terça-feira, 17 de março de 2015

O mito do pH: a alimentação é capaz de influenciar o pH sanguíneo? — Parte 1




A história de que a alimentação é capaz de alterar o pH sanguíneo talvez seja (depois do glúten?) um dos temas mais comentados na nutrição — talvez não tanto entre pacientes e público leigo, mas sim entre os profissionais da área.

A lógica funciona da seguinte forma. Primeiro, você ingere alimentos que potencialmente acidificam o pH sanguíneo, entre os quais estão incluídos carnes, peixes, frutos do mar, cereais, leite e derivados — ou seja, normalmente alimentos mais ricos em proteínas [1]. Com isso, o pH sanguíneo será reduzido a níveis em que as nossas células não conseguem “trabalhar” de forma adequada, resultando em funções corporais prejudicadas. Para contornar essa situação, o organismo tenta reduzir a acidez através da utilização de componentes endógenos capazes de “alcalinizar” o sangue, como o cálcio dos ossos. A acidificação do pH cronicamente levaria, portanto, à desmineralização óssea e, consequentemente, à osteoporose — entre outros possíveis malefícios.

Para constar, os alimentos que teoricamente tornam o pH do sangue mais alcalino (básico) são as frutas e as hortaliças, enquanto que as gorduras em geral normalmente representam um potencial “neutro” na regulação do pH sanguíneo [1].

A partir dessa lógica, surgiram as dietas “alcalinas” ou “alcalinizantes”, que prometem fazer milagres para a saúde e para a perda de peso. Entretanto, será que essa sequência de eventos mencionada acima de fato acontece? Poderia acontecer em algum caso? Acompanhe até o final, tópico por tópico — nesse e nos próximos posts —, a discussão desse tema para saber até que ponto o pH sanguíneo pode ser alterado pela alimentação.


Regulação do pH sanguíneo

Para aqueles que não se recordam muito bem, o pH é uma medida de acidez ou alcalinidade. Nosso pH sanguíneo normalmente se mantém na faixa de 7,35 a 7,45, ou seja, ele é levemente alcalino (básico). Qualquer valor abaixo de 7,0 é considerado ácido, enquanto que os valores acima disso são considerados básicos ou alcalinos; pH exatamente igual a 7,0 é considerado neutro. Fora do intervalo de 7,35 a 7,45, diversas enzimas e proteínas deixam de funcionar parcial ou completamente, o que pode levar virtualmente qualquer célula, tecido, órgão ou sistema a deixar de exercer adequadamente suas funções fisiológicas.

Por esse motivo, nosso corpo possui alguns sistemas para garantir que o pH sanguíneo sempre permaneça nesse intervalo ideal. Estes são denominados de sistemas tampão, cuja denominação reflete a capacidade de manutenção do pH sanguíneo em valores ideais — mesmo na presença de fatores que potencialmente reduziriam ou aumentariam de forma significativa o pH.

O primeiro desses sistemas é orquestrado pelo próprio sangue, com a hemoglobina presente nas hemácias (células vermelhas) e pelo bicarbonato (HCO3) circulante mantendo a homeostase do pH sanguíneo através da “neutralização” do gás carbônico (CO2). Somado a esse fator, temos também o papel do pulmão, o qual pode aumentar ou diminuir a excreção de CO2, através da respiração, de acordo com a necessidade de aumentar ou diminuir o pH sanguíneo. Em terceiro lugar, temos também a importante função dos rins, que participam diretamente da regulação do pH sanguíneo por excretar metabólitos ácidos e, também, através da produção e reabsorção de bicarbonato.

Esse último mecanismo de regulação pelos rins implica, em boa parte dos casos, na acidificação da urina — o que é intuitivo, já que se você está retirando elementos ácidos de um meio (o sangue), outro meio (a urina) naturalmente terá a tendência de acidificação. Entretanto, a simples constatação de que o pH da urina foi reduzido, ou acidificado, não quer dizer que necessariamente houve alteração no pH sanguíneo. É muito comum que as pessoas olhem para o pH da urina e falem ou achem que isso reflete o pH sanguíneo, o que não é verdade — pelo menos não na maioria dos casos. E é muito importante entender isso.


Acidose metabólica e Acidose respiratória

Algumas condições clínicas e patologias, como cetoacidose diabética, doença renal crônica, acidose lática, choque séptico, parada cardíaca etc., podem levar ao que chamamos de acidose metabólica [2]. Além disso, existe também a possibilidade de ocorrência de acidose respiratória, decorrente de complicações respiratórias como edemas pulmonares, doença pulmonar obstrutiva crônica, casos mais severos de asma, alterações nervosas que comprometem a função pulmonar etc [3]. Nesses quadros, a produção de metabólitos que acidificam o pH ultrapassa a capacidade de regulação do equilíbrio ácido-base pelos sistemas de tamponamento, comumente resultando numa redução real e significativa do pH sanguíneo.

Vale ressaltar: essas são complexas condições patológicas, não fisiológicas. Em indivíduos "normais", nos quais os sistemas tampão de regulação do pH sanguíneo estão funcionando de forma adequada, o pH sanguíneo a princípio não se modifica.


Alimentação x pH sanguíneo

Foi mencionado, acima, que o pH da urina pode ser facilmente modificado, justamente porque os rins exercem papel fundamental em não permitir que o pH sanguíneo saia daquele intervalo ideal de 7,35-7,45 [4,5].

Mas e o pH sanguíneo propriamente dito? Desconsiderando os quadros patológicos anteriormente citados, é possível alterar o pH do sangue? Mais especificamente: é possível modificá-lo através da alimentação?

Se fosse possível, gostaria muito de discutir esse assunto em um único texto. Porém, por ser um tópico extenso, além de relevante, foi necessário detalhá-lo bastante e, portanto, dividi-lo em três partes. Nos próximos posts, vamos ver de que maneira, a dieta pode (ou não) afetar o pH sanguíneo, e ainda quais as implicações — negativas ou positivas — que isso pode ter sobre a saúde humana.


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Posts da série:
  



Referências

1. Remer T, Manz F. Potential renal acid load of foods and its influence on urine pH. J Am Diet Assoc. 1995;95(7):791-7.

2. Adeva-Andany MM, et al. Sodium bicarbonate therapy in patients with metabolic acidosis. ScientificWorldJournal. 2014;2014:627673.

3. Epstein SK, Singh N. Respiratory acidosis. Respir Care. 2001;46(4):366-83.

4. Koeppen BM. The kidney and acid-base regulation. Adv Physiol Educ. 2009;33(4):275-81.

5. Bonjour JP. Nutritional disturbance in acid-base balance and osteoporosis: a hypothesis that disregards the essential homeostatic role of the kidney. Br J Nutr. 2013;110(7):1168-77.



35 comentários:

  1. Olá. Entendi que o pH do sangue não muda com a alimentação, mas já assisti um video de um médico e professor famoso falando que as células sofrem um desgaste para equilibrar o Ph ( justamente para não alterar ) e com isso sobrecarrega o sistema tampão do organismo... mediante a isso, é mito dizer que tal organismo é "ácido" mas, também não é mentira dizer que uma alimentação alcalina "polpa" o organismo de possíveis mecanismo homeostáticos, estou certo?

    Obrigado, Fernando Moreira

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    1. Olá, Fernando!

      É exatamente isso. A parte 3 dessa série sobre pH mostra que alimentos "acidificantes" não pioram o "desgaste celular", e que, na verdade, podem até atenuá-lo -- com o exemplo claro do efeito sobre a massa óssea.

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    2. Não, então não é exatamente isso. Eu disse o contrário!

      Consideremos refrigerantes e açucares como ácidos, e verduras, frutas e legumes sendo alcalinizantes ( incluindo o limão, que é ácido na boca, mas no organismo funciona sendo alcalinizante ) como isso seria pior que os acidificantes?

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    3. Fernando, se você quiser reformular a sua primeira pergunta, eu poderia respondê-la melhor (mas acho que você já fez isso com essa segunda pergunta).

      A primeira grande questão é que nenhum deles, “ácidos” ou “alcalinos”, afeta o pH sanguíneo. E vale ressaltar que estamos falando de alimentos comuns influenciando o pH sanguíneo. É possível alterar o pH sanguíneo? Sim, mas não com alimentos.

      A segunda questão é a seguinte: já foi demonstrado diversas vezes que alimentos "acidificantes", como carne e leite, não influenciam negativamente parâmetros de saúde que servem para avaliar se há "desgaste celular". E, como falei antes, o exemplo mais claro disso é o efeito de tais alimentos sobre a massa óssea. Além de não causarem prejuízos, tais alimentos podem até ser benéficos no exemplo da massa óssea. Porém, nesse caso não tem nada a ver com o fato de eles serem "acidificantes" ou "alcalinizantes", e sim com o fato de que eles são alimentos proteicos que levam ao aumento nos níveis de IGF-1, por exemplo.

      Ou seja, a característica "acidificante" desses alimentos poderia até ser percebida como um paradoxo. Mas não é, simplesmente porque não é essa característica específica desses alimentos que influenciam a massa óssea ou outros "desgastes", como massa muscular e câncer.

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  2. Prezado, concordo que temos o sistema de tampão.

    Agora o que você me diz quando:
    - Temos uma má alimentação, com agrotóxicos e venenos, carnes e leites em excesso.
    - Nossos rins não funcionam bem pois nos alimentamos mal
    - Não respiramos bem
    - Nosso fígado está com muitas toxinas.

    Nesse caso, nosso sangue vai sim se acidificar, nosso corpo fica vulnerável para doenças.

    A medicina nos dá tratamentos paliativos e evasivos, destruidores ( quimio, antibioticos etc ). Sendo que o segredo da cura está em uma dieta vegetariana e orgânica.

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    1. Prezado, concordo que temos o sistema de tampão.

      Agora o que você me diz quando:
      - Temos uma má alimentação, com agrotóxicos e venenos, carnes e leites em excesso.
      - Nossos rins não funcionam bem pois nos alimentamos mal
      - Não respiramos bem
      - Nosso fígado está com muitas toxinas.

      Nesse caso, nosso sangue vai sim se acidificar, nosso corpo fica vulnerável para doenças.

      A medicina nos dá tratamentos paliativos e evasivos, destruidores ( quimio, antibioticos etc ). Sendo que o segredo da cura está em uma dieta vegetariana e orgânica.

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    2. Prezado, concordo que temos o sistema de tampão.

      Agora o que você me diz quando:
      - Temos uma má alimentação, com agrotóxicos e venenos, carnes e leites em excesso.
      - Nossos rins não funcionam bem pois nos alimentamos mal
      - Não respiramos bem
      - Nosso fígado está com muitas toxinas.

      Nesse caso, nosso sangue vai sim se acidificar, nosso corpo fica vulnerável para doenças.

      A medicina nos dá tratamentos paliativos e evasivos, destruidores ( quimio, antibioticos etc ). Sendo que o segredo da cura está em uma dieta vegetariana e orgânica.

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    3. Olá.

      Mesmo que o sangue se acidifique a partir dessas causas (o que também nunca foi diretamente demonstrado; é possível hipotetizar, mas não afirmar), a alimentação ainda assim não vai ser capaz de alcalinizar o pH sanguíneo. O fato de agentes externos que vão além da alimentação conseguirem modificar o pH sanguíneo não muda em nada o fato de que os alimentos não são capazes de fazer isso.

      Não estou dizendo que a alimentação não pode contrapor os efeitos potencialmente negativos de agrotóxicos ou outras toxinas, mas qualquer benefício não vai ser decorrente de alterações no pH sanguíneo, mas sim de outros mecanismos.

      De forma semelhante, o fato de a cura estar em uma dieta vegetariana e orgânica também não muda em nada o fato de que a alimentação não modifica o pH sanguíneo. O que não faltam são mecanismos para explicar por que dietas vegetarianas podem exercer efeitos positivos, mas alterações no pH sanguíneo não é um desses mecanismos.

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    4. Joao, bom dia. Meu exame de sangue deu ph 6.0
      É grave? O que devo fazer?

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    5. Olá, Francisco.

      Tem certeza que foi o exame de sangue? Esse resultado de pH 6,0 não foi no seu exame de urina?

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  3. Entendi, bacana !!! Grato pela explicação, irei pesquisar mais sobre

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  4. Olá, joão, muito bom o texto! dizem que quando estamos com a cabeça descamando, língua branca, pés rachados podem significar corpo acido... realmente esse papo de sangue acido é muito estranho, se fosse como dizem, eu estaria no buraco há muito tempo rsrs pois quando eu era criança tomava refrigerante como água... mas certos sintomas podem ser devido a acidez dos alimentos por exemplo candida albicans (fungo) vive em ambiente acido ai devido a isso uma dieta acida pode mudar o ph a boca e causar candidíase? abraço!

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  5. Olá, joão, muito bom o texto! dizem que quando estamos com a cabeça descamando, língua branca, pés rachados podem significar corpo acido... realmente esse papo de sangue acido é muito estranho, se fosse como dizem, eu estaria no buraco há muito tempo rsrs pois quando eu era criança tomava refrigerante como água... mas certos sintomas podem ser devido a acidez dos alimentos por exemplo candida albicans (fungo) vive em ambiente acido ai devido a isso uma dieta acida pode mudar o ph a boca e causar candidíase? abraço!

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    1. Olá, Renan.

      Acredito que não seja possível descartar a possibilidade de que alguns problemas de saúde, como as próprias infecções por fungos, sejam facilitadas por ambientes ácidos. Apesar de o pH sanguíneo não se alterar pela alimentação, existe a possibilidade de isso acontecer com outros fluidos.

      Porém, as evidências que temos é que, do ponto de vista nutricional, o mais importante em infecções por fungos são os substratos que são fornecidos (ou não) e que podem favorecer o crescimento (ou não) desses micro-organismos. Por exemplo, um "excesso" de carboidratos, pelo menos em alguns casos (mas também dependendo de outros fatores), poderia facilitar a infecção por fungos.

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  6. Parabéns pelo texto. É um apanhado, muito bem escrito, de artigos com base em evidencias científicas. E está ao alcance de muitos.

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  7. Então posso beber tranquilo minha coca cola ????

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    1. Olá.

      Só porque não "acidificam" o sangue não quer dizer que refrigerantes deveriam ser consumidos à vontade. Acho que todos sabem quais são os potenciais prejuízos desses produtos.

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  8. Muito bacana os 3 artigos a respeito do PH Sanguíneo, foi realmente muito esclarecedor.

    Embora os alimentos não possuam características de aumentar ou diminuir significativamente o PH Sanguíneo, sabemos que alimentos industrializados, em geral, possuem inúmeras outras substâncias que podem trazer ao organismo uma série de consequências desastrosas para a vida do indivíduo, e por isso excluí de minha dieta os refrigerantes, dando preferência à agua e sucos naturais, e procuro evitar alimentos industrializados, muito embora sejamos escravos de uma boa parte deles. Mas sempre que possível, dou preferência a alimentos naturais, orgânicos e de procedência. Percebi que assim, minha vida ficou mais suave, minha imunidade aumentou, minha energia aumentou, e minha capacidade cerebral e laboral aumentaram igualmente.
    Pode ser só alimentação?!?! Não sei, falo apenas por mim, só sei que pra mim mudou muito.

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    1. Olá, Anderson.

      Assino embaixo no que você falou. Não é porque a alimentação não é capaz de influenciar o pH sanguíneo que alguns produtos "acidificantes", como os refrigerantes e outros processados, não devem ser evitados. Muito pelo contrário: quanto menos esses produtos processados forem consumidos, melhor será a saúde da população.

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  9. Boa noite João, estou marcado com um médico cardiologista e nutrólogo para fazer um check up de rotina e ver algumas coisas que poderia ser suplementada para melhorar meu rendimento no treino
    O "problema" é que ele segue uma linha meio duvidosa e entrando no site dele e investigando mais profundamente eu vi que ele já se posicionou a favor de água alcalina, o que ao meu ver parece ser jogada de marketing. Ele usou algumas bibliografias, posso posta-las aqui e você vê se por elas dá pra afirmar que a água alcalina é boa? os principais beneficio que ele cita é para a saúde óssea, cardiovascular e afirma que AVC é reduzido com essa água...


    1 – Diet Acids and Alkalis Influence Calcium Retention in Bone – T. Buclin; M. Cosma; J. Biollaz Osteoporosis Internacional Journal. June 2001, Vol 12, pp 493-499

    2 – Alkaline mineral water lowers boné resorption even in calcium sufficiency – E. Wynn; P. Burckhardt – Bone Journal. January 2009, Vol 44, pp 120-124

    3 – Oral magnesium supplementation improves vascular function in elderly diabetic patients – M. Barbagallo, J. Dominguez, A. Galioto, A. Pineo, M. Belvedere. Magnesium Research 2010; 23 (3): 131-7

    4 – Magnesium Metabolism in Hypertension and Type 2 Diabetes Mellitus – M. Barbagallo; J. Domingues; R. Lawrence American Journal of Therapeutics. August 2007 – Volume 14 – pp 375-385

    5 – Dietary magnesium intake and risk of stroke: a meta-analysis of prospective studies – S. Larsson; N. Orsini and A. Wolk. Am J Clin Nutr February 2012 vol. 95 no. 2 362-366

    6 – Comparison of the Mineral Content of Tap Water and Bottled Waters – A. Azoulay; P. Garzon; J. Eisenberg – Journal of General Internal Medicine 2001 Volume 16, Issue 3, pages 168–175.

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    1. Deixa eu explicar, na verdade o texto dele é sobre água alcalina magnesiana. E não pH X ou Y
      O enfoque dele é a água rica em magnésio igual as que aquele Alair Roubeiro recomenda

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    2. Olá.

      Dessas referências que você postou, a única que poderia indicar um efeito positivo da água alcalina sobre a saúde óssea (mas nenhum outro parâmetro) é essa:

      "Alkaline mineral water lowers boné resorption even in calcium sufficiency".

      É um estudo interessante, mas que tem limitações importantes:

      1) Não foi um ensaio clínico cego ou duplo-cego. Ou seja, tanto os pesquisadores como os participantes sabiam as águas que foram oferecidas a cada grupo experimental. Isso pode influenciar, de maneira indesejada, os resultados do estudo de várias formas.

      2) O principal marcador avaliado no estudo, o CTX, é um bom parâmetro para avaliar reabsorção óssea. Mas não passa disso: apenas um marcador. Mesmo se um ou mais estudos mostram que a água X causa um impacto aparentemente benéfico nesse marcador, isso não necessariamente significa que desfechos mais diretos, como densidade mineral óssea ou fraturas, vão ser positivamente afetados. É possível que sim, mas não tem como garantir.

      3) Apesar do resumo do artigo afirmar que houve uma redução no CTX para o grupo que consumiu a água alcalina, esse é um resultado (no mínimo) contestável. Os pesquisadores avaliaram a alteração no CTX de 3 formas diferentes, e só em uma delas foi detectada uma redução estatisticamente significativa. Isso parece um clássico exemplo de quando os pesquisadores vão mexendo na forma de analisar os dados para chegar aos resultados esperados. Apesar disso, mesmo com essa redução estatisticamente significativa em uma das formas de se avaliar o CTX, essa mudança não foi -- nem de perto -- CLINICAMENTE significativa.

      Resumindo: nem mesmo o único estudo que poderia dar suporte à ideia de um efeito positivo da água alcalina, e apenas para a questão da saúde óssea, não se sai bem nesse sentido. Junto a isso, temos as evidências que apresentei na parte 3 dessa série sobre pH mostrando que dietas "ácidas", ricas em proteínas, não levam ao maior risco de fratura ou à perda óssea -- na verdade, mostram até uma tendência de aumento na densidade mineral óssea em alguns estudos.

      Em relação ao magnésio, existem muitas evidências mostrando uma associação inversa entre a ingestão desse nutriente e o risco cardiovascular: maior consumo, menor probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares -- incluindo infarto e derrame (AVC), as mais estudadas nesse sentido. Mas essas são evidências de estudos observacionais, e por isso não necessariamente significam causa e efeito. Então não é possível afirmar que o magnésio vai prevenir ou tratar alguma coisa. Apesar disso, até mesmo a suplementação com doses elevadas de magnésio é segura. Sendo possivelmente benéfica, não tem nada de errado em se aumentar a ingestão ou fazer uma suplementação -- só não tem como garantir que um benefício cardiovascular vai existir.

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  10. Boa tarde.
    O problema é que com o passar da idade, a produção endógena de bicarbonato diminui, e com isso o mecanismo fisiológico de tampão fica comprometido. Todas as vezes que ingerimos minerais alcalinizantes como o magnésio é benéfico principalmente depois de uma certa idade, seja pelas suas propriedades preventivas de doenças relacionadas com a idade ( que o magnésio tem mais que comprovadas ) seja no processo de alcalinização dos fluidos corporais.

    http://www.vivalis.si/uploads/datoteke/1a96.pdf

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    1. Sei que isso não influencia em nada na ciência, mas esta autora Linda Franssetto, esteve num módulo da pós do Lair Ribeiro, em São Paulo onde eu assisti aula e ela foi enfática. Disse que todas as vezes que ocorre uma pequena mudança no pH intersticial, a oferta de oxigênio reduz drasticamente. Então não é que a dieta alcalina alcaliniza o sangue. Mas no processo de produção de ácido clorídrico, pela célula parietal, você lança mais íons bicarbonato, que vai pro sangue e imediatamente vai pro tecido, onde terá ação alcalizante tecidual e não sanguínea ( onde foi o foco deste post )
      Boa tarde e obrigada pelos materiais que disponibiliza!

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    2. João Gabriel, não sei porque não estou conseguindo anexar os artigos. Irei manda-los por link.


      1 - http://oup.silverchair-cdn.com/oup/backfile/Content_public/Journal/biomedgerontology/51A/1/10.1093/gerona/51A.1.B91/2/51A-1-B91.pdf?Expires=1486128487&Signature=MgM5Wr9mJAcMqkoaOyoATAlx0Je42p4GJRESSW12ArZyplX2cYFZgcR~FkxMYO4vSasuDWonfC17VxlMCWJ19SbQZoSVH9NnmQ4MEp9ryw-U6pb8NLvQAYU8G1KQL-ErUV7~Dero~ksAMy6NPp19ktknSOznkzSAse5hvf7mnF-qu1QK1nW14tMugaC~gbe3rkYWBThnduZ3NsCiu5klIINx8vcqf7R8N5vgipvUO58S~kjS5qei1tz9on7~pI2ryJEIDOjkFjfjF2WOO95BHtKN8zDiDXnHZzZxUPER8gWqQcw2hs4K51HvX~ex0IOwLte3W~gBZc0z783oihrgkw__&Key-Pair-Id=APKAIUCZBIA4LVPAVW3Q


      2- http://www.vivalis.si/uploads/datoteke/1a96.pdf

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    3. Olá.

      A Lynda Frassetto tem uma opinião interessante sobre esse assunto, apesar de não ser o único foco de trabalho dela como pesquisadora.

      Mas eu sinceramente não concordo com a base da hipótese que ela propõe. Porque, se a hipótese estivesse correta, seria praticamente impossível que dietas que causam "acidificação", como dietas ricas em proteínas, levassem ao aumento na densidade mineral óssea de pessoas mais velhas.

      Como mencionei na parte 3 dessa série de posts sobre pH, esse aumento da densidade mineral óssea com dietas “acidificantes” é um fenômeno que já foi observado em ensaios clínicos. E, mesmo não sendo verificado em todos, o máximo de "ruim" que acontece é uma manutenção da massa óssea.

      Até que existam evidências mais concretas de que dietas "alcalinizantes" poderiam melhorar desfechos concretos relacionados a pH sanguíneo ou pH de outros fluidos corporais, não tem como realmente levar a sério essa hipótese. Não que ela não possa estar correta, mas as evidências mais diretas não apontam nesse sentido.

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    4. Oi, João.

      Uma dieta com boa oferta proteica é fundamental para a formação e manutenção da saúde óssea.
      Como mencionei, meu contato com ela foi apenas por 2 dias, não conheço o trabalho da Lynda profundamente, mas pelo que aprendi com ela, o foco não seria reduzir a proteína e sim aumentar a ingesta de frutas e vegetais como um todo nesta dieta.
      Ela inclusive afirmou que ao comer um bife de 100g por exemplo, deveríamos ingerir vegetais crus antes e após a ingesta desse bife. É uma opinião dela, é evidente que não podemos tornar isso verdade absoluta porque uma pesquisadora disse, mas ela afirma que a ingesta cru auxilia inclusive na própria digestão desse bife.

      Aprendi muito e achei tudo isso muito válido, só afirmo que ela não recrimina proteína, apenas acha que a "western diet" é altamente rica em carboidratos, e o consumo de proteína mesmo sendo ideal para a maior parte das pessoas, a carência de vegetais é a verdadeira causa deste desbalanço digamos "metabólico"

      Obrigada por sua opinião!



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    5. Sim, imagino que ela e boa parte das pessoas que defendem dietas "alcalinizantes" não são contra a ingestão de quantidades moderadas ou razoáveis de proteínas.

      Só mencionei essa questão porque ela ilustra o cenário oposto: o que acontece com a saúde de pessoas que consomem dietas "acidificantes". Porque, se não temos estudos avaliando o efeito de dietas "alcalinizantes" em desfechos de interesse, como densidade mineral óssea, podemos pelo menos olhar para o outro lado da moeda.

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  11. Boa tarde João.

    Irei postar aqui alguns trechos e gostaria que você contestasse, já que pelo post a dieta não influencia o pH em nenhuma instancia.



    " Discussão
    O objetivo principal deste estudo foi investigar a associação de ácido dietético com acidose metabólica na população em geral e examinar a possibilidade de modificação do efeito pela idade desta associação. Descobrimos que uma maior carga de ácido na dieta, que foi medida pelo NEAP, foi associada com bicarbonato sérico menor e uma maior probabilidade de acidose em uma amostra nacionalmente representativa de americanos. Além disso, a magnitude dessas associações foi maior nos participantes de meia-idade e idosos do que nos participantes mais jovens. Este resultado sugere que os efeitos deletérios do ácido dietético podem ser mais proeminentes entre os indivíduos mais velhos.

    Estudos fisiológicos anteriores em adultos normais mostraram que as diferenças no ácido dietético afetam o pH extracelular e o bicarbonato sérico (8,11). Apesar dessas variações na dieta, a excreção ácida renal mantém a homeostase ácido-base em pessoas normais, mas essa capacidade diminui com a idade (25). Nossos resultados estendem estes achados para indicar que o ácido dietético desempenha um papel na determinação do status ácido-base em um nível de toda a população e que esse efeito é mais pronunciado entre os idosos."


    " ...O ácido dietético final seria associado com ácido-base estado na população em geral e que este efeito seria maior em mais velhos que jovens. Testamos estas hipóteses em adultos com idade igual ou superior a 20 anos com dados sobre bicarbonato sérico e ingestão dietética no National Health and Nutrition Examination Survey "


    Os níveis séricos de bicarbonato entre os 20-29 anos não diferiram segundo o nível de ácido na dieta. Esta descoberta sugere que adultos jovens lidam com grandes cargas de ácido dentro do intervalo de ingestão alimentar habitual sem perturbação do estado ácido-base. Nossos dados indicam que essa capacidade já começa a diminuir na quarta década de vida, o que é consistente com relatos anteriores (25,30). Deve notar-se, no entanto, que a retenção de ácido pode ocorrer mesmo sem perturbação aparente do bicarbonato de soro ou pH extracelular. Um estudo de pacientes com eGFR moderadamente reduzido e bicarbonato sérico normal descobriu que alterações na excreção de ácido urinário líquido podem ser observadas mesmo sem uma alteração nos parâmetros ácido-base do sangue (32). Portanto, o ácido dietético alto poderia produzir as seqüelas de uma acidose subclínica nesses adultos jovens, mesmo sem diferenças observáveis nos parâmetros ácido-base do plasma.

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    1. Bibliografia:


      https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3848400/

      https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3861444/

      https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3571898/

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  12. Olá.

    Vou focar nas referências mais relevantes. Primeiros as referências 8 e 11.

    A referência 8 é de um estudo com suplementação de bicarbonato, então não entra na nossa discussão. Essa série de textos que escrevi é sobre a influência de alimentos e da alimentação sobre o pH sanguíneo, e não sobre a suplementação específica de componentes que, como o bicarbonato, podem sim influenciar o pH sanguíneo enquanto forem ingeridos. Se não me engano, em algum lugar dos textos eu até menciono a influência do bicarbonato.

    A referência 11 é de um estudo que, diferentemente do que o artigo que citou ela fala, NÃO MOSTROU influência das dietas testadas sobre o pH sanguíneo. A inferência que os autores que escreveram esse artigo (traduzido e colado por você em seu comentário) fizeram, para afirmar o que afirmaram, foi uma bela forçada de barra. É por isso que não podemos nos basear apenas em estudos de revisão; temos que ir direto na fonte -- nos estudos originais.

    Agora as referências 25 e 30.

    Elas mostram coisas semelhantes: pessoas mais velhas possuem um menor potencial de excreção ácida. Minha primeira observação é que, mesmo esses estudos mostrando isso, não necessariamente quer dizer que são resultados consistentes com outros trabalhos. Infelizmente não tenho tempo nesse momento de fazer uma busca um pouco mais profunda nas bases de dados para procurar outros estudos, que podem ou não estar de acordo essas referências citadas. Mas, quando esse tipo de verificação mais minuciosa não é feita, não tem como ter certeza sobre o que a literatura científica realmente mostra. Porque vieses na busca e na seleção de referências é uma prática muito comum, até mesmo entre pesquisadores.

    Mas vamos considerar que essa menor capacidade de excreção ácida é realmente uma verdade para a população mais velha. A partir disso, precisam existir estudos avaliando e confirmando a hipótese de que intervenções dietéticas, com o intuito de aumentar a excreção ácida do organismo, seriam capazes de influenciar algum desfecho de saúde -- como densidade óssea ou alguma doença. Como mencionei no terceiro texto dessa série, a maior carga ácida de dietas ricas em proteínas não prejudica a saúde óssea, e pode até melhorá-la. Para outras condições clínicas ou patológicas, desconheço a existência de estudos. Enquanto não houver tais estudos, não é possível afirmar que intervenções nutricionais que supostamente levam a uma maior excreção ácida na população mais velha poderiam influenciar desfechos de saúde relevantes.

    E lembre-se de uma coisa: o problema é que (virtualmente) não existem trabalhos avaliando os efeitos de dietas “alcalinizantes” sobre o desfechos relevantes de saúde (independentemente do que essas dietas fazem com pH sanguíneo). Enquanto esses estudos não existirem, não podemos afirmar nada. É possível que alguns tipos de dietas ou alimentos “alcalinizantes” afetem diretamente a saúde (mesmo sem mexer no pH sanguíneo)? Sim, claro. Mas, enquanto essa hipótese não for devidamente testada, não podemos responder com mais precisão.

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  13. Boa tarde

    Não entendo porque insistem em dizer que Lair Ribeiro é charlatão e propaga dieta alcalina pra ganhar dinheiro...

    Os estudos, embora fracos por falta de interesse em metodologia adequada, sempre mostram benefício.. não entendo porque ao invés de criar post sobre refrigerantes, pães e doces, criticam água alcalina..


    https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20579398

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    1. Olá.

      Esse é um estudo interessante. Mas ele inclui duas intervenções: magnésio e bicarbonato. Por isso, não tem como saber de onde vem os possíveis efeitos benéficos observados.

      E eu ressalto isso porque, se for do magnésio (e tem grande chance de ser, considerando outros estudos com esse mineral), pode não ter nada a ver com modulação de pH sanguíneo ou pH de outros fluidos corporais.

      Isso significa que, por mais interessante que o estudo seja, ele não é suficiente para afirmar que a água alcalina poderia trazer benefícios. E mesmo que mostrasse, ainda seriam resultados bem preliminares. Precisamos de estudos de longo prazo; estudos que medem desfechos importantes, como densidade mineral óssea ou fraturas, em vez de desfechos "indiretos", como os marcadores aferidos no estudo.

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