terça-feira, 22 de setembro de 2015

Dieta Paleo: padrão-ouro de evidência científica





Esse post é atualizado sempre que algum novo estudo do tipo ensaio clínico ou do tipo revisão sistemática sobre dieta paleolítica é publicado. A última atualização foi no dia 30/05/2016.

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Mais uma vez as perguntas: a dieta paleo funciona? Existe comprovação científica de eficácia para essa dieta que tem se tornado cada vez mais popular no Brasil?

No último texto que escrevi sobre o assunto, “O que a ciência diz sobre a dieta paleo?”, foi possível observar claramente, com as evidências disponíveis até aquele momento, que existiam diversos estudos de qualidade — ensaios clínicos randomizados — mostrando não apenas a efetividade da dieta paleo, mas inclusive sua vantagem em relação a dietas “balanceadas”.

Mas a ciência está sempre evoluindo e se atualizando — e muito rapidamente. Desde o último post, escrito há pouco mais de um ano, vários novos estudos sobre a dieta paleo foram publicados na literatura científica. Não só isso: saiu também a primeira meta-análise sobre o assunto. E o mais interessante de tudo é que as evidências atuais continuam confirmando o que as anteriores já mostraram, ou seja, os estudos persistem em demonstrar que a dieta paleo é superior às dietas “convencionais”.

Outro detalhe que merece ser destacado: nas primeiras publicações científicas, basicamente apenas alguns pesquisadores da Suécia estavam trabalhando com o assunto dieta paleo. Agora, vários outros grupos de pesquisa diferentes, ao redor de todo o mundo, também estão estudando o tema. Dessa forma, até mesmo estudos observacionais sobre a dieta paleo estão começando a surgir [1]. Mas o foco aqui é para os ensaios clínicos — aqueles estudos realmente capazes de demonstrar relações de causa e efeito —, justamente porque estamos falando de padrão-ouro de evidência científica.


As evidências

Abaixo seguem todos* os estudos do tipo ensaio clínico — além da meta-análise — que testaram o efeito da dieta paleo sobre a saúde humana, em ordem cronológica de publicação:


*Os dois estudos não controlados (sem grupo “controle”) [2,3] que incluíram outros tipos de intervenção — estilo de vida, atividade física etc. — não estão contemplados aqui, uma vez que nesse tipo de situação é impossível saber ao certo quais das variáveis foram responsáveis pelos efeitos observados.


1) A Palaeolithic diet improves glucose tolerance more than a Mediterranean-like diet in individuals with ischaemic heart disease [4]

2) Effects of a short-term intervention with a paleolithic diet in healthy volunteers [5]

3) Beneficial effects of a Paleolithic diet on cardiovascular risk factors in type 2 diabetes: a randomized cross-over pilot study [6]

4) Metabolic and physiologic improvements from consuming a paleolithic, hunter-gatherer type diet [7]

5) A paleolithic diet is more satiating per calorie than a mediterranean-like diet in individuals with ischemic heart disease [8]

6) A Palaeolithic-type diet causes strong tissue-specific effects on ectopic fat deposition in obese postmenopausal women [9]

7) Subjective satiety and other experiences of a Paleolithic diet compared to a diabetes diet in patients with type 2 diabetes [10]

8) Long-term effects of a Palaeolithic-type diet in obese postmenopausal women: a 2-year randomized trial [11]

9) Favourable effects of consuming a Palaeolithic-type diet on characteristics of the metabolic syndrome: a randomized controlled pilot-study [12]

10) Plant-rich mixed meals based on Palaeolithic diet principles have a dramatic impact on incretin, peptide YY and satiety response, but show little effect on glucose and insulin homeostasis: an acute-effects randomised study [13]

11) Metabolic and physiologic effects from consuming a hunter-gatherer (Paleolithic)-type diet in type 2 diabetes [14]

12) Paleolithic nutrition improves plasma lipid concentrations of hypercholesterolemic adults to a greater extent than traditional heart-healthy dietary recommendations [15]

13) Diet-induced weight loss has chronic tissue-specific effects on glucocorticoid metabolism in overweight postmenopausal women [16]


Há pouco tempo, a primeira meta-análise sobre o assunto juntou todos os estudos que, até o momento, testaram o efeito da dieta paleo — comparada a dietas “controle” (ou dietas "convencionais" para perda de peso) — sobre os 5 marcadores da síndrome metabólica: glicemia, triglicerídeos, HDLc, pressão arterial e circunferência da cintura.

A dieta paleo proporcionou benefícios superiores em todos os parâmetros avaliados. Nas palavras dos autores: "A dieta Paleolítica resultou em melhorias mais significativas nos componentes da síndrome metabólica do que as dietas controle baseadas e diretrizes [governamentais/institucionais]".


14) Paleolithic nutrition for metabolic syndrome: systematic review and meta-analysis [17]


E os estudos mais recentes:


15) Strong and persistent effect on liver fat with a Paleolithic diet during a two-year intervention [18]

16) Palaeolithic diet decreases fasting plasma leptin concentrations more than a diabetes diet in patients with type 2 diabetes: a randomised cross-over trial [19]

17) Cardiovascular, metabolic effects and dietary composition ad-libitum Paleolithic vs. Australian Guide to Healthy Eating diets: a 4-week randomised trial [20]

18) Effects of a Paleolithic diet with and without supervised exercise on fat mass, insulin sensitivity, and glycemic control: a randomized controlled trial in individuals with type 2 diabetes [21]



Considerações finais

A dieta paleo é a única intervenção nutricional que, até o momento, em estudos do tipo ensaio clínico (pelo menos no curto prazo), sempre se mostrou superior a qualquer outro padrão alimentar “convencional”. E os efeitos são observados em todos os tipos de parâmetros metabólicos e de saúde: peso, gordura corporal, gordura abdominal, gordura hepática, lipídeos sanguíneos, resistência à insulina, saciedade.

Não importa muito se a dieta simula ou não simula o que as populações do período Paleolítico realmente faziam. Não interessa se o brócolis de hoje não é o mesmo que aquele consumido pelos nossos antepassados. Não deixe os críticos argumentarem de maneira falaciosa contra a dieta paleo, referindo-se ao fato de que inclusive a carne dos animais atualmente consumidos por nós é diferente daquela da época do Paleolítico.

O mais importante é o que a ciência diz, e ela mostra claramente que a dieta paleo — de acordo com os princípios preconizados — é um excelente padrão alimentar a ser seguido, principalmente para pessoas que já se encontram com sobrepeso, obesidade, síndrome metabólica ou diabetes tipo 2.






Referências

1. Whalen KA, et al. Paleolithic and Mediterranean diet pattern scores and risk of incident, sporadic colorectal adenomas. Am J Epidemiol. 2014;180(11):1088-97.

2. Smith MM, et al. Unrestricted paleolithic diet is associated with unfavorable changes in blood lipids in healthy subjects. Int J Exerc Sci. 2014;7(2):128-139.

3. Bisht B, et al. A multimodal intervention for patients with secondary progressive multiple sclerosis: feasibility and effect on fatigue. J Altern Complement Med. 2014;20(5):347-55.

4. Lindeberg S, et al. A Palaeolithic diet improves glucose tolerance more than a Mediterranean-like diet in individuals with ischaemic heart disease. Diabetologia. 2007;50(9):1795-807.

5. Österdahl M, et al. Effects of a short-term intervention with a paleolithic diet in healthy volunteers. Eur J Clin Nutr. 2008;62(5):682-5.

6. Jönsson T, et al. Beneficial effects of a Paleolithic diet on cardiovascular risk factors in type 2 diabetes: a randomized cross-over pilot study. Cardiovasc Diabetol. 2009;8:35.

7. Frassetto LA, et al. Metabolic and physiologic improvements from consuming a paleolithic, hunter-gatherer type diet. Eur J Clin Nutr. 2009;63(8):947-55.

8. Jönsson T, et al. A paleolithic diet is more satiating per calorie than a mediterranean-like diet in individuals with ischemic heart disease. Nutr Metab. 2010;7:85.

9. Ryberg M, et al. A Palaeolithic-type diet causes strong tissue-specific effects on ectopic fat deposition in obese postmenopausal women. J Intern Med. 2013;274(1):67-76.

10. Jönsson T, et al. Subjective satiety and other experiences of a Paleolithic diet compared to a diabetes diet in patients with type 2 diabetes. Nutr J. 2013;12:105.

11. Mellberg C, et al. Long-term effects of a Palaeolithic-type diet in obese postmenopausal women: a 2-year randomized trial. Eur J Clin Nutr. 2014;68(3):350-7

12. Boers I, et al. Favourable effects of consuming a Palaeolithic-type diet on characteristics of the metabolic syndrome: a randomized controlled pilot-study. Lipids Health Dis. 2014;13:160.

13. Bligh HF, et al. Plant-rich mixed meals based on Palaeolithic diet principles have a dramatic impact on incretin, peptide YY and satiety response, but show little effect on glucose and insulin homeostasis: an acute-effects randomised study. Br J Nutr. 2015;113(4):574-84.

14. Masharani U, et al. Metabolic and physiologic effects from consuming a hunter-gatherer (Paleolithic)-type diet in type 2 diabetes. Eur J Clin Nutr. 2015;69(8):944-8.

15. Pastore RL, et al. Paleolithic nutrition improves plasma lipid concentrations of hypercholesterolemic adults to a greater extent than traditional heart-healthy dietary recommendations. Nutr Res. 2015;35(6):474-9.

16. Stomby A, et al. Diet-induced weight loss has chronic tissue-specific effects on glucocorticoid metabolism in overweight postmenopausal women. Int J Obes (Lond). 2015;39(5):814-9.

17. Manheimer EW, et al. Paleolithic nutrition for metabolic syndrome: systematic review and meta-analysis. Am J Clin Nutr. 2015 [Epub ahead of print].

18. Otten J, et al. Strong and persistent effect on liver fat with a Paleolithic diet during a two-year intervention. Int J Obes (Lond). 2016;40(5):747-53.

19. Fontes-Villalba M, et al. Palaeolithic diet decreases fasting plasma leptin concentrations more than a diabetes diet in patients with type 2 diabetes: a randomised cross-over trial. Cardiovasc Diabetol. 2016;15(1):80.

20. Genoni A, et al. Cardiovascular, metabolic effects and dietary composition ad-libitum Paleolithic vs. Australian Guide to Healthy Eating diets: a 4-week randomised trial. Nutrients. 2016;8(5).

21. Otten J, et al. Effects of a Paleolithic diet with and without supervised exercise on fat mass, insulin sensitivity, and glycemic control: a randomized controlled trial in individuals with type 2 diabetes. Diabetes Metab Res Rev. 2016 [Epub ahead of print].



9 comentários:

  1. Bom dia João
    O meu nome é Ulisses, acompanho seu blog há alguns meses, gostaria de tirar uma dúvida.
    Em relação as panelas que usamos para cozinhar, vi na internet algumas pessoas dizendo que o "teflon" ou antiaderente das panelas se soltam no alimento e podem causar doenças como alzheimer, também as panelas de ferro e de alumínio soltam gases nos alimentos e prejudicam a saúde.
    Conhece algum artigo de confiança em relação a isto?
    Qual a sua opinião a respeito?
    Quais tipos de panelas seriam mais seguras?
    Grato.

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    1. Olá, Ulisses!

      Acabei de responder lá pelo Facebook. Mas segue a resposta aqui também, caso seja do interesse de mais pessoas.

      A literatura indica que o teflon, desde que permaneça intacto, é seguro. Mas se o utensílio começar a descascar, o melhor a fazer é trocá-lo.

      As panelas feitas de cobre, alumínio e ferro podem liberar os respectivos minerais, que em excesso podem causar problemas. Porém, entre esses a opção mais segura teoricamente seria o ferro, já que o nosso corpo sabe lidar melhor com o “excesso” desse mineral. Por essa mesma lógica, o cobre seria preferível ao alumínio; o cobre é um mineral considerado essencial ao organismo, assim como o ferro, enquanto que o alumínio não é.

      As de inox e cerâmica seriam, teoricamente, opções bem seguras. A princípio elas não apresentam problemas que poderiam ser diretamente relacionados aos materiais das quais elas são fabricadas.

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    2. Mais uma vez obrigado pela sua atenção!

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  2. Boa tarde João
    Recebi hoje o resultado do meu exame, estou a aproximadamente três meses consumindo ovos, carnes, queijos, manteiga e iogurte com frequência e sem comer farináceos e doces. Além de perder 8 Kg, segue o resultado:

    Glicose: 68 mg/dl
    Colesterol total: 224 mg/dl
    Triglicérides: 46 mg/dl
    HDL: 68 mg/dl
    LDL: 147 mg/dl

    Acho que estou com o perfil lipídico bom.

    Me dê sua opinião, por favor.
    Grato.

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    1. Aparentemente nada com que se preocupar, principalmente considerando que houve uma perda de peso de 8 kg. Muito bom!

      Mas vou te dar uma sugestão. O LDLc, isoladamente, não é um marcador muito bom. Se possível, tente realizar o exame da apolipoproteína B (apoB) da próxima vez. A apoB mede, de maneira aproximada, o número de partículas de LDL.

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    2. Boa tarde João!
      Farei sim, obrigado pela dica.
      Eu não citei, mas consumo verduras e legumes com frequência também, me alimento o mais próximo possível da dieta paleo, o que não me conformo é que os professores do meu curso de nutrição ainda falam que ovo aumenta o colesterol e a gordura saturada faz mal e engorda, eu pude comprovar na prática que isso é mito, além das informações que leio neste blog, no blog do Dr. Souto, e os vários artigos que falam a respeito da paleo e dietas low carb.
      Enfim, obrigado por compartilhar seu conhecimento, este blog é de grande valia para mim.
      Abraço.

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    3. Talvez demore, mas as coisas vão mudar. E é nosso trabalho, como profissionais e futuros profissionais, de fazer parte dessa mudança.

      Agradeço a leitura e fico feliz por poder contribuir!

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  3. Olá João!
    Percebi lendo os seus posts que vc é um defensor de dietas low carb. Eu concordo que essas dietas são padrão ouro para perda de peso, mas infelizmente a saúde humana não se resume a isso.
    Minha maior crítica a essas dietas é o altíssimo consumo de proteína. Já recebi mais de um paciente no consultório que eram adeptos a essas dietas e acabaram com Creatinina e ácido úrico elevados. Assim, gostaria de saber se existem estudos a longo prazo (pelo menos 2 anos) publicados em revistas decentes que garantam a segurança dessas dietas na saúde hepática e renal.
    Muito obrigado!

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    1. Olá!

      Eu não sou defensor de dietas low-carb, mas sim defensor da ciência.

      E, considerando as evidências científicas, é seguro afirmar que os benefícios das dietas low-carb não se resumem à perda de peso. Posso te assegurar que, considerando a preponderâncias das evidências, você não vai encontrar, de maneira geral, prejuízos relacionados às dietas low-carb (quando comparadas a dietas "convencionais"). Isso não necessariamente as torna melhores, até porque a individualidade de cada pessoa vai determinar o que é mais adequado pra ela.

      Creatinina elevada a princípio não é um problema, a não ser que o paciente possua algum problema renal prévio (problema esse que muito, muito provavelmente não foi/será desenvolvido por um maior consumo proteico), normalmente caracterizado por baixa filtração glomerular. Ácido úrico elevado a princípio também não é/será decorrente de um aumento na ingestão de proteína, a não ser que o indivíduo tenha uma pré-disposição. Mesmo assim, a média das pessoas não apresentar aumento nesses parâmetros quando consomem dietas low-carb, sejam essas dietas com maior ou menor teor proteico.

      Quando olhamos a literatura, temos alguns estudos de longo prazo mostrando ausência de alteração em parâmetros renais com dietas low-carb. Existem evidências de um ano de acompanhamento, com indivíduos “normais” e diabéticos tipo 2:
      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20338292
      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26632754

      E há evidências com dois anos de acompanhamento, com pessoas “normais”:
      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22653255

      A propósito, os 3 estudos foram publicados em revistas de boa qualidade, considerando a relevância em suas áreas e seus respectivos fatores de impacto.

      Além disso, se formos atrás da literatura sobre maior consumo proteico e saúde renal, independente de ser no contexto low-carb ou não, vamos continuar observando que a maior ingestão de proteínas não está relacionada ao desenvolvimento de problemas renais:
      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16174292

      Outro detalhe importante: low-carb não necessariamente é sinônimo de dieta rica em proteína. Uma pessoa leiga pode, por falta de conhecimento, achar ou naturalmente adicionar mais proteína à dieta ao adotar uma dieta low-carb (não que isso seja ruim), mas um profissional consegue ajustar isso (caso ele queira) com certa facilidade.

      Por fim, gostaria de dizer que nutrição é experimentação. Digamos que um paciente apresente eventualmente alterações teoricamente negativas em alguns marcadores, e que isso parece ser decorrente de um aumento na ingestão de proteína. Nesse tipo de situação, basta trabalhar com outro padrão alimentar ou uma proporção diferente macronutrientes -- inclusive porque, como mencionei acima, low-carb não é sinônimo de dieta rica em proteína.

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