentes da massa magra. Dessa forma, caso a massa muscular tivesse sido diretamente mensurada (ou até mesmo calculada/estimada) no estudo de Harvie et al. (2013) [3], podemos ter certeza que sua redução, em números absolutos, seria inferior à perda de massa magra total. Isso nos leva a crer que é bem possível que não haveria redução da massa muscular do ponto de vista estatístico — e nada muito significativo também do ponto de vista clínico, considerando que a tal perda seria inferior a 1,0 kg em 4 meses.

Além disso, toda vez que ocorre perda de peso e, ao mesmo tempo, redução de massa magra, parte dessa massa magra perdida corresponde ao glicogênio hepático e muscular — as reservas de glicose do nosso corpo. Porém, além de sabermos que o glicogênio precisa se ligar a moléculas de água para ser armazenado, sabemos também que essa água é liberada toda vez que o glicogênio é degradado para prover glicose para a produção de energia no corpo. Dessa forma, quando há redução do peso e diminuição na massa magra, parte dessa massa perdida corresponde ao glicogênio utilizado para produção de glicose e também à água liberada durante esse processo. Esse é mais um motivo que nos leva a crer que se a massa muscular tivesse sido medida no estudo de Harvie et al. (2013) [3], provavelmente a redução não teria sido estatística e clinicamente significativa.

De qualquer maneira, os outros três estudos verificaram que a perda de massa magra não foi significativa quando comparamos os períodos anterior e posterior à prática do jejum [1,2,4]. Apesar de não podermos cravar com toda a certeza, isso sugere que a redução de massa muscular também não foi significativa.


E se o jejum for realizado sem restrição energética?!

Apesar de os outros três estudos acima não terem mostrado diferença estatística na perda de massa magra, dois deles apresentaram certa “tendência” de redução [2,4]. É possível especular que caso os estudos fossem um pouco mais longos ou tivessem um número maior de participantes, talvez a redução de massa magra fosse estatisticamente significativa.

Porém, o primeiro estudo citado [1] merece destaque. Ele foi diferente dos demais. O protocolo de jejum intermitente empregado nesse estudo teve uma diferença importante em relação aos outros: não houve restrição energética. Os participantes do grupo jejum consumiram exatamente a mesma quantidade de calorias do grupo controle, sem contar que a ingestão alimentar foi estritamente controlada, já que todos os alimentos das dietas foram fornecidos pelos pesquisadores.

Resultados: a massa magra das pessoas do grupo jejum aumentou de 50,1 kg (início do estudo) para 50,9 kg (final do estudo). Não houve diferença estatística, mas, em números absolutos, a massa magra até aumentou! Além disso, esse estudo foi o único que mediu a quantidade total de água corporal dos participantes. No grupo jejum, a água corporal foi de 36,7 kg (início do estudo) para 37,2 kg (final do estudo); nesse caso, também não houve diferença estatística. Porém, quando subtraímos a variação ocorrida com a água corporal da variação da massa magra, o saldo final é de +0,3 kg. E esse valor poderia ser atribuído à massa muscular, uma vez que, em condições normais, a massa muscular e a água são os dois principais componentes variáveis da massa magra.

Dessa forma, é possível perceber que o único estudo que não se preocupou em restringir calorias foi aquele que apresentou os melhores resultados em relação à preservação de massa magra e massa muscular. O protocolo empregado nele é conhecido como time restricted feeding na literatura científica, que poderia ser livremente traduzido para alimentação com tempo restrito. Seria algo como uma “janela de alimentação”.


Mais evidências da preservação de massa magra com o jejum

Na análise acima, propositalmente não foram incluídos dois outros estudos controlados que já foram publicados. O primeiro deles porque foi um estudo cross-over sem washout [5]. O washout é o período entre os diferentes tipos de intervenção em que os participantes ficam sem receber nenhum tipo de tratamento, justamente para que os efeitos da intervenção anterior sejam "desfeitos" e, com isso, os indivíduos estejam "limpos" para a intervenção seguinte. O segundo estudo não foi incluído porque o desenho experimental inclui diferenças que vão além da comparação restrição calórica contínua x restrição calórica intermitente [6].

De qualquer maneira, ambos os estudos mostram que não houve redução significativa na massa magra durante as várias semanas de prática do jejum intermitente pelos participantes [5,6].

Além dos estudos controlados apresentados acima, temos pelo menos cinco outros estudos em que o jejum intermitente foi testado de forma isolada, sem comparação a outras intervenções, nos quais a massa magra também foi medida.

E os resultados desses estudo dão suporte ao observado acima: quatro deles mostraram não haver diferença na perda de massa magra entre o começo e o fim de cada um dos trabalhos [7,8,9,10]. Apenas um deles verificou redução na massa magra [11]. Porém, além da diferença ter sido bem pequena, novamente não sabemos exatamente o quanto de massa muscular foi realmente perdida, já que essa variável não foi diretamente mensurada; além disso, como a massa muscular é um dos componentes da massa magra, vale repetir mais uma vez que é grande a probabilidade de não ter ocorrido perda significativa de massa muscular.


E por que existe uma tendência (no mínimo igual às dietas convencionais) de preservação de massa muscular no jejum?

O gráfico abaixo, de um estudo da década de 80 [12] — época em que eram comuns estudos com jejuns mais prolongados —, explica melhor o porquê:




O segundo conjunto de barras da figura tem como legenda "Whole body protein turnover", que pode ser traduzido como "Balanço proteico do organismo". Esse balanço corresponde às taxas de degradação e síntese de proteínas no corpo. Quando seu valor diminui, como foi no caso do jejum desse estudo, significa que o corpo está tentando ao máximo poupar suas proteínas, por meio da diminuição tanto das taxas de síntese como de degradação. Isso faz com que não ocorra um "saldo negativo" de proteínas — pelo menos não de forma significativa —, preservando a massa muscular.


Considerações finais

Observando a literatura, fica claro que, mesmo que em alguns casos aconteça a perda de massa magra, é pouco provável que haja redução na massa muscular com o jejum intermitente. Além disso, a diminuição da massa magra ou da massa muscular com o jejum seria, no máximo, igual às estratégias convencionais para perda de peso, como a contagem de calorias — e em boa parte dos casos essas diminuições podem ser menores.

Além disso, vale ressaltar mais uma vez que praticamente todos os estudos com jejum intermitente testaram essa prática num contexto de restrição energética. O único estudo que empregou o jejum sem redução de calorias mostrou claramente a preservação de massa magra e massa muscular. Isso provavelmente acontece porque, durante o período de jejum, o corpo entra em um estado metabólico completamente diferente de quando ingerimos alimentos, fazendo com que a utilização de substratos energéticos endógenos seja maximizada; por outro lado, no restrito tempo em que o organismo está recebendo nutrientes — em quantidades adequadas —, ele otimiza também a preservação da massa magra.

Assim, dependendo de como o jejum intermitente for realizado, ele pode levar não apenas à redução significativa de gordura corporal, mas também à manutenção da massa muscular. Isso sem contar os diversos outros benefícios que podem vir associados à prática do jejum intermitente [13,14].


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Referências

1. Stote KS, et al. A controlled trial of reduced meal frequency without caloric restriction in healthy, normal-weight, middle-aged adults. Am J Clin Nutr. 2007;85(4):981-8.

2. Harvie MN, et al. The effects of intermittent or continuous energy restriction on weight loss and metabolic disease risk markers: a randomized trial in young overweight women. Int J Obes (Lond). 2011;35(5):714-27.

3. Harvie MN, et al. The effect of intermittent energy and carbohydrate restriction v. daily energy restriction on weight loss and metabolic disease risk markers in overweight women. Br J Nutr. 2013;110(8):1534-47.

4. Varady KA, et al. Alternate day fasting for weight loss in normal weight and overweight subjects: a randomized controlled trial. Nutr J. 2013;12(1):146.

5. de Groot LC, et al. Adaptation of energy metabolism of overweight women to alternating and continuous low energy intake. Am J Clin Nutr. 1989;50(6):1314-23.

6. Arquin H, et al. Short- and long-term effects of continuous versus intermittent restrictive diet approaches on body composition and the metabolic profile in overweight and obese postmenopausal women: a pilot study. Menopause. 2012;19(8):870-6.

7. Varady KA, et al. Short-term modified alternate-day fasting: a novel dietary strategy for weight loss and cardioprotection in obese adults. Am J Clin Nutr. 2009;90(5):1138-43.

8. Bhutani S, et al. Improvements in coronary heart disease risk indicators by alternate-day fasting involve adipose tissue modulations. Obesity (Silver Spring). 2010;18(11):2152-9.

9. Klempel MC, et al. Intermittent fasting combined with calorie restriction is effective for weight loss and cardio-protection in obese women. Nutr J. 2012;11:98.

10. Kroeger CM, et al. Improvement in coronary heart disease risk factors during an intermittent fasting/calorie restriction regimen: relationship to adipokine modulations. Nutr Metab (Lond). 2012;9(1):98.

11. Heilbronn LK, et al. Alternate-day fasting in nonobese subjects: effects on body weight, body composition, and energy metabolism. Am J Clin Nutr. 2005;81(1):69-73.

12. Henson LC, Heber D. Whole body protein breakdown rates and hormonal adaptation in fasted obese subjects. J Clin Endocrinol Metab. 1983;57(2):316-9.

13. Longo VD, Mattson MP. Fasting: molecular mechanisms and clinical applications. Cell Metab. 2014;19(2):181-92.

14. Mattson MP, et al. Meal frequency and timing in health and disease. Proc Natl Acad Sci U S A. 2014;111(47):16647-53.



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Goji berry: sub ou supervalorizada?




Adorada por muitos, desprezada por outros. Essa é a goji berry.

Desde que o seu consumo virou moda, passamos a ouvir todo tipo de comentário sobre a goji berry. O principal deles é a alegação de que ela seria um excelente alimento para quem quer emagrecer. E não poderia ser diferente, já que esse é o objetivo de quase todo mundo que busca informações sobre alimentação e nutrição — então é normal esperar que esse seja um dos maiores apelos relacionados à goji berry ou a qualquer outra alimento que ganha popularidade.

Ela obviamente começou como mais um alimento milagroso, com o status de "superalimento", seguindo os passos de vários antecessores, como chá verde, linhaça, chia, açaí e quinoa. Pouco tempo depois vieram os “justiceiros” para desmistificar as alegações sobre os benefícios da goji berry, afirmando que ela não é nutricionalmente superior aos mais diversos alimentos que já consumimos habitualmente.

Mas quem está certo? Faço essa pergunta porque, se olharmos com o mínimo de cuidado, é fácil perceber que na maioria das vezes os argumentos, em ambos os lados da história, não são devidamente embasados (independentemente de serem, mesmo "sem querer", verdadeiros ou não).


Os argumentos

Como forma de justificar o consumo de goji berry, aqueles que a defendem normalmente exaltam sua elevada concentração de nutrientes ou o fato de ela ser uma fruta culturalmente ligada à medicina chinesa e a outras tradições do leste asiático. De forma genérica, nutriente por nutriente, vários alimentos poderiam ser classificados como “superalimentos”, tendo em vista que é relativamente fácil encontrar um nutriente específico (ou até mais de um) que se destaca em cada alimento. Além disso, por mais que a medicina chinesa tradicional recomende o consumo de goji berry, isso por si só não é suficiente para confirmar que ela traz benefícios à saúde.

Do outro lado, aqueles que não consideram a goji berry como um alimento milagroso dizem que a fruta não apresenta qualquer vantagem nutricional verdadeiramente única que não poderia ser suprida por outros alimentos e, principalmente, por uma alimentação de qualidade. Isso é verdade. Só que, se pensarmos bem, é uma verdade que poderia ser dita sobre qualquer outro alimento. E é por isso que essa simplificação limita a nossa interpretação da importância que alguns alimentos ou grupos alimentares podem ter sobre a saúde.

Quando avaliamos parâmetros específicos de nutrição e saúde, se não pudermos considerar nenhum alimento como mais benéfico que outro(s), jamais poderíamos falar que o alimento X, ou o padrão alimentar Y, são capazes de reduzir o risco de desenvolvimento de uma doença Z.

Temos uma série de estudos mostrando que a simples adição de alguns alimentos à dieta é capaz de proporcionar efeitos positivos em diversos marcadores de saúde. Por exemplo, substituir carboidratos complexos por 84 g/dia de amêndoas, em uma dieta de restrição calórica (mantendo as mesmas quantidades de calorias e proteínas) que durou 24 semanas, levou a reduções mais significativas no peso, IMC, circunferência da cintura, massa gorda e pressão arterial sistólica em indivíduos com sobrepeso [1]. Em outro estudo, a ingestão de uma unidade de ovo por dia, em vez de mingau de aveia, durante 5 semanas, melhorou marcadores inflamatórios em pacientes com diabetes tipo 2 [2]. Mais um estudo com diabéticos: o consumo de 59 a 128 g/dia de pistache por 4 semanas (representando 20% das calorias totais) foi mais benéfico para melhorar o perfil lipídico (razão CT/HDLc e triglicerídeos) e reduzir a glicação (frutosamina) do que lanchinhos ‘fat-free’ [3]. Outra demonstração: em indivíduos saudáveis, a ingestão de vinagre (18, 23 e 28 g) foi capaz de atenuar o aumento na glicemia e insulinemia induzido pela ingestão de pão (quanto maior a dose de vinagre, melhor foi a resposta); de que quebra, cada aumento na quantidade ingerida de vinagre proporcionou maior sensação de saciedade nos participantes [4].

Esses estudos mostram que alguns alimentos podem, de fato, conferir interessantes benefícios à saúde. E se isso é verdade para os exemplos citados, também pode ser verdade para a goji berry.

De qualquer maneira, para que a "defesa" ou o “ataque” à goji berry sejam justos, é imprescindível que os argumentos utilizados sejam válidos e devidamente embasados.


O consumo de goji berry realmente traz benefícios?

Dezenas de estudos in vitro e com animais já avaliaram o efeito da goji berry nas mais diversas condições clínicas e patológicas [5,6]. Nesses casos, assim como para diversos outros alimentos e compostos testados em estudos com animais e células, os resultados são extremamente promissores. Já foi demonstrado que a goji berry, principalmente a partir da sua fração de polissacarídeos, é capaz de exercer efeitos antioxidantes, imunomoduladores, antitumorais, neuroprotetores e antidiabéticos [5,6,7].

Mas como não posso deixar de enfatizar (sempre!), a história só fica completa mesmo com estudos em humanos.

E ao consultarmos a literatura científica, rapidamente percebemos que já se estuda a goji berry há algum tempo.

Em 2009, pesquisadores dos Estados Unidos verificaram, em um ensaio clínico randomizado, que uma dose diária de 120 mL de um suco padronizado de goji berry (equivalente a pelo menos 150 g da fruta fresca), comparada a uma bebida placebo com características sensoriais iguais), melhorou parâmetros imunológicos como contagem total de linfócitos, IL-2 e IgG em participantes idosos, após 30 dias de suplementação [8]. Além disso, os indivíduos que ingeriram o suco de goji berry também apresentaram maior sensação de bem-estar, com melhorias na fadiga e no sono, e uma tendência de aumento na capacidade de foco e de melhora na memória de curto prazo. Nenhum efeito adverso foi observado.

O efeito imunomodulador da goji berry foi novamente avaliado em 2012 [9]. Nesse ensaio clínico randomizado duplo-cego, 150 chineses idosos foram divididos em dois grupos: placebo ou intervenção. O pessoal do grupo intervenção consumiu, durante 3 meses, uma formulação láctea à base de goji berry, leite desnatado e maltodextrina. O grupo placebo recebeu uma formulação bastante semelhante, com a goji berry substituída por sacarose (açúcar comum). A duas bebidas apresentavam as mesmas características visuais, de sabor, de aroma e de textura. Ao final do estudo, foi verificado que os idosos que receberam a suplementação de goji berry responderam de forma mais positiva a vacinações contra o vírus influenza, aumentando a produção de IgG específica para o antígeno. O interessante desse estudo é que ele mostrou, numa situação real, que a suplementação com goji berry pode influenciar de forma positiva a resposta imunológica de pessoas idosos — uma população que, muitas vezes, possui um sistema imune comprometido.

Além dos polissacarídeos, a goji berry possui uma quantidade interessante de carotenoides, especialmente zeaxantina [6]. Tendo em vista que a suplementação de carotenoides pode auxiliar no tratamento de alguns problema oculares, como a degeneração macular [10,11,12,13], a goji berry também já foi estudada nesse contexto. Os mesmos indivíduos do estudo anterior [9], nas mesmas condições, foram testados para ver se a suplementação da bebida láctea de goji berry seria capaz de influenciar positivamente a mácula, os níveis sanguíneos de zeaxantina e a capacidade antioxidante dos idosos [14]. Após 3 meses de intervenção, os níveis de zeaxantina e a capacidade antioxidante dos idosos aumentaram em 26% e 57%, respectivamente, após a suplementação com goji berry, enquanto que nenhuma alteração foi observada no grupo placebo. Porém, o resultado mais interessante foi que o grupo que ingeriu o placebo apresentou alterações negativas na mácula, enquanto que o grupo que consumiu goji berry, não. Assim, é possível que a ingestão frequente de goji berry possa auxiliar a atenuar, ou até mesmo prevenir, a degeneração macular associada à idade.

Vale ressaltar que a capacidade da goji berry em aumentar os níveis de marcadores antioxidantes [15] e os níveis de zeaxantina já havia sido demonstrada anos antes [16,17], confirmando que esse carotenoide é capaz de ser absorvido e também de exercer efeitos na saúde humana por meio da ingestão dessa fruta; a homogeneização de goji berry em leite quente aumenta ainda mais a biodisponibilidade de zeaxantina [18].

Mas os benefícios da goji berry podem ir além de tratar ou prevenir doenças. O seu consumo pode ser vantajoso no sentido de promover saúde. Uma meta-análise de quatro ensaios clínicos randomizados, de 2013, avaliou o efeito da ingestão de goji berry em diversos parâmetros de bem-estar e saúde geral [19]. Foi verificado que, comparado a intervenções placebo, o consumo de goji berry mostrou melhorias nos seguintes parâmetros: fraqueza, estresse, acuidade mental, qualidade do sono, falta de ar, fadiga e sensação geral de bem-estar.

E, por fim, a pergunta quer não quer calar: comer goji berry ajuda a emagrecer?  Um estudo de 2011 buscou esclarecer essa dúvida [20]. Em um breve período de duas semanas, a ingestão de suco de goji berry foi capaz de reduzir em 5,5 cm a circunferência da cintura dos participantes desse grupo, enquanto que aqueles que consumiram a bebida placebo não apresentaram alterações nesse parâmetro.




Infelizmente, outras medidas de composição corporal, como peso, percentual de gordura e massa magra, não foram relatadas. De qualquer maneira, os pesquisadores verificaram, ainda, que a ingestão do suco de goji berry levou a um aumento na taxa metabólica de repouso e no gasto energético pós-prandial — resultado este que ajudaria a explicar a redução na circunferência da cintura que foi observada.


Considerações finais

Vale ressaltar que, com exceção de um estudo [16], todos os ensaios clínicos que mostraram benefícios, assim como os estudos incluídos na meta-análise, receberam apoio financeiro de empresas que comercializam produtos fabricados utilizando a goji berry como matéria-prima.

Isso não necessariamente significa que os resultados positivos observados não são verdadeiros — como já mencionei aqui. Porém, é inegável que, de fato, existe um enorme conflito de interesses por trás dos estudos que envolvem a goji berry. Por isso, o ideal é que exerçamos nosso ceticismo e tenhamos uma visão crítica antes de aceitar essas evidências como “definitivas” sobre os benefícios trazidos pela por essa fruta.

Existem evidências suficientes para mostrar que, em humanos, a goji berry pode trazer todos os benefícios alegados por quem a defende? Certamente não. Mas os estudos que já foram feitos apresentaram resultados interessantes? Sim, com certeza — principalmente, na minha opinião, a redução de mais de 5 cm da circunferência da cintura em apenas duas semanas, o que demonstra um potencial considerável em favorecer o emagrecimento.

Sendo assim, não custa nada testar na prática como o consumo de goji berry influencia a sua saúde (até custa, porque não é um alimento barato; mas, se os resultados forem bons, é um custo que pode valer a pena). Como já mencionei várias vezes, nutrição é sinônimo de experimentação


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Referências

1. Wien MA, et al. Almonds vs complex carbohydrates in a weight reduction program. Int J Obes Relat Metab Disord. 2003;27(11):1365-72.

2. Ballesteros MN, et al. One egg per day improves inflammation when compared to an oatmeal-based breakfast without increasing other cardiometabolic risk factors in diabetic patients. Nutrients. 2015;7(5):3449-63.

3. Sauder KA, et al. Effects of pistachios on the lipid/lipoprotein profile, glycemic control, inflammation, and endothelial function in type 2 diabetes: a randomized trial. Metabolism. 2015;64(11):1521-9.

4. Ostman E, et al. Vinegar supplementation lowers glucose and insulin responses and increases satiety after a bread meal in healthy subjects. Eur J Clin Nutr. 2005;59(9):983-8.

5. Chang RC, So KF. Use of anti-aging herbal medicine, Lycium barbarum, against aging-associated diseases. What do we know so far? Cell Mol Neurobiol. 2008;28(5):643-52.

6. Potterat O. Goji (Lycium barbarum and L. chinense): Phytochemistry, pharmacology and safety in the perspective of traditional uses and recent popularity. Planta Med. 2010;76(1):7-19

7. Jin M, et al. Biological activities and potential health benefit effects of polysaccharides isolated from Lycium barbarum L. Int J Biol Macromol. 2013;54:16-23.

8. Amagase H, et al. Immunomodulatory effects of a standardized Lycium barbarum fruit juice in Chinese older healthy human subjects. J Med Food. 2009;12(5):1159-65.

9. Vidal K, et al. Immunomodulatory effects of dietary supplementation with a milk-based wolfberry formulation in healthy elderly: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Rejuvenation Res. 2012;15(1):89-97.

10. Sabour-Pickett S, et al. A review of the evidence germane to the putative protective role of the macular carotenoids for age-related macular degeneration. Mol Nutr Food Res. 2012;56(2):270-86.

11. Liu R, et al. Lutein and zeaxanthin supplementation and association with visual function in age-related macular degeneration. Invest Ophthalmol Vis Sci. 2014;56(1):252-8.

12. Huang YM, et al. Changes following supplementation with lutein and zeaxanthin in retinal function in eyes with early age-related macular degeneration: a randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Br J Ophthalmol. 2015;99(3):371-5.

13. Age-Related Eye Disease Study 2 Research Group. Lutein + zeaxanthin and omega-3 fatty acids for age-related macular degeneration: the Age-Related Eye Disease Study 2 (AREDS2) randomized clinical trial. JAMA. 2013;309(19):2005-15.

14. Bucheli P, et al. Goji berry effects on macular characteristics and plasma antioxidant levels. Optom Vis Sci. 2011;88(2):257-62.

15. Amagase H, et al. Lycium barbarum (goji) juice improves in vivo antioxidant biomarkers in serum of healthy adults. Nutr Res. 2009;29(1):19-25.

16. Breithaupt DE, et al. Comparison of plasma responses in human subjects after the ingestion of 3R,3R'-zeaxanthin dipalmitate from wolfberry (Lycium barbarum) and non-esterified 3R,3R'-zeaxanthin using chiral high-performance liquid chromatography. Br J Nutr. 2004;91(5):707-13.

17. Cheng CY, et al. Fasting plasma zeaxanthin response to Fructus barbarum L. (wolfberry; Kei Tze) in a food-based human supplementation trial. Br J Nutr. 2005;93(1):123-30.

18. Benzie IF, et al. Enhanced bioavailability of zeaxanthin in a milk-based formulation of wolfberry (Gou Qi Zi; Fructus barbarum L.). Br J Nutr. 2006;96(1):154-60.

19. Paul Hsu CH, et al. A meta-analysis of clinical improvements of general well-being by a standardized Lycium barbarum. J Med Food. 2012;15(11):1006-14.

20. Amagase H, Nance DM. Lycium barbarum increases caloric expenditure and decreases waist circumference in healthy overweight men and women: pilot study. J Am Coll Nutr. 2011;30(5):304-9.



terça-feira, 10 de novembro de 2015

Resveratrol: doce ilusão ou amarga realidade?





Você  provavelmente já ouviu falar dos benefícios do vinho, certo? O resveratrol é, teoricamente, a principal molécula presente no vinho (e na uva) que supostamente confere os benefícios à saúde associados ao consumo dessa bebida.

Já há certo tempo, o resveratrol é uma das substâncias mais queridas na Nutrição. E uma das mais estudadas. São inúmeros trabalhos científicos que se propuseram, e ainda se propõem, a investigar os efeitos dessa molécula sobre a saúde. Consequentemente, toda hora vemos também matérias e manchetes na mídia abordando o assunto.

Mas o que exatamente é o resveratrol? Quais os seus possíveis benefícios à saúde? Em humanos, a ingestão de resveratrol é realmente efetiva ou associada à melhora na saúde?


O que é o resveratrol?

O resveratrol é um polifenol, assim como diversos outros compostos que são consideradas como “milagrosas” ou “funcionais”. Como o nome diz, polifenol é qualquer substância que possui mais de uma estrutura fenólica em sua molécula. Mais especificamente, o resveratrol pertence à classe dos estilbenos, apresentando dois anéis fenólicos.




O resveratrol caracteriza-se como uma substância de ocorrência natural em vários vegetais, tais como uva, amora, mirtilo (blueberry) e amendoim. Entretanto, vale ressaltar que, ao contrário do que muita gente pode pensar, a uva — e, também, o vinho — não é a maior fonte de resveratrol na natureza. Esse prêmio vai para a planta Polygonum cuspidatum, tradicionalmente utilizada nas medicinas chinesa e japonesa [1].

Assim como no caso de outros polifenóis e de diversas moléculas que apresentam atividade anti-inflamatória ou antioxidante, o resveratrol tem sua produção aumentada nas plantas quando estas se encontram em condições de estresse, como a exposição a micro-organismos (como fungos) e a incidência de radiação ultravioleta [2]. A maior produção de resveratrol — e de polifenóis — em resposta a situações estressantes é um mecanismo natural de defesa das plantas.

As três principais fontes de resveratrol na alimentação, considerando nossos hábitos alimentares (e não apenas a concentração total dessa substância) são [3]:

1) Uva (0,16 a 3,54 µg/g)*
2) Suco de uva (0,50 mg/L)
3) Vinho tinto (0,10 a 14,3 mg/L)**


*A concentração de resveratrol das uvas escuras é similar à das uvas claras.

**O vinho tinto apresenta mais resveratrol que o vinho branco. Isso acontece porque, durante a produção do vinho tinto, o processo de fermentação ocorre na presença da casca da uva. A casca da uva é onde o resveratrol encontra-se em maior quantidade.


Resveratrol: a grande panaceia?

O clamor pelo resveratrol consolidou-se em 2006. Até aquele ano, já havia sido demonstrado que a administração de resveratrol a fungos, parasitas e pequenos insetos era capaz de aumentar a longevidade nessas espécies. Entretanto, ainda não haviam sido apresentados dados semelhantes em mamíferos.

Em um estudo com camundongos, Baur e colaboradores demonstraram, pela primeira vez, que o resveratrol era capaz de melhorar diversos parâmetros de saúde e, ainda por cima, aumentar a longevidade em animais mamíferos que consumiam uma dieta hipercalórica [4]. Não à toa, o estudo foi publicado na prestigiosa revista Nature. Nesse trabalho, os pesquisadores dividiram os camundongos em três grupos: 1) dieta controle; 2) dieta hipercalórica; e 3) dieta hipercalórica + resveratrol.

Veja como foi o ganho de peso após 60 semanas:




Fica evidente que os animais que consumiram a dieta hipercalórica (quadrados vermelhos e losangos azuis) ganharam muito mais peso do que aqueles que consumiram a dieta controle (triângulos pretos), mesmo quando houve suplementação de resveratrol. A ingestão de resveratrol atenuou de forma bastante modesta o ganho de peso induzido pela dieta hipercalórica (losangos azuis).

Entretanto, observe o que aconteceu com a sobrevivência dos animais:




A longevidade dos camundongos que receberam dieta hipercalórica + resveratrol foi praticamente igual à dos animais que consumiram a dieta controle, e muito superior à dos animais que receberam apenas a dieta hipercalórica (sem resveratrol).

E os níveis de insulina:




Mais uma vez, a suplementação com o resveratrol reduziu de forma significativa a concentração sanguínea de insulina nos camundongos que ingeriram a dieta hipercalórica, comparados aos animais que consumiram a dieta hipercalórica sem a suplementação. Apesar de ainda superiores, os níveis de insulina dos camundongos com dieta hipercalórica + resveratrol ficaram mais próximos aos dos animais controle do que aos dos animais que receberam apenas a dieta hipercalórica. Nesse caso, menores níveis de insulina indicam menor resistência à insulina, o que é extremamente positivo, uma vez que o desenvolvimento de diversas doenças crônicas — principalmente diabetes tipo 2 e síndrome metabólica — está diretamente relacionado à presença do estado de resistência à insulina.

E veja o que aconteceu com o fígado dos animais:




Apesar de morfologicamente estar mais “danificado”, o fígado dos camundongos que receberam dieta hipercalórica + resveratrol permaneceu do tamanho do fígado dos animais controle, enquanto que o fígado dos camundongos que receberam apenas a dieta hipercalórica mais do que dobrou de tamanho. O tamanho do fígado é um parâmetro indicativo de esteatose hepática (gordura no fígado). De fato, na imagem histológica das células do fígado, nota-se claramente a maior presença de gordura no órgão dos camundongos que ingeriram apenas a dieta hipercalórica, enquanto que os animais que receberam dieta hipercalórica + resveratrol apresentam morfologia celular comparável à dos animais controle.

Resumindo: preveniu um pouco do ganho de peso; melhorou a resistência à insulina; preveniu o acúmulo de gordura no fígado; e, acima de tudo, aumentou a longevidade. Além disso, esse estudo apresentou outros resultados bem interessantes, mas os que foram apresentados já são suficientes para mostrar porque, após esse estudo, tanto se falou sobre o resveratrol. 

O resultado mais comentado foi justamente esse último: aumento da longevidade. E isso se deu justamente porque uma das coisas que as pessoas mais almejam hoje em dia é viver cada vez mais. Por isso, surgiram diversas notícias no seguinte tom: “Descoberta a solução para se viver mais!”.


(Obs: Vale ressaltar que, até hoje, o único tipo de intervenção que é capaz de aumentar a longevidade, em praticamente qualquer espécie, é a restrição calórica. Existem vários tipos de restrição calórica, entre elas o jejum intermitente. Entretanto, não há evidências minimamente concretas de que a longevidade, mesmo que através da restrição calórica, possa ser aumentada em humanos).

Dos resultados do estudo acima em diante, o resveratrol passou a ser ainda mais estudado, principalmente devido à capacidade antioxidante e anti-inflamatória que essa molécula — assim como diversos outros polifenóis — possui. Após mais alguns anos de pesquisa, foram identificadas diversas patologias e condições clínicas nas quais o resveratrol poderia atuar:

1) Doenças neurológicas, como o Alzheimer [5]
2) Doenças cardiovasculares [6]
3) Câncer [7]
4) Diabetes [8]
5) Obesidade [9]
6) Esteatose hepática [10]
7) Doenças oculares [11]
8) Doença renal crônica [12]
9) Insuficiência cardíaca [13]
10) Osteoporose [14]

E aqui algumas das moléculas que supostamente são moduladas pelo resveratrol, indicando seus possíveis efeitos anti-inflamatório e antioxidante:




Apesar de haver a hipótese de que o resveratrol pode exercer efeitos positivos nas patologias citadas acima, é importante ressaltar que praticamente todas as evidências são derivadas de estudos com animais ou células. Assim, é preciso ir além dos mecanismos, moléculas e vias bioquímicas influenciadas pelo resveratrol. 

Diante disso, é importante perguntar: quais são os efeitos da ingestão de resveratrol em humanos?


Resveratrol em humanos: Hipertensão

Devido às atividades anti-inflamatória e antioxidante observadas para o resveratrol nos estudos em células e em animais, o principal alvo de pesquisa dessa molécula em humanos são as patologias crônicas: diabetes, obesidade, hipertensão, câncer, doenças cardiovasculares etc.

No que diz respeito à hipertensão, em 2015 foi publicado um estudo do tipo meta-análise que avaliou o efeito da suplementação de resveratrol sobre os níveis de pressão arterial sistólica (PAS) e pressão arterial diastólica (PAD) [15]. Os estudos incluídos na meta-análise foram variados no que diz respeito, principalmente, à “saúde” dos indivíduos participantes, ou seja, alguns estudos foram realizados com pessoas “saudáveis” e outros com pessoas com complicações metabólicas, como diabetes tipo 2.

Os resultados indicam que, de maneira geral, o resveratrol não apresentou efeitos significativos sobre a pressão arterial, exceto quando quantidades acima de 150 mg/dia foram utilizadas. Nessa dose, o resveratrol foi capaz de reduzir apenas a PAS, mas não a PAD, o que torna questionável a relevância clínica de tal intervenção.

Isso acontece porque os estudos que demonstram efeitos positivos da redução na pressão arterial sobre a diminuição do risco de doenças cardiovasculares sempre contam com redução tanto na PAS como na PAD [16]. Por outro lado, a redução da PAS com o resveratrol, que foi de aproximadamente 10 mmHg em média, é praticamente a mesma apresentada para a média dos medicamentos utilizados para o controle da hipertensão arterial — e em muitos casos é até superior à redução na PAS conferida por essas drogas [16,17].


(Obs: Apesar de haver redução no risco de desenvolvimento de algumas doenças cardiovasculares com o uso de medicamentos que diminuem a pressão (anti-hipertensivos), não é possível afirmar com 100% de certeza que o efeito é decorrente — pelo menos unicamente — da diminuição da pressão em si. Pode parecer contraintuitivo pensar dessa maneira, mas talvez não completamente. Digo isso por causa das estatinas, medicamentos utilizados para diminuir o colesterol no sangue — principalmente o "colesterol ruim". As estatinas diminuem o colesterol? Sim. As estatinas reduzem o risco cardiovascular? Em algumas populações, sim. As estatinas reduzem o risco cardiovascular porque diminuem o colesterol no sangue? Provavelmente não, mas sim por outro mecanismo. Mas esse é um assunto para outro texto).


Como curiosidade, recentemente foi demonstrado que o consumo de nitrato naturalmente presente na beterraba (250 mL/dia de suco de beterraba) é capaz de reduzir em 8 mmHg a PAS e em 3 mmHg a PAD [18], resultado também igual ou superior ao observado para a maioria das drogas atualmente utilizadas para o tratamento da hipertensão [17] (com a vantagem de não apresentar efeitos adversos característicos de medicamentos).

Vale ressaltar que, na meta-análise [15], os estudos com resveratrol que encontraram resultados positivos na redução da PAS foram de curta duração e, ainda, contaram com um número pequeno de participantes. Além disso, foram apenas 3 estudos que demonstraram tal efeito, os quais apresentaram uma inconsistência (I2, um tipo de medida aferida pelos estudos de meta-análise para avaliar o quanto de variação existe dentro do próprio estudo e quando se comparam estudos diferentes com o mesmo desfecho) muito grande entre eles, enfraquecendo o peso que esse tipo de evidência possui sobre a real efetividade do resveratrol sobre a pressão arterial. 


Resveratrol em humanos: Doenças cardiovasculares

Para as doenças cardiovasculares, como infarto ou derrame, ainda estamos longe de ter evidências mais diretas sobre a influência do consumo de resveratrol — e, na verdade, de praticamente qualquer alimento ou nutriente isolado — sobre desfechos mais concretos, como eventos ou morte por doenças cardiovasculares. Por esse motivo, temos que ficar apenas com os tradicionais fatores de risco para essas doenças, como colesterol total, LDLc, HDLc, triglicerídeos.

Nesse caso, os dados são muito mais concretos. A última meta-análise a avaliar esse tópico, publicada no final de 2013, não encontrou qualquer efeito da suplementação de resveratrol sobre os marcadores de risco cardiovascular [19]. Diferentemente da meta-análise realizada para pressão arterial, os testes de sensibilidade sugerem que a ausência de efeitos parece ser um resultado consistentemente encontrado em todos os  ensaios clínicos avaliados nessa meta-análise de marcadores de risco cardiovascular, independente da dose de resveratrol, da duração do tratamento ou do risco cardiovascular basal apresentado pelas populações estudadas. De qualquer maneira, assim como os autores sugerem, estudos com um número maior de indivíduos e com um tempo maior de acompanhamento seriam necessários para se chegar a resultados ainda mais conclusivos sobre o efeito do resveratrol sobre os fatores de risco cardiovascular aferidos.


Resveratrol em humanos: Diabetes e controle glicêmico

Quando falamos de obesidade e diabetes, os principais marcadores avaliados são aqueles que dizem respeito ao metabolismo da glicose, como glicemia de jejum, insulina e hemoglobina glicada (HbA1c, um marcador capaz de avaliar o nível médio de glicose no sangue nos últimos 90-120 dias, aproximadamente). Nesse caso, temos dois estudos de meta-análise recentes que avaliaram o efeito da suplementação de resveratrol sobre esses parâmetros.

A primeira meta-análise, publicada em 2014, incluiu todos os estudos disponíveis com indivíduos “saudáveis” e também pacientes com diabetes tipo 2 [20]. Verificou-se que, mesmo quando qualquer um dos marcadores avaliados encontrava-se acima da média, o resveratrol não teve qualquer efeito nos indivíduos “saudáveis”. Por outro lado, nos pacientes diabéticos a suplementação com resveratrol apresentou redução significativamente estatística nos níveis de glicemia, insulina e HbA1c.

A segunda meta-análise incluiu estudos apenas em pacientes com diabetes tipo 2 [21]. Por ser um trabalho mais recente (e com uma metodologia de busca aparentemente mais consistente), resultou em um número maior de estudos incluídos na análise. Diferentemente do encontrado na meta-análise anterior, a suplementação com resveratrol apresentou redução estatisticamente significativa apenas nos níveis de HbA1c, mas não na glicose ou insulina sanguíneas.

Porém, assim como para a redução nos níveis de pressão arterial sistólica observada mencionada acima, é necessário avaliarmos até que ponto tais modificações são clinicamente importantes, ou seja, se são capazes de conferir reais benefícios à saúde dos indivíduos. No caso da primeira meta-análise [20], as reduções de 0,3% na HbA1c e de 1,5 µU/mL na insulina, na prática, são muito pequenas para um paciente diabético, mesmo que a diminuição nesses valores tenha sido estatisticamente significativa. Por outro lado, a redução nos níveis de glicose sanguínea já foi mais representativa, atingindo um valor médio de 10 mg/dL — nada de outro mundo, mas é sim um redução interessante.

No caso da segunda meta-análise [21], apesar de ter havido diferença estatística na redução da hemoglobina glicada (HbA1c), um importante marcador do comportamento dos níveis de glicose nos últimos meses, o benefício clínico foi muito pequeno: redução média de apenas 0,4% (uma das formas de expressar os níveis de HbA1c é por meio de valor percentual). Assim, se pegarmos um paciente diabético com níveis de HbA1c de 8,0% ou mais — extremamente comum em indivíduos com diabetes tipo 2 —, uma redução de 0,4% não é algo tão relevante.

Vale ressaltar que o modesto benefício do resveratrol sobre os níveis de glicemia podem ser explicados pelo principal mecanismo de ação dessa molécula. Já foi extensivamente demonstrado em animais e células que o resveratrol parece realmente ser capaz de ativar proteínas intracelulares que controlam o metabolismo, o gasto calórico e a utilização de substratos energéticos (como a glicose) pelas nossas células, tais como a SIRT1 e a AMPK [22]. O mais interessante é que tais efeitos também já foram demonstrados em humanos [23], indicando que o resveratrol poderia vir a exercer efeitos benéficos em algumas condições patológicas.





Resveratrol em humanos: Inflamação

Hoje sabemos que praticamente todas as doenças crônicas, do diabetes ao Alzheimer, da aterosclerose à doença renal crônica, são diretamente influenciadas pelo estado inflamatório do organismo. É muito difícil dizer se a inflamação leva ao desenvolvimento dessas doenças ou, ao contrário, se são essas doenças que realmente aumentam a inflamação no corpo. Na verdade, é muito provável que as duas coisas aconteçam praticamente de forma simultânea e “sinérgica”, como uma retroalimentação. Assim, devido à importância que a inflamação possui nessas doenças, os marcadores pró-inflamatórios e anti-inflamatórios são extensivamente estudados atualmente.

No contexto da inflamação, os resultados não poderiam ser mais contraditórios. Um recente artigo de revisão tabulou todos os estudos do tipo ensaio clínico que avaliaram, de forma direta ou indireta, o efeito do resveratrol sobre marcadores de inflamação e chegaram à seguinte conclusão: os resultados são bastante inconsistentes [24]. Não apenas os resultados são controversos — com redução nos marcadores inflamatórios em alguns estudos e efeitos nulos em outros —, mas também as doses utilizadas, o número de indivíduos participantes e o tempo de tratamento são completamente diferentes entre os estudos. Só para ilustrar, as doses de resveratrol utilizadas variaram de 10 até 3000 mg.

Enquanto existem estudos em que doses mais baixas (40 mg) foram capazes de reduzir marcadores inflamatórios, há também estudos em que doses extremamente elevadas (3000 mg) foram 100% ineficazes [24]. Por outro lado, o contrário também já foi observado: doses relativamente pequenas de resveratrol não mostrando efeitos, assim como doses altas levando a resultados positivos.

De qualquer maneira, vale ressaltar que, assim como para a pressão arterial e para o controle da glicose no sangue, os poucos resultados benéficos observados para os marcadores inflamatórios a partir da suplementação de resveratrol são bastante modestos na maioria dos estudos.


Efeitos adversos da ingestão de resveratrol

Poucos são os efeitos adversos provenientes da ingestão de resveratrol, e eles normalmente surgem apenas quando doses muito elevadas são ingeridas (quantidades que não virtualmente impossíveis de serem obtidas por meio da alimentação). Os mais comuns parecem ser os efeitos gastrointestinais, como dor abdominal, diarreia e náusea, que se apresentam quando doses a partir de 2500 mg/dia são ingeridas durante vários dias consecutivos [25]. Vale ressaltar que alguns estudos com humanos já utilizaram doses iguais ou superiores a 2500 mg, indicando que possíveis efeitos benéficos podem vir acompanhados, em alguns casos, de efeitos adversos.

Outros possíveis efeitos adversos: aumento nos níveis de bilirrubina, descoloração da pele, cistite, acne, flatulência, dor no peito, tontura e xerostomia [25]. Além disso, doses a partir de 5000 mg podem levar ao desenvolvimento de problemas nos rins, que em alguns casos são tão sérios que podem levar à falência desses órgãos [26].


Considerações finais

Apesar dos estudos pré-clínicos terem sido muito promissores, devido aos excelentes resultados obtidos a partir da ação do resveratrol em animais e células, [in]felizmente o efeito desse composto em humanos é, na melhor das hipóteses, muito pequeno e inconsistente.

Infelizmente porque, no final, o objetivo da ciência e dos profissionais de saúde é ter o máximo de opções para que pacientes que precisam de tratamento possam ter desfechos mais favoráveis, melhorando ao máximo suas condições de saúde. De forma semelhante, é sempre interessante ter em mãos estratégias que sejam efetivas também no sentido de prevenir doenças, para que pessoas saudáveis possam se manter assim pelo maior tempo possível.

Felizmente, por outro lado, o “fracasso” do resveratrol é, na minha opinião, algo positivo, uma vez que isso pode levar pesquisadores, profissionais e a população a pararem de acreditar nas “pílulas mágicas”. Não existe — e provavelmente nunca existirá — qualquer composto derivado de alimentos capaz de ser, isoladamente, genuinamente efetivo em tratar ou prevenir doenças crônicas. O "segredo" é comer comida de verdade e ser fisicamente ativo, além de ter outros hábitos como sono e controle do estresse devidamente cuidados.

É importante mencionar, novamente, que até os resultados positivos foram bastante modestos — além de terem sido demonstrados apenas em um número muito reduzido de estudos, todos eles de curta duração e com poucos participantes. Os efeitos possivelmente benéficos do resveratrol, de acordo com a literatura, seriam na pressão arterial e no controle glicêmico  — nesse último caso, especificamente para pacientes com diabetes tipo 2.

Ainda, a maior parte dos estudos até hoje falhou em mostrar qualquer tipo de efeito nas variáveis discutidas acima. Não à toa, publicações recentes de 2014 e 2015, como editoriais científicos e estudos de revisão, também questionam a relevância da suplementação de resveratrol sobre a saúde humana [27,28,29].

E mais um detalhe: não espere que a uva ou o vinho tinto confiram benefícios devido à presença de resveratrol em suas composições. Baseado nos dados apresentados acima, seria necessário consumir todos os dias mais de 10 kg de uva, mais de 10 litros de suco de uva ou mais de 2 ou 3 litros de vinho tinto — considerando as concentrações máximas de resveratrol que podem ser encontradas nesses produtos — para se atingir as doses mais baixas de resveratrol normalmente ingeridas por meio dos suplementos utilizados nos estudos. Por outro lado, é claro que a uva e o suco contêm uma infinidade de outros compostos que poderiam, por exemplo, atuar em sinergia com o resveratrol e conferir benefícios à saúde. Assim, é possível que quantidades bem menores de uva, por exemplo, tragam efeitos positivos? Claro que sim!

De qualquer maneira, são mais de duas décadas de pesquisas com o resveratrol, além de milhões (bilhões?) de dólares gastos. Por isso, é importante repensar se o dinheiro destinado às pesquisas — nessa e em diversas outras áreas — está de fato sendo bem utilizado, de forma a gerar reais benefícios à nossa população.

Além disso, a reflexão também fica para todos nós: vale a pena investir tempo e dinheiro com suplementos “milagrosos”? Se aparentemente não vale nem para o resveratrol — uma das substâncias mais bem estudadas, inclusive em humanos —, o que dizer da maioria dos outros suplementos com supostos efeitos benéficos?!


(Obs: a partir de uma pesquisa abrangente no PubMed, uma base de dados de artigos científicos, no período em que esse texto foi escrito, nenhum estudo buscou testar primariamente o efeito da suplementação de resveratrol sobre a perda de peso ou de gordura corporal em humanos. Por isso, perda de peso e de gordura corporal não foram discutidas aqui).


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Referências

1. de Ligt M, et al. Resveratrol and obesity: Can resveratrol relieve metabolic disturbances? Biochim Biophys Acta. 2014 [Epub ahead of print].

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