terça-feira, 24 de março de 2015

O mito do pH: a alimentação é capaz de influenciar o pH sanguíneo? — Parte 2




No primeiro post dessa série, introduzimos o assunto ao expormos a lógica normalmente utilizada para explicar de que forma a alimentação pode modificar o pH sanguíneo, e que esse fato poderia levar a algumas consequência indesejáveis para o organismo. Foram brevemente mencionados, também, os sistemas e mecanismos que nosso organismo utiliza para regular o pH sanguíneo — consequentemente modulando, de forma adicional, o pH urinário. Por fim, foram mencionadas algumas situações clínicas e patológicas em que o pH sanguíneo do paciente pode ser reduzido, levando ao quadro de acidose metabólica.

Entretanto, ficou a dúvida se a alimentação é capaz — e de que forma — de regular o pH do sangue. Vejamos a seguir.


O efeito do consumo de alimentos "acidificantes" e "alcalinizantes" sobre o pH sanguíneo

Desde a década de 30, esse assunto já era explorado pela comunidade científica. Bischoff e colaboradores [1], em 1934, estudaram os efeitos de “cargas” de alimentos “acidificantes” e “alcalinizantes” sobre o pH sanguíneo de indivíduos saudáveis. Num primeiro momento, os participantes do estudo seguiram o seguinte protocolo: 1) Seis dias consumindo suas dietas habituais; 2) Nove dias consumindo uma dieta composta basicamente por alimentos “neutros” e também por alimentos “alcalinizantes”; 3) Nove dias consumindo uma dieta composta por alimentos “neutros” mais alimentos “acidificantes”.

Ao final desses períodos, observou-se que o pH da urina aumentou durante a fase da dieta alcalinizante e diminui na fase da dieta acidificante; entretanto, não houve qualquer alteração no pH do sangue durante todo o período de 9 dias de qualquer uma das dietas — apenas variações naturais dentro da faixa de pH de 7,35 a 7,45. Além disso, as concentrações de bicarbonato (BHCO3), um marcador do poder alcalinizante do sangue, permaneceram iguais quando comparadas as diferentes dietas. Os resultados podem ser observados na figura abaixo.


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Num segundo experimento, ainda no mesmo estudo [1], os pesquisadores testaram o efeito de “cargas” ainda maiores de alimentos teoricamente acidificantes sobre o pH sanguíneo. Dessa vez, a dieta continha frango, presunto, cérebro, carne bovina e ovos, totalizando o equivalente ácido a 1,36 kg de carne bovina magra. Novamente, mesmo com uma “carga” ácida muita acima do que um indivíduo normal consegue consumir, não houve alterações no pH sanguíneo. Os resultados estão na figura abaixo. Vale ressaltar que esse experimento em particular foi conduzido em apenas um indivíduo; de qualquer maneira, ainda é uma evidência importante, a qual, associada aos demais dados apresentados aqui nesse texto, vai apontar para uma mesma conclusão.


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Ainda, um terceiro experimento foi conduzido pelos mesmos pesquisadores [1]. Nele foram testadas uma condição em que o pH sanguíneo teoricamente seria reduzido (consumo de 450 g de carne bovina), uma condição “neutra” (consumo de 950 mL de leite) e duas condições em que o pH do sangue teoricamente seria aumentado (ingestão de 450 g de bananas e 950 mL de suco de laranja). Apesar de haver leves variações nas concentrações plasmáticas de bicarbonato, todas elas foram flutuações naturais que podem acontecer. Mais importante do que isso, não houve qualquer modificação relevante no pH sanguíneo, seja com o consumo de alimentos “acidificantes” ou “alcalinizantes”. (A tabela com esses resultados é muito extensa, ocupa uma página completa do artigo; se alguém tiver interesse, pode solicitar que eu envio o artigo completo). Assim, estima-se que, para que esses alimentos fossem capazes de realmente modificar o pH sanguíneo, seria necessária a ingestão de mais de 8 kg de laranja para que houvesse um aumento de 0,2 unidades no pH, ou um consumo de mais de 2 kg de carne para que o pH fosse reduzido em 0,2 unidades [2].

Em outro estudo [3], os pesquisadores dividiram os participantes em quatro grupos, dois deles com dietas normais (normal; N) e dois outros com dietas com redução de carboidratos (low-carb; L). Um dos grupos com dieta N recebeu suplementação de CaCO3 (carbonato de cálcio, um agente acidificante), enquanto o outro grupo com dieta N recebeu suplementação de NaHCO3 (bicarbonato de sódio, um agente alcalinizante). O mesmo aconteceu com os grupos L. Assim, ao final tivemos os seguintes grupos:

A) N + CaCO3
B) N + NaHCO3
C) L + CaCO3
D) L + NHCO3

O objetivo de incluir uma dieta low-carb é que esta continha uma quantidade de proteína consideravelmente superior à dieta normal (aproximadamente 250 g x 110 g, respectivamente). Isso, portanto, significaria uma “carga” ácida superior, possivelmente resultando em alterações no equilíbrio ácido-base. Após 3 dias de dieta e suplementação, foram obtidos os seguintes resultados para o pH sanguíneo:


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Pode-se observar que houve uma tendência de redução no pH do grupos com dietas low-carb (L), principalmente na presença do carbonato de cálcio (L + CaCO3), que, pela sua capacidade de aumentar a concentração sanguínea de CO2, pode funcionar como um agente acidificante. Entretanto, mesmo quando houve diferença estatística entre os grupos de dieta low-carb (L) e os grupos de dieta normal (N), é possível observar que todos os valores de pH encontram-se dentro da faixa de normalidade que já mencionamos diversas vezes.

Mais um estudo [4]: pacientes saudáveis e pacientes com doença renal crônica foram submetidos a uma “carga” de proteína para se testar o efeito da intervenção sobre o pH sanguíneo e outros parâmetros do equilíbrio ácido-base.

Primeiramente, é importante ressaltar que pacientes com doença renal crônica, devido aos contínuos e severos danos aos quais os rins são submetidos, possuem uma função consideravelmente prejudicada desse órgão, resultando numa menor taxa de filtração glomerular (velocidade na qual o rim consegue filtrar o sangue) e, consequentemente, numa maior suscetibilidade à acidose metabólica [5].

A “carga” de proteína foi ofertada aos indivíduos, saudáveis ou com doença renal crônica, na forma de carne vermelha. Não sabemos ao certo a quantidade que foi oferecida, já que os autores do estudo não informaram esse dado; entretanto, os pesquisadores citam outro estudo no qual a quantidade de carne consumida pelos participantes foi demonstrada em maximizar a taxa de filtração glomerular [4]. Em outras palavras, isso significa dizer que a proteína total presente nessa quantidade ofertada de carne vermelha foi suficiente para que o corpo atingisse sua capacidade máxima de trabalho nos rins. Por esse motivo, mesmo sem termos um número exato, é razoável presumirmos que a quantidade de carne consumida foi bem considerável.

Aqui estão os resultados para os indivíduos saudáveis:


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E para os indivíduos com doença renal crônica:


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Foi verificado que não houve qualquer alteração no pH sanguíneo dos indivíduos saudáveis que receberam a “carga” de proteína. Além disso, também não houve qualquer alteração do bicarbonato (HCO3) no sangue — na verdade, houve até uma tendência de aumento no bicarbonato, o que significaria maior capacidade alcalinizante. O pH da urina até aumentou (!), sugerindo, inclusive, que o consumo de apenas uma refeição — mesmo rica em alimentos “acidificantes” — nem sempre é capaz de reduzir o pH da urina, justamente porque pode haver uma rápida resposta fisiológica no sentido de aumentar a produção e reabsorção de bicarbonato para impedir que o pH do sangue se altere (o que é corroborado pelo aumento marginal do bicarbonato sanguíneo) [6]. Como mencionado pelos autores do estudo, de fato houve um aumento expressivo na taxa de filtração glomerular (GFR), o que sugere que a carga de proteína foi elevada, aumentando o trabalho dos rins imediatamente após o consumo da carne.

Ainda mais impressionantes foram os resultados observados para o grupo com doença renal crônica. Primeiro, é importante perceber a diferença na capacidade funcional dos rins quando comparamos esses pacientes aos indivíduos saudáveis. A taxa de filtração glomerular basal dos pacientes com doença renal crônica foi de 39,9 mL/min x 1,73 m2, enquanto que a dos indivíduos saudáveis foi de 98,5 (mais que o dobro!). De forma semelhante, a taxa de filtração glomerular máxima dos pacientes renais foi de 52,7, cerca de 2,5 vezes menor que o valor de 125,0 obtido para o grupo saudável. Em todo caso, o resultado mais interessante foi o de que o pH sanguíneo desses pacientes renais crônicos também não foi alterado com a “carga” de proteína!


E o que acontece se um animal ingerir ácidos (sim, ácidos) diretamente adicionados à dieta?

Por questões éticas, obviamente não temos estudos assim em humanos, mas temos um em ratos [7]. E, querendo ou não, é um estudo bem interessante. Num primeiro experimento, os pesquisadores dividiram os animais em 4 grupos diferentes:

A) Dieta controle
B) Dieta controle + HCl (280 mmol/kg de ração)
C) Dieta controle + HCl (420 mmol/kg de ração)
D) Dieta controle + HCl (560 mmol/kg de ração)

Fazendo as devidas conversões, o ácido clorídrico (HCl) adicionado às dietas corresponde a 10,2 g/kg (dieta B), 15,3 g/kg (dieta C) e 20,4 g/kg (dieta D). Como a ingestão média diária de ração, nesses ratos, foi de 14,5 g/dia, isso significa que cada animal ingeriu em média 0,15 g, 0,22 g e 0,30 g de HCl por dia, nas dietas B, C e D, respectivamente.

O suco gástrico liberado nos estômago de humanos, principalmente para a digestão de proteínas da dieta, é principalmente composto por Hcl. Assim, para termos uma vaga ideia da comparação, um humano saudável produz cerca de 3 litros de suco gástrico por dia, o qual possui uma concentração de 160 mEq/L de HCl (ou 320 mmol/L) [8], correspondendo ao total de 25,5 g ou 960 mmol de HCl nos 3 litros de suco gástrico. Sinceramente desconheço a quantidade total de secreção gástrica de um rato, assim como a concentração de HCl contida nesse fluido. Porém, se considerarmos a mesma proporção de produção de suco gástrico e HCl, e também que um humano consome cerca de 2,0 kg de comida por dia, é possível estimar que o rato — baseando-se na quantidade de 14,5 g/dia de ração — produz cerca de 0,18 g ou 6,78 mmol de HCl por dia.

Ressalto que essas projeções são grosseiras. Entretanto, o que quero mostrar aqui é que os ratos do estudo ingeriram uma quantidade bem considerável de ácido clorídrico (HCl) em cada uma das dietas do experimento (B, C e D), se compararmos esse consumo à estimada produção natural de HCl pelo estômago desses animais.

Voltando ao estudo, após 7 semanas de consumo das dietas contendo HCl, os resultados obtidos foram os seguintes:


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É possível perceber, primeiro, que a adição de HCl às dietas reduziu de forma significativa, e proporcionalmente, o pH das dietas — o que era de se esperar. Entretanto, apesar de a quantidade ingerida de ácido clorídrico ter sido relativamente elevada, o pH sanguíneo dos animais não foi alterado.

No segundo experimento do mesmo estudo [7], os ratos foram divididos em grupos de forma semelhante ao primeiro experimento, mas recebendo concentrações superiores de HCl adicionado às suas dietas:

A) Dieta controle
B) Dieta controle + HCl (312 mmol/kg de ração)
C) Dieta controle + HCl (625 mmol/kg de ração)
D) Dieta controle + HCl (937 mmol/kg de ração)
E) Dieta controle + HCl (1250 mmol/kg de ração)

Não vou fazer a conversão do HCl para gramas, mas é possível notar que as dietas C, D e E desse segundo experimentos apresentaram quantidades de HCl superiores a qualquer uma das dietas ofertadas no primeiro experimento. Ou seja, eram dietas extremamente ácidas. E isso é verdade porque todos os ratos que receberam as dietas D e E morreram antes do experimento ser completado. Por outro lado, os animais que ingeriram a dieta C, apesar da concentração de HCl superior às das demais dietas do experimento 1, toleraram bem a dieta e sobreviveram.

Aqui estão os resultados do experimento 2:


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Nesse segundo experimento, houve redução do pH sanguíneo em ambos os grupos que tiveram HCl adicionado à dieta e que foi possível mensurar essa variável (grupos B e C). Se compararmos aos resultados do experimento 1, temos resultados conflitantes: os ratos que ingeriram as dietas com concentrações de HCl de 420 e 560 mmol/kg não tiveram redução no pH sanguíneo (experimento 1), enquanto que os animais que receberam a dieta com HCl na concentração de HCl de 312 mmol/kg apresentaram redução no pH (experimento 2). O tempo de consumo da dieta do experimento 1 foi de 7 semanas, mas no experimento 2 esse tempo foi de 9 semanas; assim, é possível que o maior tempo de ingestão da dieta tenha sido responsável pela redução no pH da dieta de 312 mmol/kg.

Além disso, os animais do experimento 2 eram adultos, enquanto que aqueles do primeiro experimento eram filhotes; considerando essas condições, é possível que a diferença na idade dos ratos exerça algum tipo de influência na regulação do pH sanguíneo a essas cargas de ácido. No entanto, a não ser que esses experimentos sejam replicados, controlando-se as variáveis mencionadas, não temos como saber ao certo as possíveis explicações para os resultados conflitantes.

Diferentemente das situações apresentadas nesses últimos experimentos descritos, nenhum ser humano em sã consciência vai ingerir uma quantidade de HCl equivalente ou maior à sua própria produção natural (pelo que estimamos nos cálculos acima, é bem possível que a quantidade ingerida de HCl pelos ratos, em suas dietas experimentais, tenha sido equivalente ou superior à quantidade de ácido clorídrico que esses animais produzem pelo próprio estômago).

De qualquer maneira, os resultados do experimento 3 — ainda do mesmo estudo [7] — vão de encontro com aqueles encontrados no experimento 1. Durante 12 semanas, foram ofertadas aos ratos dietas adicionadas de HCl (ácido clorídrico) ou dietas adicionadas de ácido lático. Diferentemente do HCl, o ácido lático é uma substância que naturalmente encontra-se presente no sangue, uma vez que é produzida a partir do metabolismo da glicose. Apesar disso, é uma molécula capaz de contribuir para a indução da acidose, com níveis de pH sanguíneo abaixo da faixa ideal (7,35 a 7,45), como, por exemplo, no caso de atividades físicas mais intensas [9].

Portanto, foram dois conjuntos de 4 dietas:

A) Dieta controle
B) Dieta controle + HCl (300 mmol/kg de ração)
C) Dieta controle + HCl (600 mmol/kg de ração)
D) Dieta controle + HCl (900 mmol/kg de ração)

E) Dieta controle
F) Dieta controle + Ácido Lático (300 mmol/kg de ração)
G) Dieta controle + Ácido Lático (600 mmol/kg de ração)
H) Dieta controle + Ácido Lático (900 mmol/kg de ração)

Os resultados encontram-se na tabela:


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Como pode ser observado, a concentração de HCl de 600 mmol/kg dessa vez não resultou em qualquer alteração no pH sanguíneo, mesmo sendo consumida por 12 semanas. O HCl na concentração de 900 mmol/kg resultou, em números absolutos, numa redução do pH; entretanto, não houve diferença estatística (o que pode ter acontecido pelo fato de que 3 animais nesse grupo morreram, diminuindo o poder estatístico de comparação para o grupo).

Em relação às dietas adicionadas de ácido lático, uma simples comparação das proporções das concentrações desse ácido nos revela que os animais ingeriram, diariamente, aproximadamente 4,6 mmol, 9,2 mmol e 13,8 mmol de ácido lático nas dietas B, C e D, respectivamente. Enquanto isso, o sangue humano normalmente não passa de uma concentração total de 13 mmol (considerando a média de 6 litros de sangue no corpo inteiro). Ou seja, mesmo nessas concentrações elevadas de ácido lático, os animais não apresentaram qualquer alteração no pH sanguíneo.


Considerações finais

As evidências científicas apresentadas nesse texto são suficientes para demonstrar que a alimentação não é capaz de alterar o pH sanguíneo. Se alguém tiver alguma evidência de que é possível modular o pH do sangue através da dieta, por favor compartilhe! Por outro lado, foi possível observar, em praticamente todos os exemplos, que o pH da urina é facilmente modificado pela alimentação.

Não que a alteração do pH urinário não seja importante. Esse indicador é, de fato, relevante em alguns casos mais específicos — como em indivíduos que possuem elevação nos níveis de ácido úrico ou que têm predisposição à formação de cálculos (pedras) nos rins. Teremos a oportunidade de explorar esses tópicos futuramente.

Mas, se nem mesmo a ingestão direta de concentrações elevadas de ácido (sim, ácido) é capaz de reduzir o pH sanguíneo, é praticamente inconcebível achar que a alimentação — que possui uma carga ácida bem inferior — poderia modificar esse parâmetro de forma significativa.

De qualquer maneira, alguém pode usar o seguinte argumento: “Ah, o pH sanguíneo não sai da faixa de 7,35-7,45, mas as pequenas reduções de pH que vão acontecendo de forma crônica com alimentos 'acidificantes' levarão, de qualquer maneira, aos prejuízos relacionados à acidificação do sangue — como a perda de cálcio e consequente desmineralização óssea  porque o corpo se desequilibra em outros aspectos para manter equilibrada essa faixa de pH sanguíneo”.

É um argumento válido, e por isso, no próximo (e último) post dessa série, serão abordados os efeitos que as dietas “acidificantes” possuem sobre parâmetros de saúde, principalmente sobre o metabolismo ósseo.


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Posts da série:


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Referências

1. Bischoff WD, et al. The effect of acid ash and alkaline ash foodstuffs on the acid-base equilibrium of man. J Nutr. 1934;7(1):51-65.

2. Tobey JA. The question of acid and alkali forming Foods. Am J Public Health Nations Health. 1936;26(11):1113-6.

3. Ball D, et al. The acute reversal of a diet-induced metabolic acidosis does not restore endurance capacity during high-intensity exercise in man. Eur J Appl Physiol Occup Physiol. 1996;73(1-2):105-12.

4. de Santo NG, et al. Effect of an acute oral protein load on renal acidification in healthy humans and in patients with chronic renal failure. J Am Soc Nephrol. 1997;8(5):784-92.

5. Goraya N, Wesson DE. Does correction of metabolic acidosis slow chronic kidney disease progression? Curr Opin Nephrol Hypertens. 2013;22(2):193-7.

6. Koeppen BM. The kidney and acid-base regulation. Adv Physiol Educ. 2009;33(4):275-81.

7. Upton PK, L’Estrange JL. Effects of chronic hydrochloric and lactic acid administrations on food intake, blood acid-base balance and bone composition of the rat. Q J Exp Physiol Cogn Med Sci. 1977;62(3):223-35.

8. Guyton AC, Hall JE. Textbook of medical physiology. 11 ed. Philadelphia: Elsevier Saunders, 2006.

9. Ball D, Maughan RJ. The effect of sodium citrate ingestion on the metabolic response to intense exercise following diet manipulation in man. Exp Physiol. 1997;82(6):1041-56.



28 comentários:

  1. Amigo, o Lair Ribeiro em momento algum diz que a alimentação influencia o PH do sangue, este sempre permanece em homoestase, senão morreríamos, rs

    Ele diz que uma alimentação ácida favorece um corpo ácido e que por isso seria melhor priorizar alimentos alcalinizantes, apenas isso.

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    1. Olá, Sergio.

      Sugiro que você estude um pouco antes comentar aqui no blog. "Corpo ácido" significa que o pH sanguíneo tornou-se ácido em algum momento. Ou seja, se uma "alimentação ácida" tornou o "corpo ácido", isso significa que a alimentação influenciou o pH sanguíneo; significa que a alimentação reduziu o pH sanguíneo.

      Mesmo que corpo ficasse "ácido" sem que o sangue ficasse "ácido" (o que é impossível), não existe nenhuma evidência científica de que isso causa malefícios à saúde.

      Bons estudos.

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    2. João Gabriel, boa tarde.
      Sou uma prova viva sobre essa questão, fiz questão de mudar minha dieta, após descobrir que estava com câncer de mama, antes comia de tudo sem restrições, carnes principalmente, refrigerantes, entre outros, Com a alimentação vegetariana restrita e viva que é alcalinizante, só me trouxe benefícios, as arlegias foram embora, não sei o que é uma dor de cabeça, gripe passa longe, os exames de marcadores tumorais estão dando normais há 03 anos desde quando começei o tratamento.Li o livro do Dr. Alberto Gonzalez Peribanez que tem doutorado em microcirculação em medicina pela universidade Alemã. Através dos seus artigos científicos, que não são poucos, contradiz, tudo isso que é abordado aí. Acho que vc assim como eu, devemos estudar um pouco mais.

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    3. Olá, Myleni.

      Vou citar quatro pontos que enfraquecem de forma bastante considerável o seu argumento, principalmente de que você seria uma "prova viva" disso. Porém, recomendo ler até o final, pois vou falar do que realmente importa em toda essa discussão.


      1) Você, pelo visto, foi meio que da água pro vinho. Trocar uma alimentação "sem restrições" que inclui refrigerantes por outra que contém apenas alimentos não processados é um salto de qualidade gigantesco, independentemente se os alimentos não processados da nova dieta são majoritariamente de origem animal ou vegetal.

      2) Mesmo deixando de lado a questão qualitativa, você fez inúmeras modificações de uma vez só na sua dieta. Além disso, os vários novos alimentos incluídos podem exercer benefícios por meio de uma série de mecanismos distintos. Por esses motivos, de forma alguma dá pra afirmar que os benefícios que você relata foram decorrentes de alterações no pH sanguíneo (ou no pH do organismo). Ao contrário, considerando que a soma de outros mecanismos é muito maior do que os efeitos por meio de alterações no pH sanguíneo (que é apenas um mecanismo), é muito mais provável que os benefícios sejam decorrentes de outras causas.

      3) Você está partindo do pressuposto que a sua dieta e outras dietas vegetarianas/veganas são capazes de alterar o pH sanguíneo (ou do corpo). Porém, isso nunca foi diretamente demonstrado. Pelo contrário (como mostrei nessa série sobre pH): a literatura científica sugere que isso dificilmente aconteceria por meio da alimentação apenas.

      4) Mesmo que tenha funcionado pra você, de forma alguma isso é "prova" de que daria certo para outras pessoas. Apenas ensaios clínicos randomizados, duplo-cego e controlados são capazes de chegar a conclusões de causa e efeito sobre intervenções nutricionais.


      De qualquer maneira, essa nem é a questão mais importante. O "porquê" de um padrão alimentar X ou Y funcionar não é o que é verdadeiramente relevante. O que mais importa, no fim das contas, é se funciona ou não, se traz benefícios ou não.

      Ou seja, se esse padrão alimentar foi bom pra você, ótimo. Continue com ele até que ele faça sentido e traga bons frutos pra você. Até porque, especificamente para o seu padrão alimentar -- como já mencionei em outros comentários de outros textos aqui no blog --, há várias razões para acreditar sim que ele pode trazer inúmeros benefícios.

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  2. João Gabriel, parabéns pelo seu trabalho aqui. Está excelente!!

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    1. Muito obrigado pela leitura e pelo elogio, Jane!

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  3. Muito bom!!! Parabens, muito bom tema e muito bem escrito!!!

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  4. Ótimo artigo Gabriel, estou pesquisando exatamente sobre isso. Se você tiver artigos também em português e puder me enviar eu agradeço
    arlinda.nutri@uol.com.br
    Obrigada
    Parabéns

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    1. Olá, Arlinda.

      Infelizmente desconheço de artigos científicos publicados em português que tratam desse tema. Porém, caso precise de qualquer um dos estudos que citei nessa série de posts, é só entrar em contato comigo por e-mail.

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  5. Não seria interessante fazer uma medição também do PH da urina e da saliva? Afinal, o PH da urina, por exemplo, costuma variar, ao contrário do do sangue, o qual é estritamente regulamentado pelo próprio organismo, visto que um PH de 6,9, por exemplo, já é muito perigoso para o ambiente sanguíneo?

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    1. Olá, Elisa.

      Não só é interessante como alguns estudos medem o pH da urina (saliva é bem menos comum). E, realmente, o pH da urina pode variar bastante com a alimentação. Porém, os estudos que medem o pH da urina normalmente trabalham com doenças e problemas relacionados aos rins ou à excreção ou reabsorção de algumas substâncias ou compostos.

      De qualquer maneira, vale ressaltar que o objetivo dessa série de textos não foi falar de pH urinário, e nem dos problemas ou benefícios associados com a variação desse pH, mas sim sobre pH sanguíneo, acidificação metabólica e problemas relacionados.

      Ao contrário do que acontece com o pH sanguíneo, que alimentos e a alimentação em geral não são capazes de alterar -- e também não estão relacionados a doenças crônicas --, a história com pH urinário é um pouco diferente. Não que a acidificação urinária seja prejudicial ou que seja a responsável por causar doenças específicas, mas existem algumas evidências mostrando que possuir uma urina mais alcalina pode ajudar com alguns problemas, como ácido úrico elevado.

      Os estudos ainda possuem limitações no sentido de não permitir concluir se os possíveis benefícios são provenientes da alcalinização do pH urinário ou de compostos e substâncias específicos que estão presentes nos alimentos que são utilizados para modular esse pH urinário. De qualquer forma, é sempre bom mencionar que, mesmo que qualquer benefício, em qualquer problema de saúde, seja decorrente da alcalinização do pH urinário, isso não necessariamente significa dizer que foi uma acidificação urinária prévia que causou o problema.

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  6. Boa tarde João Gabriel,

    Ótimo texto, muito bem escrito, parabéns. Também gostei muito das defesas dos questionamentos, muito bem explicado. Ganhou mais um seguidor;

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  7. Amei ! Comprovação científica pra mim é fundamental! 🤔😂

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  8. Olá João Gabriel, tudo bem? Eu amei essa série de textos que foram muito bem escritos, aliás, excelentes. O mais importante de tudo foram as fontes de onde foram embasado os fatos. Se for possível, gostaria que enviasse os artigos para o meu e-mail e outros se tiver sobre essa mesma temática. Parabéns e muito obrigado! Abraços.

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  9. Marco Antonio Manes15 de dezembro de 2016 10:17

    Caro João Gabriel,meu nome é Marco Antonio Manes.Primeiramente,permita-me elogiar os dados fornecidos em seus posts.Realmente a conclusão que tiramos é que dificilmente o PH sanguinio seja alterado pela alimentação.PORÉM, talvez o problema resida não na acidificação provocada pela alimentação e sim no trabalho que o corpo precisa ter para manter o PH constante e nos recursos que precisa utilizar para isto ,como por exemplo, abrir mão de parte do cálcio para poder fazer o tamponamento, e do trabalho a mais que os rins precisam ter para ajudar neste tamponamento.
    Daí concluimos: uma alimentação acidificante é prejudicial ao organismo, não porque altere o PH sanguínio ,mas porque exige do corpo que ele gaste seus recursos ,para manter sua homeostase

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    1. Olá, Marco.

      Essa possibilidade que você e outros leitores já levantaram -- de o problema não estar na acidificação do pH em si, mas sim no trabalho que organismo tem em manter esse pH dentro da faixa adequada -- pode ser tranquilamente refutada pelos estudos que citei na parte 3 dessa série sobre pH.

      Lá, falei sobre os trabalho que testaram diretamente o efeito de dietas ricas em proteínas (dietas "acidificantes") sobre a densidade e saúde óssea em seres humanos. A maioria dos ensaios clínicos mostra efeitos neutros, mas alguns deles mostram MELHORA da saúde óssea nos participantes. Ao contrário, nenhum dos estudos mostrou efeitos negativos dessas dietas.

      Ou seja, fica claro que o corpo não está tirando cálcio dos ossos para manter o pH sanguíneo dentro do intervalo adequado. E isso sugere não só que a saúde óssea não é afetada, mas também que outros sistemas corporais provavelmente estarão seguros.

      Porque os sistemas naturais de tamponamento do corpo são muito competentes. São necessárias desregulações muito fortes para que haja uma descompensação no pH, como em casos de cetoacidose diabética ou acidose lática.

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  10. Valeu João,na verdade eu estava um pouco preocupado porque tenho consumido bastante vegetais fermentados(fermentação lática) e eles ficam bem ácidos devido ao ácido lático gerado na fermentação (Meus avós faziam isto na Itália),Vc
    conhece algum estudo do efeito deste produto em nosso organismo? O fato é que me sinto bem ,até meu cachorro
    (o moleque) manda ver quando misturo estes vegetais em sua ração.

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    1. Marco, especialmente em pessoas que já apresentam alguma desregulação metabólica, como resistência à insulina, diabetes ou síndrome metabólica, já foi demonstrado que alimentos fermentados podem ajudar no controle da glicemia, da insulinemia e no perfil lipídico, especialmente dos triglicerídeos.

      Isso sugere que os alimentos fermentados possuem um papel interessante na regulação geral da saúde metabólica, ao mesmo tempo em que parece não levar a nenhum efeito adverso.

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    2. Muito boa essa explicação, gostaria também de adicionar que o cacau em pó, bem como o chocolate, são alimentos fermentados, uma vez que são produzidos apartir das amendoas fermentadas do cacau (também chamadas de nibs de cacau). Um artigo publicado cerca de 15 anos atrás pelo Departamento de Nutrição da Universidade da California com o título "Physiological Importance of Quinoenzymes and the O-Quinone Family of Cofactors" mostra uma analise dos componentes do cacau em pó feito com cacau fermentado, e mostra que ele é bastante nutritivo, sendo rico em folato, riboflavina, Vitamina B6, quantidades significativas de Vitamina B12 e ainda possui cerca de 72 vezes mais pirroloquinolina quinona (PQQ) que o ovo (isso é cerca de 5 vezes mais que o leite materno).

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  11. Parabéns pelo texto, João Gabriel.
    Seu trabalho é maravilhoso.
    Continue assim, a desmascarar pseudocientistas com suas dietas mágicas.

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  12. E sobre o limão? Não encontrei citação do limão nem nos estudos e nem no texto. Estranhei sendo este o agente de tamponamento mais bem aceito.

    Além disso, reparei que os estudos foram realizados por curtos períodos, 20-30 dias, até 7 semanas. A informação que tenho é que o organismo consegue manter o pH do corpo com essas dietas por longos períodos, mas com o passar dos meses essa manutenção vai ficando cada vez mais difícil e danosa ao organismo. Sabendo que a alimentação do brasileiro é de caráter ácido, e levando em conta os períodos em anos deste tipo de dieta, nota-se que os estudos tem janelas muito curtas para tais afirmações. Me parece que o correto seria afirmar que o pH do sangue não sofre alteração com dietas ácidas em períodos de até 2 meses, mas que não possui dados sobre períodos excedentes.

    Já vi exame com pH sanguíneo pouco acima do 5, e que teve normalização em apenas duas semanas com inclusão de suco de um limão diluído em água pela manhã e meio à noite na dieta além da retirada de frituras da dieta (que, no caso, era a base da alimentação do paciente).


    Mas minha dúvida mesmo é outra: O que pensar sobre a cetogênica e alcalina (com uso do limão) para prevenção do câncer e ativação da epigenética?

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    1. Olá, Luís.

      O limão é o alimento mais bem aceito como agente tamponante só pelo conhecimento popular. Porque não existem estudos mostrando que o limão em si exerceria um efeito direto sobre o pH sanguíneo.

      Os estudos citados no texto são basicamente todos que já foram feitos. Seria realmente melhor se tivéssemos trabalhos de mais longo prazo, mas esse não é o caso. Inclusive, afirmar que "com o passar dos meses essa manutenção vai ficando cada vez mais difícil e danosa ao organismo" não é correto, justamente porque esse tipo de colocação não é baseada em evidências científicas: como poderia ser baseada em evidências, se estudos de mais longo prazo nunca foram feitos?

      "Me parece que o correto seria afirmar que o pH do sangue não sofre alteração com dietas ácidas em períodos de até 2 meses, mas que não possui dados sobre períodos excedentes". Sim, isso é verdade. Mas a questão é a seguinte: a regulação do pH sanguíneo é algo que, quando afetada, ocorre de maneira aguda. Tanto é que outros agentes, como o bicarbonato de sódio, quando administrados em doses suficientes, alteram o pH sanguíneo em questão de minutos ou horas. Se fosse para a alimentação alterar o pH do sangue, algumas semanas ou meses provavelmente ("provavelmente" porque não tem como afirmar com 100% de certeza) seriam suficientes para ver mudanças.

      Você tem certeza que viu exames com pH sanguíneo de 5? Não foi pH urinário? Pergunto isso porque a medição do pH sanguíneo é algo bem raro de acontecer. Se for pH urinário, duas coisas importantes devem ser ressaltadas: 1) sim, a alimentação é capaz de modificar o pH urinário; 2) mudanças no pH urinário não significam mudanças no pH sanguíneo.

      Em relação à sua dúvida, não dá para falar sobre "ativação epigenética" em muitos detalhes. Porque o espaço aqui é muito pequeno para tratar de um tema extremamente complexo. O que eu posso falar é que já existem trabalhos mostrando o efeito de corpos cetônicos sobre vias de regulação epigenética, como a inibição da deacetilação de histonas:

      https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24140022

      No câncer, as evidências ainda são muito preliminares, mas já existem alguns estudos, inclusive com seres humanos, mostrando que as dietas cetogênicas podem ser, no mínimo, coadjuvantes de outros tratamentos.

      Desconheço de estudos de intervenção testando o efeito de dietas “alcalinas" nesses contextos que você perguntou. Até onde sei, as evidências disponíveis para esse tipo de alimentação seriam todas de estudos observacionais. No caso, elas levantam a hipótese de que as dietas “alcalinas" podem ter um papel importante também. Não necessariamente pelo efeito no pH sanguíneo ou no pH de outros fluidos corporais, mas sim mais provavelmente pelos nutrientes e compostos bioativos presentes nos alimentos "alcalinizantes".

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