segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Pior que o glúten, só a lactose?!





Cada vez mais somos bombardeados com informações sobre alimentação e nutrição. Infelizmente muitas delas são ilusórias, incompletas ou incorretas. Por isso, alguns questionamentos importantes precisam ser levantados.

Hoje em dia é extremamente comum vermos, principalmente nas redes sociais, pessoas falando e postando fotos sobre receitas sem glúten e sem lactose. Algumas outras receitas, como as sem açúcar ou com whey protein, também são divulgadas, mas talvez com frequência menor que aquelas que não contêm glúten ou lactose.

Em relação ao tema glúten, alguns posts do blog já apresentaram informações e discussões a respeito. Para quem ainda não leu, pode conferir o que já conversamos clicando aqui, aqui e aqui.

Apesar de não haver evidências científicas para algumas alegações acerca dos malefícios causados pelo glúten (como aumento na permeabilidade intestinal), o consumo dessa proteína de fato está associado a diversos problemas mais sérios, como diabetes tipo 1, depressão, ataxia, autismo, fibromialgia, tireoidite de Hashimoto etc. (Possivelmente discutiremos sobre possíveis mecanismos relacionados a essas doenças num texto futuro).

Fora essas complicações, a ingestão de glúten também pode levar ao desencadeamento de sintomas — como dor abdominal, dores musculares e articulares, fadiga, dor de cabeça etc — em indivíduos que apresentam sensibilidade a essa proteína, condição denominada sensibilidade ao glúten não-celíaca [1,2].

Ok, o glúten de fato pode ser um problema.

Mas e a lactose... Qual é o problema de ter lactose numa receita ou preparação? Qual o problema em consumi-la?

A não ser que você tenha intolerância à lactose — aquela condição em que seu corpo não produz quantidade suficiente de lactase, a enzima responsável por digerir a lactose (principal carboidrato presente no leite) —, a resposta para as perguntas anteriores é nenhum problema.

E mesmo que a pessoa tenha intolerância à lactose, o consumo de leite e derivados a princípio não apresenta qualquer malefício direto sobre a saúde em geral, mas sim no que diz respeito a alguns sintomas digestivos. A partir do momento em que o indivíduo não produz lactase suficiente para digerir a lactose, esse carboidrato pode ser fermentado ou produzir um efeito osmótico no intestino, comumente levando à produção de gases ou diarreia, respectivamente.

Vale ressaltar que alergia ou outras reações ao leite e seus derivados são desencadeadas a partir do consumo das proteínas presentes nesses alimentos, e não pela ingestão da lactose.

Adicionalmente, é importante destacar que existe uma válida preocupação acerca da quantidade de hormônios presente no leite, como o IGF-1 e os estrógenos (“hormônios femininos”). Entretanto, já adianto que, a partir das evidências que temos na literatura científica, o IGF-1 não parece ser problema, enquanto que os estrógenos são uma incógnita. Para entender um pouco melhor, recomendo a leitura de dois textos escritos por mim para a GENES Consultoria Nutricional, ambos com diversas referências sobre o tema: "Leite: mocinho ou vilão - Parte 1" e "Leite: mocinho ou vilão - Parte 2".

Em todo caso, a lactose não pode ser “culpada” por nada disso. Não que ela tenha algo de especial, porque não tem — é um carboidrato como diversos outros —, mas a lactose certamente não é o problema! Na maioria dos casos, não tem por que ficar ressaltando “sem lactose”... Simplesmente não faz sentido algum.

Então, da próxima vez que alguém disser que fez uma preparação sem lactose, pergunte: “Por que mesmo?”.


***
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Referências

1. Lundin KE, Alaedini A. Non-celiac gluten sensitivity. Gastrointest Endosc Clin N Am. 2012;22(4):723-34.

2. Catassi C, et al. Non-Celiac Gluten sensitivity: the new frontier of gluten related disorders. Nutrients. 2013;5(10):3839-53.



11 comentários:

  1. Sou obrigada a tomar leite pq?
    não o quero, esse alimento não me pertence

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    1. Olá.

      Ninguém é obrigado a tomar leite. O que não podemos fazer é continuar falando que o problema desse alimento é lactose.

      Se a pessoa tem intolerância, tudo bem; nesse caso, a lactose pode sim ser um problema. Para as outras pessoas que não apresentam reação adversa a esse carboidrato, de forma alguma é possível dizer que a lactose faz mal.

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    2. E SOBRE A DIABETES ME RESPONDA QUAL O BENEFICIO DO LEITE PARA QUEM TEM PROBLEMAS COM A GLICOSE ELEVADA . OBRIGADA

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    3. Olá, Léia.

      Podemos dizer que os laticínios são alimentos "neutros" para pessoas com diabetes. O mais importante para os diabéticos é o emagrecimento.

      Se o emagrecimento ocorrer por meio de uma dieta restrita em carboidratos (low-carb) e rica em proteínas, os resultados costumam ser ainda melhores. A redução nos níveis de glicose acontece principalmente como consequência da melhora do quadro metabólico e do emagrecimento do paciente.

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  2. Olá João Gabriel, adoro seu blog você é muito atencioso e claro em suas respostas.
    Me tire uma dúvida, meu filho não gosta de leite e não toma de jeito nenhum, ele não tem alergia, simplesmente não gosta, isso será um problema no futuro acarretando em deficiência de cálcio?

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    1. Olá!

      Ele provavelmente não terá problemas com deficiência de cálcio se não consumir leite e derivados, principalmente se tiver bons níveis de vitamina D. No caso da vitamina D, pode ser por suplementação, como muitas pessoas fazer; no entanto, eu diria que a melhor forma seria a exposição solar (que traz vários outros benefícios), com 10 a 15 minutos por dia, por exemplo.

      E você falou sobre o leite, mas não sobre os derivados. Mesmo que o cálcio não seja o foco, outros laticínios, como iogurtes e queijos, são ótimas fontes de outros nutrientes, como vitamina B2 e vitamina B12. Por isso podem ser alternativas ao leite.

      Se ele também não consumir derivados, e caso queira garantir que o consumo de cálcio não seja baixo, você pode procurar por outros alimentos que são boas fontes de cálcio. Vegetais verde-escuros (couve, espinafre, brcólis etc) são boas alternativas, assim como gergelim e chia. Amêndoas e linhaça também são opções razoáveis.

      Mas existem outras. Usando sites como o Cronometer ou o MyFitnessPal você pode conferir a quantidade de cálcio em porções específicas dos alimentos que tiver interesse:


      https://cronometer.com/

      https://www.myfitnesspal.com.br/


      E uma coisa importante de se ter em mente: os valores recomendados de ingestão de cálcio são "exagerados". As evidências utilizadas para determinar esses valores são, no mínimo, questionáveis. Não vou entrar em detalhes por ser um assunto relativamente complexo, mas o embasamento científico que foi utilizado para construir essas recomendações não foi o melhor para que fosse possível determinar o que os seres humanos realmente precisam ingerir de cálcio.

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  3. Muito obrigada Joao, vou fazer isso, beijos!

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  4. Olá, João!
    Desde que verifiquei que tenho intolerância a lactose parei de tomar leite, porém os seus derivados, como iogurte e queijo, costumo consumir. No entanto, qdo a ingesta é de algo líquido tenho que fazer utilização de enzimas lactase, pois meu nível de intolerância é alto. Esse consumo de enzima causaria algum problema a médio/longo prazo? Posso consumi-la mais de uma vez por dia? Grata!

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    1. Olá!

      Pode ficar tranquila. O uso frequente ou prolongado da enzima lactase a princípio não vai levar a nenhum problema. Ou seja, você pode sim fazer a ingestão mais de uma vez por dia.

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  5. Olá, pesquisei e vi que tem calcio nas verduras, porém a absorção é muito baixa...uma deficiência em cálcio poderia afetar o sistema imunológico e predispor a depressão ?

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    1. Olá, Eugenio.

      A quantidade absoluta de cálcio nos vegetais é menor do que nos laticínios, mas o percentual de absorção é, no geral, maior. Isso não quer dizer que o total de cálcio absorvido dos vegetais é maior, mas em alguns casos são quantidades que não podem ser desprezadas.

      Praticamente todos os nutrientes podem afetar o sistema imunológico, até porque nossos sistemas são todos integrados. Mas o cálcio não é considerado como um nutriente primário para a regulação do sistema imune. Mesmo que fosse, o sistema imunológico provavelmente demoraria para sofrer com a deficiência de cálcio (a não ser que houvesse interferência no metabolismos de outros nutrientes, como vitamina D); o corpo provavelmente iria direcionar a maior parte do cálcio disponível para os lugares mais importantes, e o sistema imune teria grande chance de estar entre eles.

      Nessa história toda, uma predisposição a depressão a partir de problemas no sistema imunológico, devido a uma deficiência de cálcio, parece bastante improvável. Até onde sei, os pontos centrais da patogênese da depressão não passam diretamente por uma relação com o sistema imune. Se você tiver alguma informação que aponte o contrário, pode compartilhar por aqui.

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