segunda-feira, 10 de março de 2014

Calorias: ganho de peso numa dieta 'low-fat' de 4600 kcal




No post anterior dessa série, vimos os resultados do primeiro período do auto-experimento que realizei, referente à dieta rica em gorduras e com redução de carboidratos (low-carb/high-fat). Ao final de 21 dias com essa dieta, mesmo com um consumo médio de 4600 kcal por dia (ou seja, uma dieta hipercalórica para mim), perdi 1,8 kg (71,0 kg para 69,2 kg), 3,5 cm de circunferência da cintura (74,0 cm para 70,5 cm) e ainda 3,0 cm de circunferência abdominal (76,0 cm para 73,0 cm). Os demais detalhes, como as dificuldades que enfrentei durante esse período, assim como as possíveis ou prováveis explicações para esses resultados aparentemente “contraditórios”, podem ser lidos aqui.


Período 2: Dieta rica em carboidratos e pobre em gordura (low-fat/high-carb)

Após o término do período 1 desse auto-experimento, voltei à minha dieta habitual para que meu peso e demais características voltassem, para o início do período 2, a valores semelhantes aos observados no início do experimento. Isso facilita a comparação entre as dietas e diminui possíveis vieses. Durante esse período de “wash-out”, meu consumo de carboidratos aumentou também para que os estoques de glicogênio no fígado e nos músculos pudessem estar repletos, ou seja, para que qualquer ganho de peso que eu apresentasse durante essa segunda dieta não fosse devido ao aumento no conteúdo de glicogênio nos músculos ou fígado.

A seguir seguem meus dados iniciais e o detalhamento da dieta hipercalórica rica em carboidratos e restrita em gordura (low-fat/high-carb) que consumi durante o segundo período de 21 dias do experimento.

- Idade: 23 anos
- Altura: 1,78 m
- Peso: 71,2 kg
- Circunferência da cintura: 74 cm
- Circunferência abdominal: 76 cm
- Atividade física: musculação 3x/semana
- Gasto energético: 2600 kcal

Café da manhã
- Tapioca (300 g) + Manteiga (20 g) + Queijo cottage (100 g)
- Laranja (150 g)
- Suco de uva integral (200 mL)

Lanche da manhã
- Leite semidesnatado (500 mL) + banana (550 g) + cacau em pó (30 g)

Almoço
- Batata inglesa (250 g)
- Batata doce (250 g)
- Peito de frango (100 g)
- Tomate (150 g)
- Chocolate amargo 70% cacau (20 g)

Lanche da tarde
- Leite semidesnatado (500 mL) + banana (550 g) + cacau em pó (30 g)

Jantar
- Arroz branco (250 g)
- Batata doce (250 g)
- Peito de frango (100 g)
- Agrião (80 g)
- Chocolate amargo 70% cacau (20 g)

TOTAL: 4580 kcal
- Carboidratos: 820,9 g (72% das calorias)
- Proteínas: 147,1 g (13% das calorias)
- Gorduras: 78,3 g (15% das calorias)


Relatos sobre o seguimento da dieta

O consumo dessa dieta por 21 dias foi ainda mais difícil, no geral, do que da dieta rica em gorduras do primeiro período do experimento. Isso se deveu principalmente pela menor densidade energética dos carboidratos quando comparados às gorduras. A densidade energética se refere à quantidade de calorias que os alimentos possuem numa determinada porção; por apresentarem 4 kcal por grama, alimentos ricos em carboidratos naturalmente possuem menor densidade energética do que alimentos ricos em gordura (já que a gordura possui 9 kcal por grama). Ou seja, para consumir a mesma quantidade de calorias, normalmente é necessária uma quantidade maior de alimentos ricos em carboidratos do que alimentos ricos em gordura — o que resulta num volume de alimentos consideravelmente superior. Por esse motivo, me senti constantemente cheio ao final de todas as refeições.

No entanto, como “vantagem”, a digestão de carboidratos tende a ser mais rápida que a dos demais macronutrientes (proteínas e gorduras). Isso me permitia consumir o café da manhã, por exemplo, e não me sentir tão cheio para consumir o lanche seguinte — diferentemente do que ocorreu com a dieta anterior, quando estava sempre com uma extrema sensação de plenitude.

Diferentemente do que ocorreu na dieta anterior rica em gorduras, eu não apresentei aumento na minha sensação de calor. Há evidências de que o aumento no consumo de calorias, por si só, é capaz de aumentar a termogênese [1]. Porém, por não apresentar aumento na sensação de calor como na dieta anterior, é possível que o aumento no meu gasto energético induzido por termogênese não tenha sido tão acentuado nessa dieta como na anterior, o que ajudaria a explicar os resultados obtidos nessa fase do experimento.


Resultados

O que aconteceu com meu peso, circunferência da cintura e circunferência abdominal durante cada uma das semanas:

Figura 1. Peso, circunferência da cintura e circunferência abdominal no início e durante os 21 dias da segunda fase do experimento.
[Clique na imagem para visualizá-la em tamanho real]


Em imagens:

Figura 2. Evolução em imagens da composição corporal durante os 21 dias da segunda fase do experimento.
[Clique na imagem para visualizá-la em tamanho real]


Como pode ser observado pelos dados na tabela, mas não muito bem pelas imagens — até porque as alterações não foram grandes —, eu ganhei peso e aumentei as circunferências abdominal e da cintura.

Esses resultados de ganho de peso e aumento das circunferências eram o esperado, já que me submeti a uma dieta com 2000 kcal a mais do que eu teoricamente preciso. Mas eu ganhei “apenas” 1,9 kg ao final dos 21 dias, valor muito inferior ao previsto, que seria entre 4,7 e 5,5 kg.

Por que o ganho foi inferior ao previsto? Existem algumas possíveis explicações:

1) Aumento no gasto energético pelo aumento no consumo de calorias [1]. O simples fato de aumentarmos o consumo energético induz o corpo a aumentar o seu próprio gasto energético. Por diversos mecanismos, os quais possivelmente receberão maior atenção em posts futuros, o corpo “economiza” menos (ou “desperdiça” mais) energia quando há maior oferta de calorias. Assim, o cálculo teórico da quantidade de calorias presentes nos alimentos que eu consumi durante esse período acabou sendo subestimado por essa adaptação natural do meu organismo.

2) O ganho de peso não é linear se o consumo de calorias mantém-se o mesmo ao longo de determinado período. Para cada grama de peso que aumentamos, nosso gasto energético também aumenta um pouco. Por exemplo: após a primeira semana, quando meu peso aumentou 0,5 kg, o mais correto a fazer seria reajustar o cálculo do meu gasto energético porque meu peso foi alterado; isso porque quanto mais você pesa, sempre maior será seu gasto energético. Portanto, o aumento gradual do meu peso durante esses 21 dias contribuiu minimamente para que o meu gasto energético aumentasse. Assim, meu consumo de calorias também aumentou — diminuindo, mesmo que minimamente, o impacto do consumo das 4600 kcal diárias sobre o meu ganho de peso.

3) O cálculo simplista das calorias nunca será capaz de prever tão bem o ganho ou a perda de peso nos indivíduos, como demonstra brilhantemente um artigo recentemente publicado na revista International Journal of Obesity [2]. Nosso corpo é muito complexo para que apenas o conhecimento das calorias dos alimentos seja suficiente para prever ou saber de forma minimamente precisa o que o organismo fará com essa energia. Sabemos que o corpo utilizará boa parte dos macronutrientes ingeridos para produzir energia. Isso é fato. Mas será que, por exemplo, as calorias de uma mesma porção de alimentos serão processadas da mesma forma por um indivíduo obeso e um indivíduo mais magro? E por um homem e uma mulher? E por alguém com uma doença neurológica e outra pessoa livre de doenças? Não sabemos, e é bem provável que a resposta seja ‘não’ para todas essas perguntas... Voltando para o contexto do experimento, é possível que essa questão de individualidade tenha sido a principal responsável por “minimizar” o meu ganho de peso. Se fosse com outra pessoa, é bastante plausível que o ganho de peso fosse diferente (possivelmente superior) ao que eu apresentei.

4) A qualidade nutricional dos alimentos consumidos. Já existem algumas evidências científicas hoje sugerindo que as calorias, dependendo da qualidade nutricional dos alimentos dos quais você as obtêm, não são todas iguais. Por exemplo, consumir 200 kcal de frutas não seria a mesma coisa que ingerir as mesmas 200 kcal de um bolo que contém farinha de trigo refinada, açúcar e gordura vegetal hidrogenada. As frutas são ricas em nutrientes (vitaminas, minerais e fibras) essenciais a diversos processos fisiológicos, auxiliando na manutenção do funcionamento ideal do nosso corpo; além disso, são ricas em outros compostos que podem ser antioxidantes ou anti-inflamatórios, por exemplo — e que, assim, podem contribuir na prevenção de desequilíbrios metabólicos e algumas doenças. Ao contrário da farinha de trigo refinada, do açúcar e da gordura vegetal hidrogenada, que são produtos tão manipulados e processados (antes de chegarem às nossas mesas) que perdem a maior parte de seus nutrientes e potenciais benefícios.

Importante: jamais faça alterações radicais assim na sua alimentação sem o acompanhamento de um profissional de saúde verdadeiramente qualificado!


A seguir...

Até o momento vimos que diversos estudos já foram capazes de demonstrar, de maneira geral, uma considerável superioridade das dietas com redução de carboidratos para a perda de peso, e que uma dieta low-carb pode induzir perda de peso (e de gordura corporal) mesmo quando o consumo energético é elevado. Mas isso não quer dizer que todas as pessoas responderão bem a uma dieta com redução na quantidade de carboidratos, ou que ela é a ideal para a perda de peso em todos os casos. As necessidades individuais de cada pessoa devem sempre ser respeitadas, e existem outros fatores do estilo de vida e da alimentação — além de calorias, carboidratos e gorduras — que podem ser fundamentais e que devem ser consideradas para a perda de peso.

No próximo post faremos algumas reflexões importantes acerca dessa temática de calorias, carboidratos, gorduras e perda de peso, abordando também outros aspectos relevantes para a saúde.


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Referências

1. Joosen AM, Westerterp KR. Energy expenditure during overfeeding. Nutr Metab (Lond). 2006;3:25.

2. Thomas DM, et al. Can a weight loss of one pound a week be achieved with a 3500-kcal deficit? Commentary on a commonly accepted rule. Int J Obes (Lond). 2013;37(12):1611-3.



21 comentários:

  1. Bom dia, penso que tenha influenciado no ganho de peso menor do que o "previsto", o fato de você ser magro e atlético, e o seu corpo estar acostumado a particionar a energia corretamente. Talvez se você estivesse em sobrepeso, portanto em desequilíbrio hormonal, os resultados teriam sido piores.

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    1. Provavelmente esses aspectos tiveram impacto sim, Vitor. Mas o mais interessante mesmo é observar que a capacidade de prever as alterações de peso apenas com o cálculo das calorias nem sempre é uma estratégia muito efetiva. Outros aspectos, muitas vezes até mais importantes (como o equilíbrio hormonal), são normalmente deixados de lado...

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  2. Este pouco ganho de peso também se deve a sua taxa de sensibilidade a insulina....caso contrário poderia ocorrer um desastre!! e Mais uma vez parabéns pela coragem de se submeter a um teste destes, que sabemos não ser fácil.............aliás que tal um teste com pizzas, croassaints, chocolates, sorvetes e pudins??? kkkkk...é brincadeira viu!!! Mas com certeza seria bem mais fácil!!

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    1. Obrigado, Marcos!

      Provavelmente uma sensibilidade à insulina aumentada deve ter contribuído para um ganho de peso menor do que o esperado. E, mais uma vez, esse é o tipo de condição metabólica -- enormemente variável entre os indivíduos -- que não é "prevista" pelos cálculos de gasto energético...

      Pretendo no futuro realizar um teste semelhante, mas à base de alimentos processados e industrializados. Além de outros testes interessantes...

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  3. Cara, parabéns pelo estudo.
    Mas quando 78g de gordura ao dia é low fat ??? Nunca !!

    SE você tivesse limitado as gorduras até no maximo 15g teria perdido peso.

    Abs

    www.highcarblowfat.blogspot.com

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    1. Olá, High Carb - Low Fat.

      Em primeiro lugar, é bem difícil ingerir apenas 15 g de gorduras numa dieta de 4600 kcal, principalmente sem o uso de suplementos, como maltodextrina ou dextrose, ou o uso de alimentos que contêm glúten.

      Pelo que percebo, você parece ser mais favorável a dietas low-fat do que a dietas low-carb. Não vou entrar no mérito da discussão porque praticamente todas as revisões sistemáticas e meta-análises comparando dietas low-carb a dietas low-fat mostram a superioridade da low-carb. Quando a low-carb não é melhor, ela é pelo menos igual.


      1) Effects of low-carbohydrate vs low-fat diets on weight loss and cardiovascular risk factors: a meta-analysis of randomized controlled trials

      2) Systematic review of randomized controlled trials of low-carbohydrate vs. low-fat/low-calorie diets in the management of obesity and its comorbidities

      3) Effects of low-carbohydrate diets versus low-fat diets on metabolic risk factors: a meta-analysis of randomized controlled clinical trials

      4) Systematic review and meta-analysis of clinical trials of the effects of low carbohydrate diets on cardiovascular risk factors

      5) Very-low-carbohydrate ketogenic diet v. low-fat diet for long-term weight loss: a meta-analysis of randomised controlled trials

      6) Comparison of effects of long-term low-fat vs high-fat diets on blood lipid levels in overweight or obese patients: a systematic review and meta-analysis

      7) Long term weight maintenance after advice to consume low carbohydrate, higher protein diets—a systematic review and meta analysis

      8) Comparison of the long-term effects of high-fat v. low-fat diet consumption on cardiometabolic risk factors in subjects with abnormal glucose metabolism: a systematic review and meta-analysis

      9) Low carbohydrate versus isoenergetic balanced diets for reducing weight and cardiovascular risk: a systematic review and meta-analysis


      Todos esses estudos são num contexto de perda de peso, ou seja, ambas as dietas funcionam, mas as low-carb são melhores. Isso é indiscutível.

      Mas num contexto de perda de peso, existe redução de carboidratos tanto na dieta low-carb como na dieta low-fat. Numa dieta low-carb esse é justamente o objetivo. Numa dieta low-fat, você acaba reduzindo carboidratos porque você reduz um pouco de cada coisa. Então, no final, a redução calórica numa dieta low-carb e numa dieta low-fat, ambas, levam à redução de carboidratos (uma mais do que a outra, obviamente).

      Por esse motivo, é preciso criar um contexto onde a diferença entre os macronutrientes realmente possa ser observada. E esse contexto é de uma dieta hipercalórica, que foi justamente o que eu fiz. Meu auto-experimento não tem validade científica alguma, porque foi feito com apenas um indivíduo e pode ter uma série de vieses. De qualquer maneira, a diferença entre a dieta hipercalórica low-carb e a dieta hipercalórica low-fat foram exorbitantes. Ficou claro que, pelo menos em mim, a elevada quantidade de carboidratos numa dieta hipercalórica low-fat foi determinante para o ganho de peso.

      Repetindo: 78 g de gordura é low-fat sim, porque a dieta é de 4600 kcal. Até mesmo numa dieta de 2500 kcal, que seria considerada o "padrão" para a maioria dos homens adultos, 78 g pode ser considerado low-fat, justamente porque representa menos de 30% das kcal. E isso é fato: qualquer recomendação que fala sobre dieta low-fat dirá que a mesma será considerada low-fat desde que a quantidade de gordura seja igual ou inferior a 30% das kcal.

      Desculpa a rispidez, mas a princípio seu argumento "SE você tivesse limitado as gorduras até no máximo 15g teria perdido peso" (sic) não tem qualquer validade por si só. Se você apresentar evidências científicas do que você aparentemente está querendo afirmar, podemos discutir sem problema algum. Nesse tempo, dê uma lida nas meta-análises que eu citei logo acima.

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    2. E mais um detalhe: se você for 'seguidor' do Ornish (como parece ser), do McDougall ou do Campbell, entre outros, muito cuidado, porque esses caras são mestres em mostrar resultados de forma enviesada, com interpretações tendenciosas e muitas vezes falaciosas.

      Puro viés de confirmação:
      http://cienciadanutricao.blogspot.com.br/2015/05/vies-de-confirmacao-nutricao.html

      Não que as recomendações desses caras não tenham valor algum; certamente têm, ainda mais porque a alimentação da população em geral normalmente é desastrosa. Praticamente qualquer coisa, ainda mais dietas que incluem alimentos de verdade -- como é o caso da dieta do Ornish --, é melhor do que a dieta ocidental.

      E já que estamos falando do Ornish, não sei se você conhece o estudo 'A to Z'. Ele comparou 4 dietas populares para observar a diferença na perda de peso entre elas. No fim, a Atkins foi superior às demais, inclusive à dieta do Ornish, sem contar que as melhoras nos demais parâmetros metabólicos também foram superiores na dieta Atkins em relação às outras. Detalhe mais importante: o Chris Gardner, autor principal do estudo, é VEGANO.

      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17341711

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    3. Olá João. Obrigadão pela resposta. Eu nunca jamais negaria que dieta low carb é superior em perda de peso, até porque ela cria um stress metabólico que derrete a gordura mesmo. A unica virgula que eu teria em relação à elas seria a adesão e a continuidade dos resultados (em termos de perda de peso) à longo e muito longo prazo. Fora isso a reconheço como método assaz eficiente.

      Não sou "seguidor" de nenhum Guru de dieta, sou apenas Vegan, e sim, como vc, conheço e reconheço a visão deles, mas sem paixões especiais (embora seja divertido observar de longe a guerra das dietas).

      A minha intenção em comentar seu estudo foi de admiração, e em nenhum momento quis defender ou atacar nenhum método particular de alimentação.O meu comentário foi apenas baseado em minha opinião pessoal, não quis dizer que vc tenha feito errado, apenas disse que o resultado seria outro (fica a sugestão de uma terceira rodada: very low fat)

      Em relação ao porque de comer 15g de gordura (na verdade menos de 20g ao dia) existe sim uma explicação, mas como já vi aqui no seu blog que você nega a possibilidade de existir resistência insulínica causada pelos lipídios da dieta, então nem vou perder meu tempo.

      Enfim, o que interessa é que seu blog fornece informação transparente e útil, e principalmente, nota-se que vc é apaixonado por seu trabalho. Portanto, que fique claro que jamais entrei aqui com intuito de criar animosidades.

      Abs !

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    4. Olá, High Carb.

      Acho que peguei meio pesado no último comentário. Talvez tenha "descontado" o estresse acumulado... Realmente gostaria de pedir desculpas, principalmente porque o seu comentário foi completamente amistoso e pertinente.

      Cara, até gostaria de fazer um teste com uma dieta 'very low-fat', ou seja, com esses 20 g ou menos de gordura por dia. Entretanto, isso é extremamente difícil de realizar nas condições semelhantes às dietas anteriores: 4600 kcal e alimentos de verdade (sem a utilização de suplementos).

      Porém, no começo desse ano fiz um "pré-teste" numa dieta de 4600 kcal com 29 g de gorduras por dia, por um período de uma semana. O resultado foi até mais acentuado que o dessa primeira dieta low-fat de 78 g de gorduras que eu fiz: ganho de 1,5 kg em apenas uma semana, também com aumento na medida da circunferência da cintura. Não sei se você leu o post sobre a "dieta do chocolate" que eu fiz, na qual o meu ganho de peso foi praticamente 2,0 kg também em paenas uma semana. Entretanto, estou citando a dieta do chocolate justamente porque só consegui seguir a dieta por uma semana porque minha boca começou a ficar inflamada, provavelmente devido ao elevadíssimo teor de açúcar da dela. Algo semelhante estava começando a acontecer com a dieta 'very low-fat' que testei por só uma semana, mas num grau um pouco menor; porém, imagino que a progressão da inflamação na boca continuaria caso a dieta perdurasse por mais algumas semanas.

      Enfim, menos que 20 g por dia de gordura, numa dieta de 4600 kcal -- para que eu possa compará-las às demais --, provavelmente eu não vou conseguir fazer sem o uso de suplementos ou sem a adição de açúcar, mel etc. Mas já tenho algo próximo do 'very low-fat'. Uma ressalva importante, principalmente em relação àquilo que você acredita, é que nessa dieta 'very low-fat' eu consumi carne e laticínios. O problema de retirá-los da dieta é que a quantidade total de proteínas cairia bastante; isso não é um problema em si, mas se torna um viés porque a quantidade de proteínas dessa dieta, em relação às demais -- para efeito de comparação --, seria muito diferente, influenciando de forma incógnita a análise dos resultados.

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    5. [Continuação]

      Não sou totalmente contra aquilo que você segue e acredita, mas tenho algumas ressalvas: 1) a ingestão de proteínas pode acabar sendo muito baixa, podendo comprometer algumas importantes funções fisiológicas no longo prazo; 2) deficiências subclínicas (assintomáticas) de alguns nutrientes podem surgir; 3) pode ser uma dieta que não traga prejuízos para um adulto, mas para crianças e adolescentes, que ainda estão em desenvolvimento, pode haver problemas (principalmente porque estão saindo novas evidências clínicas de que um maior consumo de proteínas nesses períodos auxiliam num melhor desenvolvimento dos jovens); 4) a carga glicêmica elevada da dieta pode levar a prejuízos crônicos, como alteração da função cognitiva; 5) o baixo consumo de gorduras, e principalmente colesterol, pode também causar prejuízos crônicos relacionados a câncer e função cognitiva.

      E só pra finalizar, eu não nego existir um fenômeno de resistência à insulina induzia por um dieta low-carb/high-fat. Muito pelo contrário, isso acontece em muita gente. Mas, esse é um caso de resistência à insulina FISIOLÓGICA, onde as condições metabólicas da dieta e do corpo induzem resistência à insulina, principalmente no músculo, para que a glicose seja praticamente utilizada pelo cérebro. Os mecanismos de indução de resistência à insulina fisiológica são até parecidos com a resistência à insulina fisiológica, mas suas causas e consequências são extremamente diferentes.

      Além disso, apesar de no geral preferir dietas low-carb, não sou a favor de dietas cetogênicas no longo prazo. Uma dieta low-carb com 100 a 150 g de carboidratos não levará a problema algum no longo prazo, e provavelmente nem vai induzir resistência à insulina fisiológica na grande maioria das pessoas. E mesmo que induzisse, isso não seria problema. Mas uma dieta low-carb com uma quantidade de carboidratos próxima ao que eu mencionei auxilia também em manter uma microbiota intestinal muito mais saudável, sem contar um equilíbrio maior entre micronutrientes e compostos bioativos.

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    6. ***A quantidade de gordura na dieta low-fat foi, na verdade, 22 g/dia nas 4600 kcal. Resultado: ganho de peso de 1,5 kg em uma semana. Claro que ainda tem a ressalva da carne e do leite desnatado, que talvez você julgue como maiores "indutores" de ganho de peso; mas repito: não é possível retirá-los devido ao prejuízo nas comparações em relação às demais dietas.

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    7. Concordo, tente o HighCarbLowFat Vegan, num percentual de 80/10/10 ou 95/5/5, creio que haverá perda de gordura. Deverá ingerir quantidades imensas de frutas, raizes...
      Como exemplos: http://potatostrong.com/ (ingestão predominante de amido), tem também o freele e durianrider no raw till 4(crú até as 16h), ou então eduardo corassa do saúde frugal (não come amidos, apenas frutas e vegetais), enfim tente uma dieta vegan nessas proporções... creio que haverá perda de gordura.
      Ah, e parabéns pelo seu blog, material de altíssima qualidade!

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    8. Olá, Pedro.

      Como referi acima, já fiz um experimento de uma semana com uma dieta bem low-fat (22 g/dia e) e hipercalórica (4600 kcal), e o resultado foi o ganho de 1,5 kg. Como já mencionei também, para efeitos comparativos em relação às dietas que já utilizei nos autoexperimentos, eu não poderia reduzir a quantidade proteica dessa dieta.

      Por isso, seria praticamente inviável utilizar uma dieta vegana ou crudívora para compará-las às demais. Isso sem contar a dificuldade que seria para atingir as 4600 kcal.

      Concordo plenamente que num contexto ad libitum dietas veganas e crudívoras podem ser bem interessantes para induzir a perda de peso ou, pelo menos, evitar o ganho de peso. Porém, esse não era o objetivo dos autoexperimentos que eu fiz. Até porque a ideia é mostrar como os padrões alimentares que eu escolhi poderiam ser extrapolados para o maior número de pessoas possível.

      Tá certo que as pessoas não consomem todos os dias 4600 kcal. Porém, muitas delas consomem dietas hipercalóricas o tempo todo. Ou seja, a ideia era mostrar que, em um contexto hipercalórico, pode existir uma diferença na composição corporal dependendo de como é a proporção de macronutrientes.

      Mas eu tenho sim muita curiosidade de tentar! Por isso, ano que vem com certeza levarei consideração essa possibilidade. Então te convido a ficar por perto para conferir, até porque seria interessante ter pessoas com um pouco mais de vivência e conhecimento sobre essas dietas por perto aqui no blog para comentar.

      De qualquer maneira, obrigado pela leitura e pelo elogio!

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    9. Pode ter certeza que acompanharei! Valeu!

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  4. Gostaria de saber qual é a sua opinião sobre a Dieta Dukan ? Obrigada.

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    1. Olá, Ana Cecilia.

      Em linhas gerais, considero que a Dieta Dukan é menos pior do que muita gente fala. Por outro lado, não é uma dieta saudável. Isso acontece porque ela restringe de maneira desnecessária (e sem sentido) alguns grupos alimentares, o que pode levar a desequilíbrios na ingestão de vitaminas e minerais.

      Se quiser uma dieta "pronta", a melhor indicação que posso fazer é da dieta Paleo.

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    2. Oi João Gabriel.
      Obrigada pela sua resposta. Eu emagreci 28 kgs com a Dukan em 7 meses. Mas depois de um tempo parei de perder peso. Mas percebi tb que qualquer deslizada em quantidade de gordura a balança sobe instantaneamente. E confesso que estou um pouco confusa com tudo que tenho lido sobre dieta low carb. Vejo depoimentos de pessoas que ingerem quantidades absurdas de calorias e dessas uma boa parcela vem das gorduras e emagrecem. Obrigada mais uma vez e parabéns pela rapidez da resposta.
      Um abraço.

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    3. Sempre à disposição!

      Uma outra dica que eu posso dar é a seguinte: foque na simplicidade, tanto nos alimentos consumidos como na forma de preparo das refeições. De maneira geral, quanto menos os alimentos são modificados, melhor o seu corpo responderá à sua alimentação.

      Além disso, experimente estratégias diferentes sempre. O que funciona muito bem para alguém não necessariamente será o ideal pra você. E o que funciona muito bem para você em determinada época, não necessariamente vai sempre ser dessa forma.

      Boa sorte!

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    4. Obrigada pela dica João Gabriel. Vou pesquisar um pouco mais sobre a Paleo. E parabéns pelo seu trabalho e disposição. Não são todas as pessoas que se dispões a dividir seus conhecimentos.

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  5. Achei meio incoerente. No experimento low carb vc distribuiu suas calorias em 80% fat, 15% prot e 5% gordura. No low fat vc mandou 15% gordura o que é muita coisa p uma dieta de 4600 calorias, mais do que óbvio que o resultado não seria diferente. Pra equivaler os experimentos, deveria ter usado a mesma distribuição de calorias nos dois experimentos. No mais achei bem parcial...

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    1. Olá, Rodrigo.

      Não é bem uma incoerência, mas sim uma questão de adequar calorias, quantidade de carboidratos e gorduras, palatabilidade e qualidade dos alimentos.

      Como a densidade energética de carboidratos é bem menor que a das gorduras, o volume alimentar era muito grande. Por isso, uma quantidade menor de gordura, proveniente apenas de alimentos de verdade, seria muito difícil de ingerir para o total de 4600 kcal. Com menos calorias seria relativamente fácil, mas não com os valores almejados -- e sem usar suplementos.

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