quarta-feira, 29 de junho de 2016

Atenção à rápida popularização das dietas paleo e low-carb




Lá fora, principalmente nos Estados Unidos, o interesse pelos assuntos dieta paleo e dieta low-carb ainda é alto, mas já não está mais no seu ápice. Em 2013, por exemplo, como mencionei anteriormente, a dieta paleo estava sendo tão procurada que o Google a registrou como a mais pesquisada entre todos os tipos de dieta

Por outro lado, a popularidade dessas dietas no Brasil ainda está aumentando. E isso é natural: praticamente tudo que ganha força aqui em nosso país acontece com um pouco de atraso em relação aos Estados Unidos, e não tem sido diferente com as dietas paleo e low-carb. Por exemplo, lá no continente norte-americano, o auge da publicação de livros (e são muitos livros!) que envolvem esses assuntos aconteceu entre 2008 e 2012. Em contraste, os poucos livros que chegaram com traduções no Brasil  e devem vir mais nos próximos anos  vieram basicamente nos últimos dois anos: Barriga de Trigo (2013), Dieta da Mente (2014), Por Que Engordamos (2014), Energia Paleo (2015) e A Dieta do Paleolítico (2015).

Se observarmos os dados do Google Trends, que mede o volume de buscas por termos no Google, a evolução do interesse por essas dietas pode ser vista de forma bem clara (low-carb em azul e paleo em vermelho).

No Brasil, a tendência de buscas pelas dietas low-carb e paleo tem sido assim:




Já nos Estados Unidos, essa tendência de buscas tem sido um pouco diferente:





Ok, mas qual é o problema disso?

Eu particularmente acredito que, a princípio, esses dados sugerem algo positivo. As informações contidas nas centenas de sites e blogs lá fora, e que aos poucos vêm chegando ao Brasil, normalmente são de qualidade. Essas informações foram primeiramente divulgadas por pessoas que foram atrás da literatura científica e as disponibilizaram para um público que poderia se beneficiar de ideias um pouco diferenciadas, e com embasamento, sobre alimentação e nutrição. Nesse caso, a maior preocupação com a solidez científica naturalmente se traduziria em maior qualidade da informação.

Por isso, o maior acesso a essas informações provavelmente vem proporcionando mais conhecimento a profissionais e ao público em geral, o que felizmente pode levar a melhores escolhas e hábitos alimentares e, consequentemente, a uma melhora da saúde em nossa população.

Por outro lado, temos também possíveis problemas.

O primeiro, que considero o mais importante, é a velocidade de crescimento na popularidade dessas dietas. Se olharmos novamente para o gráfico de tendência aqui no Brasil, podemos ver que o crescimento de 2013 até o presente momento foi exponencial  e, em 2016, parece que a taxa de crescimento está ainda maior. Realmente estamos, até o momento, no ápice do interesse por low-carb e paleo no Brasil, e essa popularidade ainda pode continuar aumentando nos próximos meses ou anos.

E, como bem sabemos, qualquer coisa que cresce muito rápido pode ter problemas no meio do caminho. Não é fácil controlar algo que possui um desenvolvimento muito acelerado, ainda mais quando estamos falando de um conteúdo intangível, que não possui um “dono”: hoje em dia, qualquer pessoa pode falar o que quiser, do jeito que quiser e quando quiser, sobre dieta paleo ou dieta low-carb (ou sobre qualquer outro assunto)  essa é a realidade da internet.

Portanto, em razão do crescimento do número de fontes que veiculam informações sobre low-carb e paleo, existe uma tendência da qualidade dessas informações ser cada vez menor. É aquele velho problema das histórias que são compartilhadas muitas vezes: a cada vez que é contada, a história (ou a informação) é sempre modificada em algum ponto. E isso talvez seja ainda mais fácil de acontecer com algo que envolve a nutrição, tendo em vista que muitas das conjecturas dessa área não são fatos necessariamente fatos bem estabelecidos; ao contrário, a ciência ainda sabe relativamente pouco sobre nutrição, mesmo em áreas com evidências consistentes, como é o caso de low-carb e paleo. Assim, devido ao grande número de incertezas e de assuntos que são sujeitos a interpretações, a facilidade de distorção das informações sobre um assunto de rápido crescimento tem um potencial ainda maior.

E isso já pode ser observado na prática. Toda semana chegam até mim diversas fontes e informações questionáveis sobre low-carb e paleo. São sites e blogs na internet, além de diversas páginas de Facebook e Instagram, que estão confundindo, principalmente, o público em geral. Tenho recebido, com bastante frequência, dúvidas de leitores sobre informações que são veiculadas da forma X pela fonte A e da forma Y pela fonte B  sendo que, em alguns casos, a informação na verdade deveria estar sendo passada da forma Z.

É complicado, e o maior prejudicado nesse jogo é justamente o público em geral, que, na busca por um conteúdo de qualidade, acaba sendo inundado por um mar de informações duvidosas, das quais muitas são indevidamente enviesadas ou até mesmo incorretas.

No fim das contas, esse conflito de informações pode acabar mais atrapalhando do que ajudando as pessoas a terem uma alimentação mais saudável, possivelmente levando a escolhas que não necessariamente são as melhores para cada indivíduo. Além disso, pode causar aquela constante preocupação excessiva com a própria dieta: “Quanto que pode comer disso?”, “Eu deveria fazer essa refeição desse jeito?”, "Será que aquilo é proibido mesmo?”.

Precisamos pensar em como facilitar uma boa alimentação. Ao mesmo tempo, poderíamos pensar também sobre como podemos fazer para reduzir as barreiras que impedem que uma alimentação mais adequada seja alcançada; e uma dessas formas pode ser justamente a partir da reflexão sobre o crescimento desenfreado de informações sobre low-carb e paleo.

O segundo ponto que me preocupa é o uso dos rótulos “low-carb” e “paleo” por parte dos profissionais de saúde. Não há nada intrinsecamente errado nisso, desde que os profissionais de fato conheçam as especificidades desses padrões alimentares e que, ao mesmo tempo, estejam dispostos  e sejam capazes de aplicar o conhecimento a favor dos pacientes, e não simplesmente na busca por conseguirem mais e mais clientes.

Justamente por causa da popularidade dessas dietas, cada vez mais profissionais estão se rotulando como “especialistas” em low-carb e paleo. É claro que sempre teremos os bons profissionais, aqueles que colocam o bem-estar e a saúde do paciente em primeiro lugar. Porém, normalmente teremos, simultaneamente, aquelas pessoas que podem se aproveitar desse tipo de situação para favorecer seus interesses pessoais.

Por isso, precisamos fazer um esforço para alertar o público em geral do cenário que está à nossa frente: muita atenção quando for procurar por um profissional de saúde, ainda mais se ele estiver envolvido com uma área de rápido crescimento  como, por exemplo, antes mesmo de low-carb e paleo na nutrição, aconteceu e ainda acontece com a medicina ortomolecular.

Nesse tipo de situação, talvez seja ainda mais importante buscar, quando possível, informações sobre os profissionais aos quais confiaremos a nossa saúde.

Como é o trabalho do profissional em questão? Será que ele entende do assunto? Será que ele realmente pode me ajudar? Ele consegue enxergar a aplicabilidade dessas dietas além de ideias pré-concebidas? As minhas preferências e individualidades serão respeitadas? Essas são algumas das perguntas que podemos fazer antes de procurarmos um profissional que trabalha com as linhas low-carb e paleo.

As dietas paleo e low-carb de fato possuem evidências científicas muito boas a seu favor, tanto em qualidade como em quantidade, mas devemos estar muito atentos a possíveis desvirtuamentos que podem surgir a partir de toda essa popularidade que essas abordagens ganharam recentemente.


***
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12 comentários:

  1. Parabéns pelo artigo!

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    1. A mais pura verdade! A grande maioria dessas pessoas, principalmente brasileiros, buscam e seguem sem nenhuma orientação de um nutricionista, ou,nem sabe se é necessário adotar essa estratégia dietética. Claro que existem pessoas que adotam pra vida inteira, mas são bem poucos. O maior mal é a questão do imediatismo. A maioria dessas pessoas querem o mais rápido possível, sem se preocupar primeiramente com a qualidade de vida. E quando "famosos" expõem na mídia que estão adotando tal dieta, as pessoas tendem a segui-los sem o devido acompanhamento. É triste! Excelente post, Gabriel! Poste com mais frequência, por gentileza.

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    2. Olá, Matheus!

      Acredito que esse ponto do imediatismo que você comentou também é muito importante para a discussão, e provavelmente acaba fomentando um crescimento "não saudável" dessas abordagens nutricionais.

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  2. Com certeza, é preciso ficar atento às bobagens que se fala, mesmo em se tratando de low carb / paleo, devemos é comer comida de verdade, sem rótulos, na maior parte do tempo possível! Prezar primeiro pela qualidade do alimento que se está ingerindo e não somente pela aparência e gosto atraentes!!!

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    1. Exatamente! Qualidade acima de tudo, independentemente do rótulo que o padrão alimentar recebe.

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  3. Essa sua observação foi perfeita. Como vc disse, eu tbm tenho visto muitos profissionais nutrólogos e nutricionistas se intitulando especialistas LCHF e/ou páleo. Especialistas não deveriam ter ao menos lato sensu específico? Era isso que eu entendia como especialista... outra coisa, João, demorei mas entendi pq. advogados e médicos se dizem no direito histórico de serem chamados de "Doutores" sem um título de doutorado...mas o que não entendo são os milhares de NUTRICIONISTAS se autointitulando doutores sem um curso strictu sensu. Poderia dar sua opinião sobre isso? Agradeço!!!

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    1. Olá, Lad!

      Para o nutricionista, o título de especialista depende de uma prova que é oferecida pela ASBRAN. Se não me engano, ter uma pós-graduação lato sensu ou stricto sensu é parte dos requisitos para ganhar o título, mas vai um pouco além disso.

      Porém, oficialmente falando, o título específico de "especialista em low-carb" não existe, simplesmente porque não está entre as especializações reconhecidas pela ASBRAN. Mesmo assim, é claro que isso não impede ninguém de se intitular dessa maneira. Isso acontece bastante com "especialistas em nutrição esportiva"; acredito que esse título é sim concedido pela ASBRAN, mas quantos dos profissionais que se rotulam dessa maneira de fato obtiveram o título de especialista em nutrição esportiva?

      Não que eu acredite que obter o título pela ASBRAN realmente signifique alguma coisa, até porque eu não sei como o processo funciona. Porém, o que eu acho que vale a pena reforçar é que encontrar um profissional que se rotula como "especialista" em alguma coisa a princípio não quer dizer nada.

      Em relação aos "doutores", no caso de médicos e advogados, já vi algumas possíveis explicações de como surgiu e por que esse título persistiu ao longo dos anos. Parece que existe um viés histórico, e por isso até dá pra tentar compreender por que ele se fortaleceu e por que permanece ainda hoje: é algo que está presente nas práticas sociais há um bom tempo.

      Apesar disso, eu não concordo com esse título para nenhuma das profissões. Primeiro porque ela dá um ar de superioridade de algumas áreas em relação às demais. Não precisamos disso; na verdade, precisamos do contrário: que profissionais de áreas diferentes, ainda mais considerando a saúde -- que deveria ser totalmente integrada --, trabalhem juntos para obterem os melhores resultados.

      Em segundo lugar, e de maneira relacionada ao primeiro ponto, temos que ressaltar que médicos e advogados não estão acima dos demais profissionais. Manter essa titulação arcaica faz com que a população continue acreditando que médicos e advogados são seres “diferenciados”. E isso é ruim porque muita gente não valoriza o trabalho de outras áreas, especialmente na saúde (que posso falar com um pouco mais de propriedade), e manter essa separação faz com que essa visão se perpetue.

      Não quero desmerecer médicos e advogados, ou qualquer outra profissão, porque eles exercem um papel muito importante para as pessoas. Mas são gente como a gente.

      Tem um texto muito interessante que fala sobre essa questão dos “doutores”:

      http://posgraduando.com/doutor-e-quem-fez-doutorado/

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  4. Olha Joao, adoro seus post. Muito bom ler artigos bem fundamentados, vc expõe a verdade. Adorei a matéria sobre o HCG e acredito que é só mais uma forma de ludibriar os consumidores e super faturar. Mas os "ignorantes" ou leigos desesperados pelo resultado imediato acabam tentando defender uma tese sem nenhuma comprovação científica. É a história do paguei caro então funciona. Rss. Seria mais uma vítima do uso desse hormônio que como vc mesmo disse não trás nenhum benefício ao contrário pode trazer riscos a saúde. Bom eu tbm n conheço a Dieta Paleo ou a Low Carb, e como percebi que no artigo vc não as condena, porem fez uma ressalva bem apropriada sobre haver matérias sobre o assunto sem ser um especialista ou mesmo para o próprio benefício, então vc pode fazer um resumo, por favor sobre as duas dietas?
    Obrigada, adoro seu blog

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    1. Olá, Priscila!

      Muito obrigado pela leitura e por participar com comentários.

      Já escrevi alguns textos sobre as duas dietas, e por isso vou deixar alguns links aqui embaixo para que você possa ler com um pouco mais de detalhes:

      http://cienciadanutricao.blogspot.com.br/2014/01/calorias-reducao-de-carboidratos-ou.html

      http://cienciadanutricao.blogspot.com.br/2015/08/low-fat-e-melhor-que-low-carb.html

      http://cienciadanutricao.blogspot.com.br/2014/04/dieta-paleolitica.html

      http://cienciadanutricao.blogspot.com.br/2014/07/o-que-ciencia-diz-sobre-dieta-paleo.html

      http://cienciadanutricao.blogspot.com.br/2015/09/dieta-paleo-padrao-ouro-de-evidencia.html

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  5. Poxa João Gabriel... achei coerente este tópico. Mais vc é ou não a favor da dieta low carb paleo? Seu texto deixa dúvidas sobre se devo ou não seguir... horas pensei que você fosse adébto e outra horas não...

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    1. Olá, Kelly.

      Ao longo do texto coloquei alguns links de posts que já escrevi sobre low-carb e paleo, nos quais mostro basicamente pontos positivos sobre essas dietas. De maneira geral, sou sim a favor delas, uma vez que a literatura científica mostra que elas normalmente levam a resultados bastante positivos.

      Porém, sempre gosto de ressaltar que elas não necessariamente são o melhor caminho para todo mundo. Opções diferentes podem ser mais interessantes para pessoas diferentes.

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