terça-feira, 11 de novembro de 2014

Refluxo: sua relação com a alimentação — Parte 2




No primeiro post dessa série, exploramos como uma dieta com redução de carboidratos pode auxiliar na redução de sintomas e no tratamento do refluxo. Comentamos também sobre o fato de que os medicamentos normalmente utilizados no controle dessa patologia podem, ao invés de melhorar, piorar o quadro da doença.

Para mostrar a efetividade da redução de carboidratos sobre sinais e sintomas do refluxo, aqui está um caso real.


Caso de hérnia de hiato

Indivíduo jovem, do sexo masculino, sem sobrepeso ou obesidade, realizou uma endoscopia de rotina e descobriu que possuía hérnia de hiato. Essa doença é caracterizada pelo deslocamento, ou protrusão, de uma parte do estômago através da musculatura do diafragma. O resultado disso é uma alteração anatômica e fisiológica do estômago, modificando a funcionalidade do esfíncter esofágico inferior (estrutura muscular que comunica o esôfago ao estômago) — facilitando o refluxo do conteúdo estômago para o esôfago [1].

É por isso que pacientes com hérnia de hiato normalmente apresentam refluxo [2]. Esse era justamente o caso do paciente em questão: hérnia de hiato + refluxo.

A imagem mais à esquerda é a do estômago normal, enquanto que as demais figuras correspondem a duas situações de hérnia de hiato. Importante de se observar é que, em ambos os casos de hérnia, a anatomia e funcionalidade do estômago e do esfíncter esofágico inferior são alteradas.


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Veja a situação inicial do esôfago do paciente, já com lesões consideráveis:


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As partes com um vermelho mais vivo, junto com uma coloração esbranquiçada, são as lesões no esôfago. Circulei uma delas na imagem da esquerda para ficar mais fácil de observá-las. É possível ver diversas e extensas lesões causadas pelo refluxo.


Tratamento

Como já havia lesões severas, e como a hérnia de hiato já estava relativamente avançada, o médico levantou a possibilidade de realizar uma cirurgia no estômago do paciente para corrigir o problema. O objetivo da cirurgia seria principalmente para melhorar os sintomas do refluxo e as lesões esofágicas causadas por essa doença, os quais provavelmente ocorreriam porque a estrutura do estômago seria remodelada para prevenir esses efeitos adversos.

Entretanto, antes de um procedimento mais severo, o médico prescreveu o tratamento tradicional para o tratamento do refluxo: um remédio para reduzir a secreção de ácido no estômago e outro para aumentar a motilidade desse órgão. A menor secreção ácida naturalmente faria com que o conteúdo do estômago se tornasse menos danoso às células do esôfago, sempre que houvesse refluxo. A maior motilidade no estômago faria com que o alimento permanecesse menos tempo no estômago e também estimulasse menos a secreção ácida, desfavorecendo o retorno do conteúdo do estômago para o esôfago. Na hipótese de melhora, o médico sinalizou que a medicação deveria ser utilizada de forma contínua (por período não determinado) pelo paciente. A descontinuidade do tratamento poderia comprometer qualquer melhoria alcançada ou até piorar o quadro.

Pela ânsia de tratar as lesões causadas pelo refluxo, e logicamente pelo receio da doença progredir, o paciente decidiu seguir a orientação média. Inicialmente, o tempo de tratamento com os dois medicamentos seria de 6 meses, quando, ao final do período, o paciente retornaria ao consultório médico para realizar uma nova endoscopia. O prognóstico não era tão otimista, uma vez que o médico não garantiu que haveria melhora rápida e significativa das lesões no esôfago — pelo menos não no curto ou médio prazo.

Após 2 meses de tratamento com os medicamentos, o paciente percebeu que sua alimentação poderia estar interferindo de alguma forma nos sintomas do refluxo. Pouco tempo depois, ele tomou conhecimento que uma dieta com redução de carboidratos poderia ajudar no tratamento do refluxo.

Nas primeiras semanas em que modificou sua alimentação, continuou tomando os remédios como “garantia”. Entretanto, já a partir do terceiro mês o paciente resolveu abandonar os medicamentos para observar apenas o efeito da dieta sobre a sua condição.

O resultado de 3 meses realizando apenas uma dieta com redução de carboidratos foi o seguinte:

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Como pode ser observado, houve melhora significativa das lesões com a adoção de uma dieta reduzida em carboidratos. As lesões passaram a ser quase que imperceptíveis. Além disso, os sintomas do refluxo, que no caso desse paciente era a pirose (azia), também desapareceram.


Tratamento alternativo do refluxo: probióticos

Como comentamos na primeira parte desse post, o refluxo é comumente causado pelo aumento na pressão intra-abdominal, a qual pode ser facilmente decorrente do supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO) — onde a produção de gases desencadearia o aumento na pressão.

Existe a possibilidade de uma dieta reduzida em carboidratos (low-carb) não ser tão efetiva em alguns casos de refluxo? Provavelmente... Existe a possibilidade de uma dieta low-carb não ser tão efetiva no longo prazo, mesmo quando é efetiva no curto ou médio prazo? Também...

Isso pode acontecer porque a proliferação bacteriana, seja no intestino grosso ou delgado, é dependente dos substratos que fornecemos a elas (fibras alimentares, amido resistente, oligossacarídeos etc.) e também dos tipos de bactérias que existem no nosso intestino. Se não houver os tipos de bactérias com as quais evoluímos, e que normalmente colonizam nosso intestino grosso ao invés do intestino delgado, existe a maior possibilidade de crescimento de bactérias que não deveriam estar se proliferando no trato gastrointestinal.

É preciso entender que as bactérias competem entre si por espaço, alimento e condições para sobreviverem em nosso intestino. Assim, caso uma dieta low-carb não funcione corretamente em alguns casos de refluxo, é possível que o balanço entre as bactérias precise ser alterado, par que as bactérias “benéficas” façam com que as bactérias “ruins” percam espaço e descolonizem o intestino delgado. E isso possivelmente pode ser alcançado com a suplementação de probióticos (aquelas bactérias que são capazes de habitar e se desenvolver no trato digestório) e com a adoção de algumas outras práticas importantes.

Esse é um assunto muito escasso de evidências na literatura científica, e pretendo abordá-lo com mais detalhes futuramente. Considere conversar com um nutricionista ou profissional de saúde qualificado para saber se a utilização de probióticos, além de um plano alimentar individualizado e específico para essa finalidade, deve ser adotada.


Considerações finais

Nunca subestime o potencial que a alimentação pode ter sobre as mais diversas condições patológicas. Vimos aqui, por meio de um caso real e prático, como uma dieta com redução de carboidratos pode ser extremamente benéfica num caso onde os medicamentos são, muitas vezes, pouco efetivos ou trazem inúmeros efeitos adversos.

E esse é mais um exemplo do poder da Nutrição.


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Posts da série:


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Referências

1. Kahrilas PJ. The role of hiatus hernia in GERD. Yale J Biol Med. 1999;72(2-3):101-11.

2. Gordon C, et al. The role of the hiatus hernia in gastro-oesophageal reflux disease. Aliment Pharmacol Ther. 2004;20(7):719-32.