terça-feira, 29 de julho de 2014

Deficiência de vitaminas e ganho de peso





O ganho de peso é decorrente apenas do fato de consumir mais calorias do que se gasta? Será mesmo? Cada vez mais novas evidências têm demonstrado que outros fatores podem influenciar o ganho e a perda de peso, tais como o estado metabólico do indivíduo ou o consumo de carboidratos ou gorduras.

E um recente estudo experimental mostrou que a deficiência de vitaminas parece também exercer efeito direto sobre o ganho de peso e gordura corporal [1]!


Vitaminas e ganho de peso

Pesquisadores da França estudaram, em camundongos, o efeito da deficiência de vitaminas sobre o ganho de peso, a quantidade de gordura corporal e o metabolismo de glicose (grau de resistência à insulina). Para isso, eles separam os camundongos em dois grupos: 1) dieta padrão, contendo 100% da recomendação de todas as vitaminas; ou 2) dieta com apenas 50% da quantidade recomendada das vitaminas. A quantidade de minerais foi igual em ambos os grupos. O estudo teve duração de 12 semanas.

Nas figuras a seguir, as barras brancas representam os camundongos que receberam dieta padrão (grupo controle) e as barras pretas representam os camundongos que receberam dieta com apenas 50% das recomendações de vitaminas (grupo restrição).

Ao final do experimento, os animais que receberam a dieta restrita em vitaminas tiveram maior ganho de peso (gráficos A e B), além de apresentarem maior quantidade de gordura corporal total (gráfico C) e gordura corporal relativa ao peso (gráfico D).


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É possível perceber que o ganho de peso (gráficos A e B), apesar de estatisticamente significativo, foi até modesto. Entretanto, a gordura corporal mais que dobrou nos camundongos que receberam a dieta com restrição de 50% das vitaminas — em todos os tecidos adiposos que foram medidos (epididimal, perirenal e inguinal)! Ou seja, foi um ganho de peso decorrente do aumento na gordura corporal.

E tudo isso aconteceu independente do consumo de calorias. Veja na figura abaixo que o consumo das dietas foi igual em ambos os grupos, tanto em peso (gráfico F) como em calorias (gráfico G).


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Os pesquisadores fizeram também as medidas de glicose, insulina e HOMA-IR. Esse último parâmetro, HOMA-IR, indica o grau de resistência à insulina. A resistência à insulina, por sua vez, é um quadro de alteração metabólica em que o corpo e as células não respondem bem à ação da insulina, e, por isso, a insulina não consegue realizar adequadamente o seu papel de facilitar a entrada de glicose nas células. Quanto maior o HOMA-IR, maior a severidade da resistência à insulina.

Na imagem abaixo, pode-se perceber que não houve diferença estatística, entre os grupos, nos níveis de glicose e insulina (gráficos A e B, respectivamente). Sabemos que não houve diferença estatística porque os gráficos estão representados com letras iguais (a letra “a” minúscula, nesse caso). De qualquer maneira, verificou-se uma tendência de aumento nos níveis de insulina nos camundongos que receberam a dieta restrita em vitaminas.


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Nesse caso, é possível sugerir que o pâncreas desses animais já está começando a produzir uma quantidade aumentada de insulina, de forma compensatória — uma vez que as células muito possivelmente não estão respondendo muito bem à ação da insulina. Ou seja, os camundongos começam a ficar deficientes em vitaminas, ganham peso e gordura corporal e, adicionalmente, passam a apresentar resistência à insulina. E é justamente a tendência no aumento nos níveis de insulina que explicam o HOMA-IR aumentado nos camundongos que receberam dieta deficiente em vitaminas (gráfico C). Maior HOMA-IR = maior resistência à insulina.


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Considerações finais

É apenas o consumo excessivo de calorias que leva ao ganho de peso e gordura corporal? Claro que não. Aqui está mais um exemplo de que nosso organismo é muito mais complexo do que isso. E essas observações apresentadas pelo estudo não são recentes. Diversos estudos anteriores já demonstraram que realmente parece existir relação entre a deficiência de vitaminas e minerais — como vitamina D, vitamina A, vitamina C, vitamina E, cálcio, zinco etc — e o ganho de peso [2,3,4,5]. Os mecanismos são complexos e não são muito bem conhecidos, mas de fato parecem existir.

As vitaminas e minerais são essenciais para as mais diversas funções no corpo. Nesse foco de discussão, o estudo em questão mostra mais um lado importante do consumo de micronutrientes (vitaminas e minerais): a manutenção da homeostase do metabolismo energético e do peso. Nosso organismo é um sistema integrado, e os nutrientes influenciam todos os aspectos da saúde. Coma comida de verdade, que te forneça todos os nutrientes na sua forma mais natural possível!


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Referências

1. Amara NB, et al. Multivitamin restriction increases adiposity and disrupts glucose homeostasis in mice. Genes Nutr. 2014 Jul;9(4):410. 

2. Leão AL, dos Santos LC. Micronutrient consumption and overweight: is there a relationship? Rev Bras Epidemiol. 2012;15(1):85-95.

3. García OP, et al. Impact of micronutrient deficiencies on obesity. Nutr Rev. 2009;67(10):559-72

4. Kaidar-Person O, et al. Nutritional deficiencies in morbidly obese patients: a new form of malnutrition? Part A: vitamins. Obes Surg. 2008;18(7):870-6.

5. Aasheim ET, et al. Vitamin status in morbidly obese patients: a cross-sectional study. Am J Clin Nutr. 2008;87(2):362-9.



7 comentários:

  1. Adorei seu post Gabriel! Vitaminas são co-fatores metabólicos, se não estão presentes, nem todas as funções serão efetivamente realizadas. Viva a paleo, nutrição limpa e colorida.
    Abraços

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  2. Ótimo texto, João! Parabéns! Nessa mesma linha, você tem conhecimento de algum texto, tabela ou estudo que faça uma correlação entre micronutrientes e percentual de biodisponibilidade deles em cada alimento? Já ouvi muitos comentários do tipo: a vitamina A da cenoura não é muito biodisponível; o cálcio do leite idem; o omega 3 da chia/linhaça o mesmo. Enfim, você saberia dizer quantos porcento determinado micronutriente é biodisponível em cada alimento? Ou melhor, saberia onde eu posso obter essa informação? Pode ser em inglês. Obrigado! Christian.

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    1. Muito obrigado, Christian!

      Sinceramente desconheço de textos, artigos ou livros mais completos que informem, de forma compilada, a biodisponibilidade de vitaminas e minerais de alimentos específicos. Se procurar, você certamente encontrará artigos isolados que avaliam alguns alimentos em particular, e, a partir desses, obter informações acerca dos alimentos que você tiver interesse. Se quiser alguma ajuda, desde que não sejam muitos alimentos, posso até ajudar.

      De maneira geral, a biodisponibilidade de vitaminas e minerais é maior em alimentos de origem animal do que em alimentos de origem vegetal. Muitas vezes, a disponibilidade é tão maior que, mesmo tendo menor quantidade de determinada vitamina em um alimento de origem animal do que em outro de origem vegetal, seu corpo absorve e utiliza melhor a vitamina que foi proveniente do alimento de origem animal.

      Além disso, além do percentual de aproveitamento ou absorção de determinada vitamina ou mineral, a quantidade total do nutriente também é muito importante. Vou dar um exemplo com o cálcio. Muita gente diz que, apesar da quantidade de cálcio no leite ser grande, a disponibilidade é baixa. E isso realmente é verdade: cerca de 30% do cálcio total do leite é absorvido, enquanto que 50% do cálcio na couve é aproveitado pelo corpo. Mesmo assim, a quantidade total de cálcio no leite é infinitamente superior ao encontrado na couve, o que no final resultará num aporte maio de cálcio pelo leite, mesmo esse apresentando uma disponibilidade (em valores percentuais) inferior. Seria necessária a ingestão de 3 xícaras de couve para obter o equivalente de cálcio presente em 250 mL de leite.

      A quantidade total de vitaminas e minerais nos alimentos é muito importante, mas o quanto o nosso organismo consegue aproveitar também é fundamental. Ainda existem outros aspectos que são importantes para isso. Quando estamos deficientes em determinado nutriente, nosso corpo naturalmente melhora a absorção, o aproveitamento e a "reciclagem" (para os nutrientes em que é possível fazer isso) de vitaminas e minerais.

      São vários fatores importantes. Mas variando a dieta e os alimentos ingeridos, consumindo alimentos de verdade tanto de fontes animais como vegetais, tá de bom tamanho.

      Esse artigo junta alguns dados interessantes:

      http://journals.cambridge.org/download.php?file=%2FNRR%2FNRR7_01%2FS0954422494000090a.pdf&code=86c85fcfa0624e59388169c5ae3c5095

      E tem esse livro. Não sei bem todo o conteúdo dele e se ele fala de forma específica de cada alimento, mas se você tiver interesse:

      http://www.amazon.com/Vitamins-Foods-Bioavailability-Analysis-George/dp/0412780909

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  3. Muito obrigado pelos esclarecimentos adicionais, João! Agradeço também pelas dicas de leitura. Vou começar pelo artigo; caso ele não seja suficiente, eu partirei para o livro. Mais uma vez, obrigado!

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  4. João, parabéns e muito obrigado por compartilhar conhecimento informação de qualidade. A web carece muito disso.
    Seu blog foi um verdadeiro "achado" para desmistificar questões relativas à nutrição que vem sendo espalhadas na internet. Na maioria dos casos, citando pesquisas, mas sem colocar o link das mesmas.
    Se me permite fugir um pouco do tema...Gostaria de saber a sua opinião (e acho que daria um ótimo tema para um post)sobre a vitamina D3, que vem recebendo muita atenção da mídia nos últimos tempos e adquirindo uma áurea de milagrosa. Muito se fala da sua eficácia na prevenção de doenças, inclusive câncer.
    Mais uma vez, obrigado.

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    1. Olá, Leonardo.

      Como é um tema muito amplo e complexo, não dá pra entrar em muitos detalhes. Mas posso resumir da seguinte forma: existe um potencial muito grande para a vitamina D na prevenção e no tratamento de doenças, então é bom que todos tenham níveis adequados desse nutriente. Pode ser pela suplementação, mas se for pela exposição solar provavelmente é melhor ainda.

      De qualquer forma, temos que ir com calma. Porque, mesmo com um grande aumento no interesse e nas pesquisas sobre a vitamina D nos últimos anos, ainda sabemos relativamente pouco sobre ela. Em alguns casos, os supostos benefícios são um pouco exagerados, com extrapolações que vão além do nosso verdadeiro entendimento. Mas, como falei, o potencial existe.

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