terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Como sua dieta potencialmente afeta sua disposição




Quem nunca sentiu aquela vontade de dormir algum tempo após o almoço? E aquela sensação de preguiça ou moleza?

Entre os diversos fatores que provavelmente regulam essas sensações, um deles parece ser a composição nutricional da dieta e das refeições. E a ciência vem demonstrando isso. O estudo em questão vai além desse assunto, mas traz informações muito interessantes para essa temática.


O estudo

Pesquisadores dos Estados Unidos testaram, em indivíduos obesos, o efeito de dietas com diferentes composições nutricionais sobre a “disponibilidade de energia”, durante uma fase de manutenção de peso subsequente à perda de peso [1].

Nesse contexto, a disponibilidade de energia corresponde basicamente à capacidade que organismo terá de produzir energia a partir dos substratos energéticos que estão disponíveis na circulação sanguínea.

Os participantes receberam três dietas diferentes:

1) LF: low-fat (pobre em gorduras, rica em carboidratos)
2) LGI: low glycemic index (equilibrada, baixo índice glicêmico)
3) VLC: very low-carb (pobre em carboidratos, rica em gorduras)

A composição nutricional de cada dieta foi:


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Num primeiro momento, os participantes receberam uma dieta hipocalórica, padronizada e balanceada, até atingirem uma perda de peso equivalente a 10-15% do peso inicial de cada participante. Após esse período, os indivíduos receberam as dietas experimentais (LF, LGI e VLC) durante um período de 4 semanas. O estudo teve um desenho metodológico do tipo cruzado, considerado padrão-ouro entre os ensaios clínicos.

Para avaliarem a “disponibilidade de energia”, os pesquisadores mediram a resposta que cada dieta proporcionou sobre os níveis de glicose, ácidos graxos livres e beta-hidroxibutirato (um corpo cetônico).

Esses três compostos são todos substratos energéticos, que podem ser gerados de formas e em quantidades variadas, dependendo da composição nutricional da dieta. Ácidos graxos são os componentes estruturais básicos das gorduras, enquanto que os corpos cetônicos (entre eles o beta-hidroxibutirato) são subprodutos do metabolismo dos ácidos graxos, normalmente produzidos quando a ingestão de carboidratos da dieta é baixa.

Para calcular a “disponibilidade de energia”, foram medidas a concentração pós-prandial (após a refeição) de cada um dos três substratos energéticos, multiplicando-se essas quantidades pelo valor energético produzido por cada substrato.
  • Glicose = 4 kcal/g
  • Ácidos graxos = 9 kcal/g
  • Beta-hidroxibutirato = 4,2 kcal/g

De maneira geral, para facilitar o entendimento, quanto maior for a quantidade de carboidratos na dieta, maior será a tendência de ter mais glicose no sangue e menos ácidos graxos livres e menos beta-hidroxibutirato. Ao contrário, quanto menor for a quantidade de carboidratos na dieta, maior será a tendência de ter mais ácidos graxos livres e mais beta-hidroxibutirato.


Os resultados

Como pode ser visto na figura abaixo, a disponibilidade de energia foi igual entre todos os grupos na fase inicial (até 150 minutos), mas foi diferente na fase final das mensurações (180-300 minutos). A linha continua mais escura corresponde ao grupo LF (low-fat: dieta pobre em gordura e rica em carboidratos), que foi justamente o grupo que apresentou menor disponibilidade de energia ao final do experimento. Não houve diferença na disponibilidade de energia entre os grupos LGI e VLC, mas ambos foram melhores que o grupo LF.


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Além da maior disponibilidade de energia, o grupo VLC (very low-carb: dieta pobre em carboidratos e rica em gordura) ainda apresentou, ao final dos 300 minutos (5 horas) a maior taxa metabólica pós-prandial entre todos os grupos experimentais, como pode ser observado na figura abaixo. Isso significa que esses participantes estavam gastando mais energia após o consumo da refeição VLC do que das refeições LGI ou LF.


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Mesmo o grupo LGI consumindo menos carboidratos que o grupo LF, e o grupo VLC ingerindo ainda menos carboidratos que os demais grupos, todos os grupos tiveram o mesmo nível de glicose sanguínea ao final do experimento. O pico de glicose após 30 minutos de ingestão das refeições foi proporcional à quantidade de carboidratos de cada dieta, ou seja, maior no grupo LF, intermediário no grupo LGI e menor no grupo VLC — o que era completamente esperado. Assim, percebe-se que a dieta VLC foi a que manteve de maneira mais estável os níveis de glicose no sangue. E, diferentemente do que muita gente pensa, não vai “faltar” glicose no sangue para quem segue uma dieta reduzida em carboidratos.


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Os níveis de ácidos graxos livre e de beta-hidroxibutirato também, como esperado, foi inversamente proporcional à quantidade de carboidratos na dieta. Por isso, é possível observar, na figurada abaixo, que a dieta que proporcionou maiores níveis desses substratos energéticos ao longo de todo o experimento foi a dieta VLC, seguida da LGI e da LF.


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Por fim, não houve diferença entre os grupos para a sensação de fome:


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Considerações finais

Apesar de não terem sido observadas diferenças na sensação de fome entre as dietas exploradas nesse estudo, é possível imaginar que a menor disponibilidade de energia decorrente de uma dieta low-fat (rica em carboidratos, pobre em gorduras) pode sim levar a um quadro que estimula o consumo alimentar no longo prazo.

Além disso, a menor disponibilidade de energia muito provavelmente influencia a disposição geral do indivíduo, impactando diretamente na qualidade de vida e na sensação de bem-estar. Não é à toa que pessoas que seguem dietas low-carb — não necessariamente com restrições muito severas de carboidratos — normalmente relatam melhora na disposição, redução no cansaço e menos sonolência após as refeições.

De forma semelhante, a maior taxa metabólica pós-prandial observada na dieta low-carb, em comparação com as demais dietas, pode contribuir — junto com outros fatores — para que a manutenção do peso, ou a perda de peso adicional, possa ser obtida. Junto a isso, sabe-se que uma dieta low-carb é aparentemente a mais efetiva em preservar a taxa de metabolismo de repouso, mesmo após a perda de peso [2].




Referências

1. Walsh CO, et al. Effects of diet composition on postprandial energy availability during weight loss maintenance. PLoS ONE. 2013;8(3):e58172.

2. Ebbeling CB, et al. Effects of dietary composition on energy expenditure during weight-loss maintenance. JAMA. 2012;307(24):2627-34.



3 comentários:

  1. João, me desculpe se minha dúvida já foi discutida em algum post do blog, mas eu gostaria de saber sua opinião sobre o uso de vermífugos em adultos. Algumas pessoas acreditam que eles são úteis apenas em crianças.
    Desde já obrigado.

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    1. Olá, Sérgio!

      Não, isso nunca foi discutido aqui no blog. Mas sinto informar que essa não é minha área, então meu conhecimento sobre isso é limitado.

      Existem evidências que sugerem que alguns "vermes" podem ser benéficos e, na verdade, terem desenvolvido uma relação de comensalidade -- e talvez até simbiose -- entre helmintos e bactérias. O nematódeo que causa o amarelão tem sido utilizado, por exemplo, como estratégia alternativa no tratamento de algumas doenças que envolvem o sistema imune (já que os micro-organismos no intestino regulam diretamente o sistema imune), como doença celíaca. Alguns helmintos também têm sido testados contra doenças alérgicas.

      Além disso, a "Hygiene Hypothesis", assim como a "Old Friends Hypothesis", presume que a falta de exposição a diversos micro-organismos aos quais nós fomos expostos ao longo da evolução é responsável pelo surgimento e aumento na prevalência de algumas doenças.

      Por fim, fazendo uma rápida busca de estudos científicos que testaram a efetividade de vermífugos em humanos (adultos ou crianças), não se encontra nada. O que fazer "sentido", tendo em vista que a prevalência de infecções por "vermes" é baixa quando há saneamento básico minimamente adequado. Ou seja, é o tipo de pesquisa que beneficia "pouca" gente e que, ao mesmo tempo, teria um retorno financeiro relativamente baixo ou demorado.

      Considerando todas essas questões, particularmente sou cético em relação à utilização de vermífugos -- talvez até mesmo em crianças. É claro que se o indivíduo, adulto ou criança, possui contato, ou terá contato, com algum tipo de local em que a probabilidade de contração de uma infecção é maior, vale a pena utilizar algum tipo de vermífugo como prevenção (antes, durante, após; de acordo com a recomendação de um médico competente).

      Se alguém possui algum tipo de problema gastrointestinal que não é curado de forma alguma com as estratégias nutricionais ou médicas mais convencionais, incluindo bactérias probióticas, eu desconfiaria de uma infecção por "vermes". Claro que é importante também procurar pelos sinais e sintomas clínicos de tais infecções.

      Resumindo: eu não sou muito a favor da utilização de vermífugos.


      Sugiro esses dois links:

      http://chriskresser.com/the-hygiene-hypothesis-is-modern-disease-associated-with-being-too-clean

      http://chriskresser.com/what-are-the-hidden-costs-of-modern-hygiene

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