terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Top 10 palestras do TED




A princípio, olhando apenas do ponto de vista do TED, esse post não teria nada a ver com alimentação, nutrição ou saúde. Por outro lado, considerando que as palestras do TED, independentemente do tema, normalmente são excelentes, acredito que as ideias expostas e discutidas nelas podem ser interessantes para qualquer pessoa. 

Porém, para aqueles que ainda preferem a parte de nutrição e alimentação, podem ficar tranquilos que algumas das palestras falam sobre esses assuntos.

Para quem não conhece, podemos resumir assim: o TED é uma conferência global de ótimas palestras, apresentadas por convidados excepcionais. A sigla significa Technology, Entertainment, Design (em português: Tecnologia, Entretenimento, Design). Nos primeiros anos, o foco era voltado justamente para os tópicos contemplados pela sigla; atualmente, os temas são muito mais abrangentes, passando pelos mais diversos assuntos e áreas, incluindo questões científicas, culturais, de saúde, sociais e acadêmicas.

Minha recomendação é que qualquer um deveria assistir a todas as palestras que do TED que puder. Nem todas terão a mesma qualidade, mas o saldo final certamente será positivo. Mesmo assim, atenção: os vídeos normalmente são viciantes, podendo causar dependência.

Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a história e o desenvolvimento do TED, recomendo os seguintes links:

Além das 10 palestras selecionadas abaixo, eu poderia recomendar dezenas de outras boas opções, simplesmente porque as palestras são muito bem feitas e apresentam excelente conteúdo. Mas por uma questão de tempo (meu e seu), vamos ficar com essas 10. 

Mais difícil do que escolher apenas 10 palestras foi escolher uma ordem de "preferência". Na verdade, nem tenho certeza se essa é exatamente a ordem das minhas favoritas, mas é algo próximo disso.

A maioria dos títulos em português foram tirados da página do TED que dá a opção de assistir aos vídeos em português brasileiro, com exceção das palestras #8 (que não tinha essa opção), #7, #3 e #1 (cujas traduções livres a partir do título em inglês eu considerei como mais propícias). A boa notícia: todas as palestras, com exceção da #8, possuem legendas em português.


Sem mais delongas, vamos ao meu (até o momento) top 10 TED.




Após ver esse vídeo, fica muito claro como e por que as organizações sem fins lucrativos não prosperam como poderiam (ou deveriam). Considerando as ideias expostas por Dan Pallota, a mudança na forma de pensar dos gestores, e do público, são extremamente importantes para que essas organizações possam crescer e desenvolver seus belos trabalhos.


#9 - Apollo Robins: A arte da distração

É sensacional ver como a nossa mente é, ao mesmo tempo, "burra" e inteligente. Nessa apresentação — que está mais para um show do que uma palestra —, Apollo Robins faz você se impressionar com a capacidade que a nossa mente tem de (não) perceber o mundo e os detalhes ao nosso redor. Do começo ao fim, você vai se questionar: "Como eu não percebi isso?".


#8 - David Newman: A verdade que perdura

Qual é a capacidade que os diferentes tipos de estudos científicos realmente têm em mostrar o risco de desenvolver problemas de saúde? Como saber a verdadeira capacidade que alguns medicamentos têm em tratar as doenças? Qual é o melhor tipo de intervenção para doenças cardiovasculares (a maior causa de morte em boa parte do mundo): drogas ou alimentação? Nessa apresentação, David Newman mostra de forma simples e direta que a verdade por trás das terapias medicamentosas é um pouco (ou bem) diferente daquilo que nos contam.


#7 - Carl Honoré: Em louvor à lentidão

Nessa palestra, Carl Honoré nos mostra como a obsessão com a velocidade — com fazer tudo de forma excessivamente rápida, como estivéssemos sempre na "quinta marcha" — faz com que a qualidade de vida de muitas pessoas seja, de maneira geral, muito baixa. O objetivo da palestra é fazer com que possamos abrir os olhos e perceber que, muitas vezes, a pressa é inimiga da perfeição. Se interessar, recomendo fortemente a leitura do livro homônimo do autor, In Praise of Slowness.


#6 - Allan Savory: Como recuperar os desertos e reverter as mudanças climáticas

Veja o impressionante trabalho realizado pelo ambientalista Allan Savory e entenda que a solução para a desertificação dos solos e as mudanças climáticas pode ser encontrada a partir de uma visão mais ampla do próprio problema. É muito impressionante como é possível re-estabelecer o equilíbrio simplesmente ao fazer com que a natureza funcione da forma como sempre funcionou. Essa palestra me lembra muito dessa história.


#5 - Graham Hill: Menos coisas, mais felicidade

O título já diz quase tudo. Normalmente não prestamos muita atenção qual é o real impacto que o excesso de bens materiais — e todas as consequências negativas que podem vir acompanhadas — tem sobre as nossas vidas e a nossa saúde. Porém, Graham Hill apresenta estratégias simples que podem nos ajudar a contornar esse problema.


#4 Ric Elias: Três coisas que descobri quando meu avião caiu

Muitas vezes, apenas nos momentos mais difíceis é que aprendemos a dar o verdadeiro valor a algumas coisas. No caso do palestrante Ric Elias, uma experiência de quase morte foi o estopim para que ele acordasse para alguns fatos. Assistir a essa palestra é uma ótima forma de refletir sobre as nossas prioridades na vida.


#3 - Jamie Oliver: O desejo de ensinar todas as crianças sobre comida

É indiscutível o papel que a alimentação possui na saúde. Porém, se a alimentação é uma das únicas necessidades realmente fundamentais aos seres humanos, por que o desconhecimento sobre ela é tão grande? Cada um de nós não deveria entender pelo menos o básico sobre alimentos e alimentação? Para mudar esse cenário, o desejo de Jamie Oliver — um dos maiores nomes mundiais do meio da alimentação — é que todas as crianças sejam ensinadas a se alimentar bem, de forma a facilitar o desenvolvimento de pessoas conscientes e empoderadas em relação à própria alimentação. Complete essa palestra fenomenal com o excelente documentário Muito Além do Peso.


#2 - Tristram Stuart: O escândalo do desperdício global de alimentos

O desperdício de alimentos é, certamente, um dos maiores absurdos do nosso mundo contemporâneo, e o pior de tudo é que a maior parte das pessoas não dá a mínima importância a isso — propositalmente ou não. Como pode ser visto no vídeo, Tristram Stuart nos mostra que nossa população essencialmente desperdiça alimentos sempre que ela pode, da produção ao consumo, normalmente de maneira totalmente negligente. Além disso, são apresentadas as severas implicações que podem surgir a partir de todo esse descuido.


#1 - Sir Ken Robinson: As escolas acabam com a criatividade?

Na minha opinião, ainda não teve uma palestra do TED tão boa quanto essa. Ela vai além do TED, do palestrante e do próprio tópico; no caso, o todo é muito maior do que a soma das partes. O tema, além de extremamente interessante, é importantíssimo: será que as escolas, na sua forma tradicional de "ensinar", acabam com a criatividade e o potencial das crianças, dos adolescentes e dos jovens adultos? Segundo Ken Robinson, a resposta para essa pergunta é um sonoro "Com certeza!". O palestrante ainda sugere que, além de impedir o verdadeiro crescimento pessoal e profissional, as escolas normalmente levam as pessoas a uma vida de frustrações, insatisfações e problemas sociais e de saúde — que pode afetar não só a vida da própria pessoa, mas também a das pessoas ao seu redor. Não deixe de conferir também, aqui e aqui, as duas palestras do próprio Ken Robinson que dão sequência ao tópico abordado.


Essa foi a minha lista. Reflexões para o fechamento de um ano e o começo de outro. Sinta-se à vontade para compartilhar outras palestras do TED nos comentários.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O jejum leva à perda de massa muscular?




Acredito que poucas pessoas questionariam o fato de que o jejum, seja ele intermitente ou não, leva à perda de peso. Até porque faz muito sentido. Na ausência da ingestão de alimentos, o corpo precisa obter energia de algum lugar, que no caso do jejum serão as nossas próprias reservas energéticas — como a gordura armazenada no tecido adiposo e os aminoácidos constituintes das proteínas musculares, por exemplo.

Mas de que forma se constitui a perda de peso induzida pelo jejum? Existe perda de massa muscular além da perda de gordura corporal? Se sim, essa redução na massa muscular é muito significativa? E, em último caso, se a perda de massa muscular de fato ocorre com o jejum, ela é maior do que o observado em outras estratégias nutricionais que induzem perda de peso?

Essas perguntas são importantes porque muitas pessoas têm medo de ficar muito tempo sem comer, ou até mesmo em jejum, porque vão "catabolizar", ou seja, entrariam num estado de perda de massa muscular. Mas será que isso ocorre mesmo?

Como sempre, vamos recorrer à literatura científica para verificar qual é o real efeito do jejum sobre a massa muscular.


Massa magra x Massa muscular

Antes de entrarmos nos estudos que exploraram as questões que queremos responder, é importante fazermos a distinção entre massa magra e massa muscular. A massa magra, ou massa livre de gordura, corresponde à soma de todos os tecidos que não são gordura: músculo, órgãos, ossos e cartilagens, por exemplo. Até mesmo a água presente no nosso corpo é categorizada como parte da massa magra.

A massa muscular, como o próprio nome sugere, corresponde apenas ao tecido muscular — mais especificamente aos músculos esqueléticos, como os que compõem o bíceps e o quadríceps. Assim, podemos dizer que a massa muscular é apenas um dos vários componentes da massa magra.

Quando a perda de peso ocorre, é praticamente inevitável que a massa magra diminua. E quando a massa magra cai, na verdade apenas dois de seus componentes (salvo raras exceções) são reduzidos nesse processo: massa muscular e água. Ainda bem que são só esses dois; imagine você tentar perder peso e começar a perder tecido ósseo, neurônios ou parte do rim?!

A distinção entre os conceitos de massa magra e massa muscular é muito importante, já que a maioria dos estudos sobre nutrição e alimentação, por razões diversas, medem apenas a massa magra, e não a massa muscular. Por isso, sempre que um estudo apresentar resultados para massa magra, principalmente quando for sobre a perda de massa magra, um olhar mais crítico deve prevalecer.


Obs 1: Todos os trechos abaixo que estiverem, ao mesmo tempo, entre aspas e em itálico, são autocitações referentes a esse texto anterior que escrevi sobre jejum intermitente.

Obs 2: Na análise mais completa, que contém a descrição dos estudos, foram considerados apenas os estudos que comparam o jejum a algum tipo de grupo controle. Os estudos que testaram o jejum intermitente de forma "isolada", sem comparação, serão comentados depois.


Os estudos

Stote et al (2007) [1]

Mulheres e homens entre 40 e 50 anos, sem sobrepeso ou obesidade, foram divididos em 2 grupos: controle (3 refeições/dia) ou intervenção (1 refeição/dia). O grupo controle consumia diariamente café da manhã, almoço e jantar. O grupo intervenção, por sua vez, tinha um período de apenas 4 horas, no começo da noite, para realizar sua única refeição diária, ficando pelo menos 20 horas/dia em jejum. O estudo foi do tipo cruzado (cross-over), ou seja, todos os participantes participaram de ambos os grupos; ao final das 8 semanas, quem estava no grupo controle foi para o grupo intervenção e vice-versa. Estudos cruzados são considerados padrão-ouro para ensaios clínicos.

O mais interessante desse estudo é que todos os alimentos foram fornecidos pela equipe de pesquisa, facilitando a adesão e proporcionando um excelente controle da ingestão alimentar de ambos os grupos experimentais. Inclusive, a refeição da noite — equivalente ao jantar do grupo controle e à única refeição diária do grupo intervenção — era sempre realizada nas facilidades do centro de pesquisa. A composição de macronutrientes (carboidratos, gorduras e proteínas) foi exatamente a mesma para os dois grupos experimentais, assim como o consumo de calorias.

Ao final do estudo, o grupo controle apresentou "tendência" de perda de massa magra, enquanto que o grupo que consumia apenas 1 refeição/dia apresentou "tendência" de aumento de massa magra; porém, nenhuma dessas tendências alcançou significância estatística. Não houve perda de gordura corporal no grupo controle, ao passo que o grupo intervenção perdeu em média de 2,0 kg — um resultado até expressivo, levando em conta que os participantes não ingeriram dietas para perda de peso, mas sim para manutenção. Resumindo: sem restrição calórica, o grupo de 1 refeição/dia perdeu de peso (gordura corporal) sem perder massa magra ou massa muscular. A conclusão dos autores: “A ingestão de 1 refeição por dia resultou em perda de peso e redução na massa gorda com pouca modificação no consumo de calorias”.


Harvie et al (2011) [2]

 “Os pesquisadores dividiram mulheres pré-menopausa em 2 grupos: restrição calórica diária de 25% ou restrição calórica de 25% na forma de jejum. O grupo 1 (restrição calórica diária de 25%), ao final de uma semana, atingiria uma redução calórica total de 25% da energia que normalmente consumiria em uma semana. Para que a mesma restrição energética total, em um semana, fosse atingida no grupo 2 (restrição calórica de 25% na forma de jejum), os indivíduos consumiam uma quantidade muito pequena de calorias em 2 dias da semana (considerados os dias de jejum) e se alimentavam de acordo com suas necessidades diárias, para manutenção do peso, nos outros 5 dias da semana”.

O estudo teve duração de 6 meses. Após esse período, não houve diferença estatística na perda de gordura corporal entre o grupo 1 (3,6 kg) e o grupo 2 (4,5 kg). De forma semelhante, também não foram observadas diferenças na perda de massa magra, que foram, respectivamente, de 0,8 kg e 1,2 kg.


Harvie et al (2013) [3]


Estudo com metodologia muito semelhante à do estudo de Harvie et al (2011) [2], comentado acima. Entretanto, além dos 2 grupos já descritos, houve um terceiro grupo experimental nessa pesquisa: restrição calórica de 25% + consumo ilimitado de proteínas e gorduras nos dias de jejum (ou seja, houve controle verdadeiro para a restrição de carboidratos, mas não dos demais macronutrientes)”. Assim, ao todo foram dois grupos que fizeram jejum e um grupo com restrição calórica convencional (grupo controle).

Dessa vez, a duração do estudo foi de 4 meses. Ao final, os grupos que fizeram o jejum perderam quantidades significativas de gordura corporal: 4,3 kg (25% de restrição calórica na forma de jejum) e 4,1 kg (25% de restrição calórica na forma de jejum, com consumo ilimitado de gorduras e proteínas na dieta). O grupo controle, com restrição calórica de 25% ao longo do dia, perdeu apenas 2,5 kg de gordura corporal. Apesar de todos os grupos terem perdido um pouco de massa magra, não houve diferença estatística entre os grupos: 1,3 kg, 1,1 kg e 1,6 kg, respectivamente. De qualquer maneira, vale lembrar que esses são valores de massa magra, e não necessariamente correspondem apenas à massa muscular.


Varady et al (2013) [4]

Nesse estudo, “[i]ndivíduos com IMC variando de 20 a 29,9 kg/m2 foram divididos em 2 grupos: jejum intermitente ou controle. O jejum foi realizado dia sim/dia não, sendo que nos dias de jejum os participantes ingeriam 25% das suas necessidades energéticas diárias, e nos dias sem jejum poderiam se alimentar de maneira irrestrita. O grupo controle foi orientado a manter seu consumo dietético habitual”.

Apesar de haver um grupo controle, os resultados entre os dois grupos do estudo não devem ser diretamente comparados no sentido de “uma estratégia é melhor do que a outra”, justamente porque o grupo jejum praticava o jejum intermitente a cada dois dias, enquanto que o grupo controle não teve nenhum hábito alimentar alterado. O grupo controle serviu para garantir que os resultados apresentados pelo grupo jejum fossem decorrentes apenas da intervenção — e não de outros fatores, como o tempo decorrido durante do estudo.

As 12 semanas do estudo resultaram numa perda de peso de 5,2 kg no grupo jejum, enquanto que o peso do grupo controle permaneceu inalterado. Desse total, a perda de gordura corporal no grupo jejum foi de 3,6 kg. Houve uma pequena tendência de redução na massa magra, que em valor absoluto foi de 1,6 kg; porém, não houve diferença estatística em relação ao grupo controle. Vale ressaltar que esse último valor de 1,6 kg diz respeito à massa magra total, e por isso não sabemos exatamente a quanto isso corresponderia de massa muscular.


Então o jejum não leva à perda de massa muscular?

Até aqui, não podemos afirmar com 100% de certeza porque nenhum dos estudos mediu diretamente a massa muscular, apenas a massa magra. Mas considerando que apenas um dos estudos acima demonstrou uma redução estatisticamente significativa da massa magra [3], é possível concluir que mesmo que exista uma diminuição da massa muscular com o jejum, ela é bem pequena.

Vale ressaltar mais uma vez que a massa muscular é apenas um dos componentes da massa magra. Dessa forma, caso a massa muscular tivesse sido diretamente mensurada (ou até mesmo calculada/estimada) no estudo de Harvie et al. (2013) [3], podemos ter certeza que sua redução, em números absolutos, seria inferior à perda de massa magra total. Isso nos leva a crer que é bem possível que não haveria redução da massa muscular do ponto de vista estatístico — e nada muito significativo também do ponto de vista clínico, considerando que a tal perda seria inferior a 1,0 kg em 4 meses.

Além disso, toda vez que ocorre perda de peso e, ao mesmo tempo, redução de massa magra, parte dessa massa magra perdida corresponde ao glicogênio hepático e muscular — as reservas de glicose do nosso corpo. Porém, além de sabermos que o glicogênio precisa se ligar a moléculas de água para ser armazenado, sabemos também que essa água é liberada toda vez que o glicogênio é degradado para prover glicose para a produção de energia no corpo. Dessa forma, quando há redução do peso e diminuição na massa magra, parte dessa massa perdida corresponde ao glicogênio utilizado para produção de glicose e também à água liberada durante esse processo. Esse é mais um motivo que nos leva a crer que se a massa muscular tivesse sido medida no estudo de Harvie et al. (2013) [3], provavelmente a redução não teria sido estatística e clinicamente significativa.

De qualquer maneira, os outros três estudos verificaram que a perda de massa magra não foi significativa quando comparamos os períodos anterior e posterior à prática do jejum [1,2,4]. Apesar de não podermos cravar com toda a certeza, isso sugere que a redução de massa muscular também não foi significativa.


E se o jejum for realizado sem restrição energética?!

Apesar de os outros três estudos acima não terem mostrado diferença estatística na perda de massa magra, dois deles apresentaram certa “tendência” de redução [2,4]. É possível especular que caso os estudos fossem um pouco mais longos ou tivessem um número maior de participantes, talvez a redução de massa magra fosse estatisticamente significativa.

Porém, o primeiro estudo citado [1] merece destaque. Ele foi diferente dos demais. O protocolo de jejum intermitente empregado nesse estudo teve uma diferença importante em relação aos outros: não houve restrição energética. Os participantes do grupo jejum consumiram exatamente a mesma quantidade de calorias do grupo controle, sem contar que a ingestão alimentar foi estritamente controlada, já que todos os alimentos das dietas foram fornecidos pelos pesquisadores.

Resultados: a massa magra das pessoas do grupo jejum aumentou de 50,1 kg (início do estudo) para 50,9 kg (final do estudo). Não houve diferença estatística, mas, em números absolutos, a massa magra até aumentou! Além disso, esse estudo foi o único que mediu a quantidade total de água corporal dos participantes. No grupo jejum, a água corporal foi de 36,7 kg (início do estudo) para 37,2 kg (final do estudo); nesse caso, também não houve diferença estatística. Porém, quando subtraímos a variação ocorrida com a água corporal da variação da massa magra, o saldo final é de +0,3 kg. E esse valor poderia ser atribuído à massa muscular, uma vez que, em condições normais, a massa muscular e a água são os dois principais componentes variáveis da massa magra.

Dessa forma, é possível perceber que o único estudo que não se preocupou em restringir calorias foi aquele que apresentou os melhores resultados em relação à preservação de massa magra e massa muscular. O protocolo empregado nele é conhecido como time restricted feeding na literatura científica, que poderia ser livremente traduzido para alimentação com tempo restrito. Seria algo como uma “janela de alimentação”.


Mais evidências da preservação de massa magra com o jejum

Na análise acima, propositalmente não foram incluídos dois outros estudos controlados que já foram publicados. O primeiro deles porque foi um estudo cross-over sem washout [5]. O washout é o período entre os diferentes tipos de intervenção em que os participantes ficam sem receber nenhum tipo de tratamento, justamente para que os efeitos da intervenção anterior sejam "desfeitos" e, com isso, os indivíduos estejam "limpos" para a intervenção seguinte. O segundo estudo não foi incluído porque o desenho experimental inclui diferenças que vão além da comparação restrição calórica contínua x restrição calórica intermitente [6].

De qualquer maneira, ambos os estudos mostram que não houve redução significativa na massa magra durante as várias semanas de prática do jejum intermitente pelos participantes [5,6].

Além dos estudos controlados apresentados acima, temos pelo menos cinco outros estudos em que o jejum intermitente foi testado de forma isolada, sem comparação a outras intervenções, nos quais a massa magra também foi medida.

E os resultados desses estudo dão suporte ao observado acima: quatro deles mostraram não haver diferença na perda de massa magra entre o começo e o fim de cada um dos trabalhos [7,8,9,10]. Apenas um deles verificou redução na massa magra [11]. Porém, além da diferença ter sido bem pequena, novamente não sabemos exatamente o quanto de massa muscular foi realmente perdida, já que essa variável não foi diretamente mensurada; além disso, como a massa muscular é um dos componentes da massa magra, vale repetir mais uma vez que é grande a probabilidade de não ter ocorrido perda significativa de massa muscular.


E por que existe uma tendência (no mínimo igual às dietas convencionais) de preservação de massa muscular no jejum?

O gráfico abaixo, de um estudo da década de 80 [12] — época em que eram comuns estudos com jejuns mais prolongados —, explica melhor o porquê:




O segundo conjunto de barras da figura tem como legenda "Whole body protein turnover", que pode ser traduzido como "Balanço proteico do organismo". Esse balanço corresponde às taxas de degradação e síntese de proteínas no corpo. Quando seu valor diminui, como foi no caso do jejum desse estudo, significa que o corpo está tentando ao máximo poupar suas proteínas, por meio da diminuição tanto das taxas de síntese como de degradação. Isso faz com que não ocorra um "saldo negativo" de proteínas — pelo menos não de forma significativa —, preservando a massa muscular.


Considerações finais

Observando a literatura, fica claro que, mesmo que em alguns casos aconteça a perda de massa magra, é pouco provável que haja redução na massa muscular com o jejum intermitente. Além disso, a diminuição da massa magra ou da massa muscular com o jejum seria, no máximo, igual às estratégias convencionais para perda de peso, como a contagem de calorias — e em boa parte dos casos essas diminuições podem ser menores.

Além disso, vale ressaltar mais uma vez que praticamente todos os estudos com jejum intermitente testaram essa prática num contexto de restrição energética. O único estudo que empregou o jejum sem redução de calorias mostrou claramente a preservação de massa magra e massa muscular. Isso provavelmente acontece porque, durante o período de jejum, o corpo entra em um estado metabólico completamente diferente de quando ingerimos alimentos, fazendo com que a utilização de substratos energéticos endógenos seja maximizada; por outro lado, no restrito tempo em que o organismo está recebendo nutrientes — em quantidades adequadas —, ele otimiza também a preservação da massa magra.

Assim, dependendo de como o jejum intermitente for realizado, ele pode levar não apenas à redução significativa de gordura corporal, mas também à manutenção da massa muscular. Isso sem contar os diversos outros benefícios que podem vir associados à prática do jejum intermitente [13,14].


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Referências

1. Stote KS, et al. A controlled trial of reduced meal frequency without caloric restriction in healthy, normal-weight, middle-aged adults. Am J Clin Nutr. 2007;85(4):981-8.

2. Harvie MN, et al. The effects of intermittent or continuous energy restriction on weight loss and metabolic disease risk markers: a randomized trial in young overweight women. Int J Obes (Lond). 2011;35(5):714-27.

3. Harvie MN, et al. The effect of intermittent energy and carbohydrate restriction v. daily energy restriction on weight loss and metabolic disease risk markers in overweight women. Br J Nutr. 2013;110(8):1534-47.

4. Varady KA, et al. Alternate day fasting for weight loss in normal weight and overweight subjects: a randomized controlled trial. Nutr J. 2013;12(1):146.

5. de Groot LC, et al. Adaptation of energy metabolism of overweight women to alternating and continuous low energy intake. Am J Clin Nutr. 1989;50(6):1314-23.

6. Arquin H, et al. Short- and long-term effects of continuous versus intermittent restrictive diet approaches on body composition and the metabolic profile in overweight and obese postmenopausal women: a pilot study. Menopause. 2012;19(8):870-6.

7. Varady KA, et al. Short-term modified alternate-day fasting: a novel dietary strategy for weight loss and cardioprotection in obese adults. Am J Clin Nutr. 2009;90(5):1138-43.

8. Bhutani S, et al. Improvements in coronary heart disease risk indicators by alternate-day fasting involve adipose tissue modulations. Obesity (Silver Spring). 2010;18(11):2152-9.

9. Klempel MC, et al. Intermittent fasting combined with calorie restriction is effective for weight loss and cardio-protection in obese women. Nutr J. 2012;11:98.

10. Kroeger CM, et al. Improvement in coronary heart disease risk factors during an intermittent fasting/calorie restriction regimen: relationship to adipokine modulations. Nutr Metab (Lond). 2012;9(1):98.

11. Heilbronn LK, et al. Alternate-day fasting in nonobese subjects: effects on body weight, body composition, and energy metabolism. Am J Clin Nutr. 2005;81(1):69-73.

12. Henson LC, Heber D. Whole body protein breakdown rates and hormonal adaptation in fasted obese subjects. J Clin Endocrinol Metab. 1983;57(2):316-9.

13. Longo VD, Mattson MP. Fasting: molecular mechanisms and clinical applications. Cell Metab. 2014;19(2):181-92.

14. Mattson MP, et al. Meal frequency and timing in health and disease. Proc Natl Acad Sci U S A. 2014;111(47):16647-53.