domingo, 20 de abril de 2014

Não dê chocolate ao seu cachorro!





Não é um mito. Chocolate pode ser tóxico para os cachorros, assim como para outros animais. A toxicidade se dá pela teobromina (substância muito semelhante à cafeína), e é caracterizada por sinais e sintomas como inquietude, falta de ar, tremores musculares, arritmia cardíaca e vômitos.

A teobromina é encontrada principalmente no cacau (Theobroma cacao), mas também está presente em alimentos como café, chás e noz de cola.




A literatura científica é relativamente escassa no que diz respeito a estudos conclusivos sobre que a potencial toxicidade da teobromina em animais. Na realidade, as poucas evidências que existem demonstraram os efeitos adversos da ingestão de teobromina apenas em relatos de casos isolados [1,2] (que não são estudos muito "fortes") ou em trabalhos em que o foco era o metabolismo geral da teobromina em diferentes espécies animais, e não especificamente sua toxicidade [3]. 

Os relatos de caso estão longe de ser o tipo de estudo ideal para avaliar se determinado composto é ou não tóxico, para animais ou humanos, uma vez que podem simplesmente estar reportando reações específicas a determinadas substâncias, como a teobromina, no caso. Esses estudos podem, no entanto, sugerir a possibilidade da toxicidade por teobromina existir. Já os estudos que analisam o metabolismo da teobromina pouco (ou nada) nos falam sobre toxicidade, pelo menos com o pouco de informação que temos.

Um dos poucos estudos que pode nos dizer algo sobre a toxicidade da teobromina em cães foi conduzido em 1980 [4]. Apesar de possuir uma metodologia muito interessante, foi um estudo bastante cruel, e que certamente não seria aprovado pelos comitês de ética de hoje em dia, já que os pesquisadores deram doses letais de teobromina para alguns cães e sacrificaram tantos outros ao longo do experimento.

Após estudarem diferentes doses de teobromina, que variaram de 15 a 1000 mg/kg de peso dos cães, em períodos agudos (doses únicas) e crônicos (semanas ou ano), os pesquisadores verificaram o seguinte:
  • Doses únicas: 200 mg/kg ou menos de teobromina não provocaram mortes, enquanto 300 mg/kg ou mais foram letais para alguns cães.
  • Doses diárias por 28 dias: 75 a 150 mg/kg, para 10 dos mesmos cães que receberam as doses únicas, foram letais dentro de 28 dias, sendo que a maior parte dos cachorros morreu antes do final desse período.
  • Doses diárias por 1 ano: 25 ou 50 mg/kg diariamente por 4 meses, e depois 100 ou 150 mg/kg diariamente por 8 meses, causaram 3 mortes em 17 cachorros.
  • A maior parte dos cães, com administração aguda ou crônica de teobromina, desenvolveu sinais de fibrose no átrio direito do coração  sintoma que normalmente leva, pelo menos, à perda parcial de função do órgão.

A partir desses resultados, sugere-se que: 
  • Quantidades de teobromina superiores a 200 mg/kg, em uma única dose, podem ser letais para os cachorros.
  • Doses "intermediárias" de 75 a 150 mg/kg são extremamente tóxicas quando administradas diariamente.
  • Doses "menores", de 25 a 50 mg, possivelmente são suficientes para não causar toxicidade aguda na maior parte dos cães; ao mesmo tempo, essas doses podem provocar um efeito de "adaptação" dos caninos ao metabolismo da teobromina. Isso ajudaria a explicar por que houve menos mortes na parte do experimento que durou 1 ano do que na parte que durou apenas 28 dias. Vale lembrar que, nos 8 meses finais do período de 1 ano, as doses de teobromina de 100 a 150 mg/kg eram semelhantes ou até maiores que as doses de 75 a 150 mg/kg utilizadas durante o período de 28 dias dos experimentos  e, mesmo assim, menos animais morreram no período de 1 ano quando comparado ao período de 28 dias (18% x 100%, respectivamente).
  • Sendo letais ou não, tanto doses agudas como crônicas podem levar à redução no funcionamento adequado do coração, o que aumenta a probabilidade do animal de desenvolver diversos problemas de saúde.

E o que tudo isso significa em termos práticos? Chocolates amargos podem conter 700 mg (ou mais) de teobromina em 100 gramas. Assim, essa quantidade de 100 g de chocolate poderia ser suficientemente letal para um cachorro pequeno de 3 ou 4 kg, por exemplo. Quanto mais amargo, maior é a concentração de teobromina no chocolate. O chocolate branco, por sua vez, contém quantidades mínimas dessa substância — mas isso não quer dizer que você pode ou deve dar chocolate branco ao seu cachorro!

Vendo por esse lado, pode parecer que a toxicidade por chocolate seria algo difícil de ocorrer. Entretanto, temos alguns exemplos na literatura científica que sugerem toxicidade com doses variadas de teobromina proveniente do cacau [1,2], além dos mais diversos casos referidos na internet, e no nosso dia a dia, de donos e cães que não tiveram boas experiências com chocolate. Acredito que praticamente todo mundo já ouviu alguma história de cachorro passando mal com o consumo de chocolate.

Não vale a pena correr o risco de ver nossos grandes amigos passando mal, ou até mesmo morrendo, por conta de chocolate. Nessa páscoa, assim como nos demais dias do ano, simplesmente não dê chocolate ao seu cachorro — ou gato ou pássaro ou qualquer outro animal de estimação. Se quiser dar-lhe um agrado, procure por algum produto que seja "adequado" para o bicho.

E se você não tem cachorro ou outro animal de estimação, acredito ser muito interessante obter um, por experiência própria e de outras pessoas. Os inúmeros benefícios, incluindo companhia e maior bem-estar, superam qualquer "prejuízo" que eles podem trazer. Há centenas de abrigos que cuidam de cachorros e outros animais que esperam por adoção. Vale muito a pena para todos, mulheres ou homens, crianças, adultos ou idosos! E até a ciência concorda com isso [5,6,7,8,9,10,11,12].


***
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Referências

1. Sutton RH. Cocoa poisoning in a dog. Vet Rec. 1981;109(25-26):563-4.

2. Drolet R, et al. Cacao bean shell poisoning in a dog. J Am Vet Med Assoc. 1984;185(8):902. 

3. Miller GE, et al. Comparative theobromine metabolism in five mammalian species. Drug Metab Dispos. 1984;12(2):154-60.

4. Gans JH, et al. Effects of short-term and long-term theobromine administration to male dogs. Toxicol Appl Pharmacol. 1980;53(3):481-96.

5. Serpell J. Beneficial effects of pet ownership on some aspects of human health and behaviour. J R Soc Med. 1991;84(12):717-20.

6. Cangelosi PR, Embrey CN. The healing power of dogs: Cocoa's story. J Psychosoc Nurs Ment Health Serv. 2006;44(1):17-20.

7. Müllersdorf M, et al. Aspects of health, physical/leisure activities, work and socio-demographics associated with pet ownership in Sweden. Scand J Public Health. 2010;38(1):53-63.

8. Arhant-Sudhir K, et al. Pet ownership and cardiovascular risk reduction: supporting evidence, conflicting data and underlying mechanisms. Clin Exp Pharmacol Physiol. 2011;38(11):734-8.

9. Jarvis S. Health, welfare and pet ownership. Vet Rec. 2011;169(17):429-31.

10. McConnell AR, et al. Friends with benefits: on the positive consequences of pet ownership. J Pers Soc Psychol. 2011;101(6):1239-52. 

11. Krause-Parello CA. Pet ownership and older women: the relationships among loneliness, pet attachment support, human social support, and depressed mood. Geriatr Nurs. 2012;33(3):194-203.

12. Stanley IH, et al. Pet ownership may attenuate loneliness among older adult primary care patients who live alone. Aging Ment Health. 2014;18(3):394-9.



6 comentários:

  1. Olá João Gabriel

    pelo que entendi essa toxicidade é só em relação a cães.
    E quanto à cafeína presente no café, chocolate e em alguns tipo de chá, faz bem ou mal? o que as pesquisas mais sérias dizem a esse respeito e qual é a sua opinião?

    Mais uma vez, obrigado pelo excelente conteúdo do blog.

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    1. Olá, Carlos!

      As evidências consistentemente sugerem que a cafeína também é tóxica para cachorros. Quanto menor for o tamanho do animal, maior o risco de efeitos adversos.

      Mais um motivo pra evitar o chocolate (principalmente os mais amargos); e as demais fontes de cafeína, claro.

      Eu que agradeço a leitura!

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  2. Boa tarde João

    Fiz uma busca no Pubmed para saber mais a respeito da cafeína, e li alguns estudos, embora eu não tenha experiência suficiente para analisar estes artigos, eu sei que ensaios clínicos são mais relevantes no que diz respeito a evidências, aprendi um pouco sobre isto aqui no seu blog e no blog do Dr. Souto. Mas eu apenas leio o que está disponível nos métodos, resultados e conclusão. Enfim...
    A maioria dos estudos que eu li mostraram benefícios e apenas um mostrou que aumenta a pressão arterial de forma que poderia contribuir para um aumento do risco de doença cardíaca.Já outro mostra que não há este tipo de risco. Gostaria de saber sua opinião, de uma forma geral, se o consumo diário de café pode não ser uma opção saudável e também sobre estas diferenças entre os estudos. Se não for incomodar, claro. Obrigado.

    http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12140349
    http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26843588

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    1. Olá, Ulisses.

      Temos duas meta-análises de estudos de coorte mostrando associação inversa entre o consumo de café e o risco de derrame:

      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21920945
      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23267421

      Há também uma meta-análise de estudos de coorte mostrando não haver relação entre a ingestão de café e o risco de doenças cardíacas:

      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17156982

      Nas meta-análises de ensaios clínicos, apesar de a ingestão específica de cafeína (suplemento) aumentar a pressão arterial (apenas de maneira aguda), não existe efeito do consumo de café (bebida) sobre esse parâmetro. Além disso, estudos de coorte não mostram associação entre consumo de café e o desenvolvimento de hipertensão:

      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15834273
      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21880846
      http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23032138

      O café contêm cafeína, mas também possui diversas outras substâncias em sua composição. Logo, café e cafeína não necessariamente vão ter o mesmo efeito sobre os parâmetros de saúde que podemos medir. No caso da pressão arterial, claramente não possuem o mesmo efeito.

      Mais importante ainda, o ensaio clínico desse ano que você linkou não mostrou efeito da ingestão de café em marcadores que podem ser até mais interessantes do que apenas a pressão arterial, como a FMD.

      É seguro dizer que uma ingestão moderada de café, incluindo as quantidades habitualmente consumidas pela maior parte das pessoas, não leva a um maior risco de problemas cardiovasculares.

      Com a cafeína isolada não podemos dizer a mesma coisa, porque ela afeta, mesmo que agudamente, a pressão arterial (e talvez outros parâmetros de função endotelial). Assim, não podemos descartar a possibilidade de o uso crônico e continuo dessa substância influenciar negativamente o risco de doenças cardiovasculares.

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    2. Boa noite João
      Vou ler os estudos que você linkou, mas sua explicação foi esclarecedora, mais uma vez agradeço a sua atenção. aprendo muito com o seu blog.
      Parabéns pelo seu trabalho!

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    3. Eu que agradeço pela leitura e comentários!

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